Tem dia que a gente não senta pra pensar. A gente tromba com uma ideia. Hoje eu trombei com O Auto da Compadecida e não foi aquela lembrança leve, de quem só revisita uma obra de Suassuna. Foi daquelas que cutucam, que incomodam, que deixam um gosto atravessado na cabeça. Porque a gente gosta de se achar certo. Gosta de acreditar que anda dentro da linha, que faz o que é justo, que não pisa fora do risco.
Só que aí aparece João Grilo, daquele jeito dele, mentindo, enrolando, se virando como dá e, no fim, você não consegue odiar o sujeito. E isso diz muito mais sobre a gente do que sobre ele. João Grilo não é exemplo. Ele é necessidade. É o retrato de quem nunca teve escolha fácil. De quem aprendeu cedo que a escolha entre correto e sobreviver é acirrada. E é aí que a coisa começa a apertar pra quem assiste ou pra quem, como eu hoje, simplesmente lembra.
Porque é muito confortável defender moral quando a vida está organizada. Difícil é sustentar discurso bonito quando falta, quando pesa, quando o mundo encosta você na parede e pergunta, sem rodeio: e agora? A maioria até tem resposta, ou acha que tem: “não sei, só sei que foi assim”. A gente vive de pequenas flexibilizações. Pequenos atalhos. Pequenas versões da verdade que contamos pra nós mesmos pra conseguir dormir em paz depois. Nada muito distante do que João Grilo faz, a diferença é que ele não disfarça tanto. Talvez por isso incomode menos do que deveria.
O problema nunca foi a mentira escancarada. O problema é a honestidade seletiva. Aquela que funciona bem enquanto não custa caro demais. Aquela que a gente defende até o momento em que manter ela significa perder alguma coisa. E é por isso que a obra continua viva. Porque, no fim das contas, ela desmonta essa ideia confortável de que existem dois lados bem definidos: o certo e o errado. Não existe essa linha limpa. Existe gente tentando, errando, ajustando, justificando. Gente vivendo como dá. E talvez o mais incômodo seja justamente isso: perceber que ninguém é tão correto quanto gosta de parecer. Que, dependendo da situação, todo mundo negocia um pouco da própria verdade.
No fim, não é sobre João Grilo. Nunca foi. É sobre a gente e sobre o que a gente faz quando a vida aperta de verdade. Mas, no meio desse tombo de pensamento, ainda falta uma coisa. Falta a gaitinha de fundo. Aquela gaitinha que Chicó assopra quase como quem não quer nada, mas que entra na cena como cúmplice de ressurreição, como aviso de que a história ainda não terminou. E é justamente nessa virada de chave que fica no ar a pergunta que ninguém responde com facilidade:
quando chegar a nossa vez,
a gente vai ser diferente mesmo
ou só mais um tentando dar um jeito?
Ô, promessa desgraçada, ô, promessa sem jeito!










