Ideias ao Lavar a Louça-I

Um dia, enquanto eu lavava a louça — não faz muito tempo — tive uma espécie de estalo, como se a ficha tivesse caído: os pratos estavam empilhados de forma organizada, a água na temperatura certa, tudo acontecia como mandava o figurino, e com movimentos quase musicais. Havia uma ordem ali, uma lógica, uma pequena sabedoria doméstica. E pensei comigo mesmo: EU DEVERIA ESCREVER SOBRE ISSO! Eu havia desenvolvido, ao longo dos anos, uma técnica simples, mas eficiente. Algo que poderia ajudar minha casa. Talvez até trazer mais leveza à rotina.

Mas, enquanto a água corria, outro pensamento me atravessou.

Por que escrever apenas sobre lavar louça? Por que não escrever sobre algo que possa lavar os olhos… e talvez o coração?

Por que não escrever sobre algo que alcance não apenas uma família, mas muitas? E, mais, algo que talvez toque aqueles que estão confortavelmente sentados nos bancos – sim, não somente das praças, mas também das igrejas, pensando ou ouvindo novas ideias, refletindo sobre sucesso, crescimento — e, muitas vezes, sobre como ganhar mais dinheiro?

A água continuava correndo.

E, de repente, surgiu outra imagem: um homem rico subindo numa árvore.

A história é conhecida, mas nunca deixa de surpreender.

Um homem de pequena estatura queria ver Jesus.

Nós o conhecemos como Zaqueu.

Ele não era pobre. Não era marginalizado. Não estava procurando pão. Ele tinha pão de sobra. Procurava, talvez sem saber, algo que o dinheiro não lhe dera: sentido pra vida.

Ele já tinha ouvido falar de Jesus. Histórias circulavam. Alguns diziam que era profeta. Outros, que era perigoso. Outros ainda, que era simplesmente diferente. Algo naquele homem o inquietou profundamente — o suficiente para fazê-lo esquecer sua posição social. O suficiente para não se preocupar com sua reputação. O suficiente para subir numa árvore.

Imagine a cena: Uma rua principal atravessando a cidade. Gente se acumulando. Um murmúrio crescente. Poeira levantando. Olhares procurando. E ali, estrategicamente posicionado, Zaqueu em um galho.

Ele havia pensado em tudo. Era sua especialidade. Do alto, ninguém o notaria. Ele poderia observar sem ser observado. Estava acima da multidão, protegido, seguro. Assim vivera toda a sua vida: calculando, protegendo-se, controlando.

E, desta forma se tornara muito rico.

Uma riqueza que protege. Uma riqueza que isola. Uma riqueza que cria distância. Uma riqueza que diminui a necessidade dos outros — e, lentamente, diminui também a sensibilidade.

Além disso, ele era parte do sistema. Chefe dos cobradores de impostos. Funcionário do Império romano. Estava ao lado do poder. Ao lado da ordem dominante. Ao lado de quem mandava.

Achava que tinha coberto todas as vulnerabilidades.

Subiu na árvore para observar.

Mas então aconteceu o inesperado.

Jesus parou.

Olhou para cima.

Chamou-o pelo nome.

De repente, o escondido foi visto.

O distante foi chamado para perto.

O observador tornou-se observado.

E tudo mudou.

É aqui que nasce a generosidade — não de baixo, mas de cima.

Não da iniciativa humana, mas do encontro divino.

Não de cálculos econômicos, mas da graça.

Rev. Rudi A. Kruger – Faculdade de Teologia Uriel de A. Leitão – rudi@doctum.edu.br

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