“Não comentávamos os ataques de fúria que papai passou a ter. Também evitávamos falar sobre o jeito estranho de mamãe andar pela casa durante a noite, sonâmbula. Fingíamos não notar o gosto esquisito das refeições que ela preparava. Havia tantas coisas que precisavam ser ditas, mas simplesmente escolhemos o silêncio. Apenas não falávamos”.
Essa passagem de ‘Casa de Bonecas’, da escritora Érica Carvalho, não é apenas um recorte narrativo de um thriller psicológico. Ela é a síntese de um mecanismo humano antigo, recorrente e devastador: a escolha consciente pelo silêncio diante de algo visivelmente errado. No livro, acompanhamos uma família que passa a ser psicologicamente corroída por uma casa de força sobrenatural, capaz de deformar percepções, emoções e limites morais. Mas, para além do elemento fantástico, tomo a liberdade para dizer que o que realmente destrói aquela família não é a casa em si: é a incapacidade de nomear o que está acontecendo.
O pai passa a ter ataques de fúria cada vez mais intensos. A mãe vagueia pela casa durante a noite, sonâmbula, como se já não estivesse inteiramente presente. As refeições ganham um gosto estranho, como se algo estivesse contaminado desde dentro. Todos percebem. Todos sentem. Mas ninguém fala. Cada sinal é tratado como algo isolado, passageiro, suportável. E é exatamente aí que a tragédia começa.
Toda essa situação não pertence apenas à ficção. Ela se repete, com fidelidade no dia-a-dia de muitas famílias de nossa atualidade. Lares onde existe convivência, mas não existe uma verdadeira comunhão. Onde pode se observar a existência da presença física, mas completa ausência emocional. Onde os conflitos não são elaborados e resolvidos, mas apenas varridos para debaixo do tapete. Dentro dessa realidade, cada membro da família aprende, muito cedo, que falar dói mais do que calar, e que o silêncio parece, à primeira vista, uma forma de proteção.
Na história do livro, essa proteção se mostra completamente ilusória. No decorrer da história, a mente do pai vai sendo lentamente tomada pela influência da casa. Porém, no momento mais crítico, ele consegue alertar uma das filhas sobre o perigo iminente, antes de perder completamente o controle. Com a ajuda de outra filha, que percebe que algo está profundamente errado, cinco crianças conseguem fugir. Mas a fuga não impede a destruição: a mãe, uma tia que morava com a família, e a própria estrutura familiar são destruídas. O silêncio não salvou ninguém, apenas adiou o inevitável, de forma que, a partir daquele episódio, nenhum dos sobreviventes foram mais os mesmos.
Depois da tragédia, os irmãos se separam. Distanciam-se física e emocionalmente. Cada um carrega consigo os efeitos da casa, os traumas, as marcas invisíveis do horror vivido. O livro acompanha, personagem por personagem, mostrando como cada um tentou lidar com aquilo à sua própria maneira. E aqui está um ponto de destaque, tanto para a história do livro como para a história da vida de muitas pessoas e famílias atualmente: mesmo tendo passado pelo mesmo inferno, nenhum deles compartilha com os outros suas experiências mais profundas. Nem durante a convivência na casa, nem depois da separação. Cada um se fecha em sua dor particular, e busca, ao seu modo, dar fim ao caos que os rodeia.
Essa é, talvez, a metáfora mais brutal da nossa realidade social e familiar. Pessoas que sofreram juntas, mas que, ao invés de se ajudarem, buscam resolver tudo sozinhas, procurando algum tipo de proteção por meio do silêncio e do isolamento, de forma que esse isolamento passa a ser terreno fértil para a repetição do sofrimento.
Hoje, muitas famílias não precisam de uma “casa maldita” para se destruírem. Basta a ausência de diálogo real. Basta a recusa em ouvir o que desestabiliza. Basta ignorar os sinais: a irritabilidade constante, o retraimento, a tristeza disfarçada de cansaço, a agressividade travestida de autoridade, o silêncio prolongado que grita mais do que qualquer palavra. Em nome de uma falsa harmonia, tudo é tolerado, até que nada mais reste. Cada um aprende a suportar sozinho o que deveria ser partilhado. E, assim, o laço familiar deixa de ser vínculo e se torna apenas convivência forçada. Ninguém se escuta, ninguém se vê. Todos sobrevivem, até que sobreviver já não seja mais possível.
Destruir uma família raramente acontece de uma vez. A destruição é gradual, quase imperceptível. Ela ocorre quando se escolhe não perguntar, não insistir, não enfrentar. Quando se normaliza o estranho, se justifica o injustificável e se chama de “fase” aquilo que já é sintoma. Em Casa de Bonecas, os personagens sabiam que havia algo errado. Na vida real, também sabemos. O problema é que saber não basta: é preciso dizer.
No fim, o que sobra é sempre o mesmo cenário: irmãos afastados, histórias fragmentadas, dores não elaboradas e a sensação de que tudo poderia ter sido diferente. Mas já é tarde. O silêncio cumpriu sua função. Destruiu um por um. Não com barulho, não com espetáculo, mas com a paciência cruel de quem corrói por dentro. E, quando finalmente se tenta falar, já não há mais ninguém disposto ou capaz de ouvir.
Como alguém que se estabeleceu no mundo da leitura lendo os contos de Edgar Allan Poe, Stephen King, H. P. Lovecraft e companhia, encontrei no livro da professora Érica Carvalho não só um ótimo thriller psicológico, mas um apanhado simbólico daquilo que acontece todos os dias em inúmeras famílias brasileiras: a destruição de cada um de seus membros; não por meio da morte, como em “A Casa de Bonecas”, mas no isolamento e no afastamento emocional demonstrados pelo silêncio e pela decisão de ignorar todos os sinais que apontam para a necessidade de ajuda.








