Três vazamentos em poucos dias mostram que o desastre nem sempre rompe. Às vezes ele pinga, insiste e aprende a ficar
Riscos
Riscos, não há
Não há
há!
Foi “apenas” um vazamento. Depois outro. Depois mais um. Três vezes em menos de uma semana. Em Congonhas – MG, a mineração voltou a escorrer.
Escorreu água turva, escorreram sedimentos, escorreu também um discurso conhecido de que não há risco, de que as estruturas estão estáveis, de que a situação está sob controle. Sempre está. Até não estar mais. Aprendemos, à força, que o desastre no Brasil só recebe esse nome quando ele é espetacular. Quando rompe, quando mata, quando vira imagem aérea. Antes disso, ele costuma ser tratado como incidente. Um detalhe técnico. Um problema de drenagem. Um evento climático.
Em 5 de novembro de 2015, a barragem de Fundão se rompeu em Mariana. Mais de dez anos se passaram. Tempo suficiente para prometer mudanças, revisar protocolos e multiplicar discursos. Tempo insuficiente, ao que parece, para transformar a memória em limite e o aviso em ruptura de lógica. Mas o que são três vazamentos em menos de sete dias, senão um território avisando que algo não está funcionando?
Congonhas conhece esse idioma. Conhece o peso da mineração no chão, na água, no ar e na rotina. Conhece o barulho constante das operações e o silêncio que vem depois das notas oficiais. Conhece também a convivência antiga com o risco, essa palavra que vai se tornando abstrata quando passa a fazer parte da paisagem.Os vazamentos não aconteceram todos no mesmo lugar. A repetição é que os aproxima. Quando chove além do previsto, e hoje quase sempre chove além do previsto, as estruturas cedem. Não de uma vez, mas aos poucos. Como quem pede licença para falhar.
E talvez seja essa a parte mais perigosa: o vazamento que não choca. Que não interrompe a cidade. Que não gera comoção nacional. O vazamento que vai sendo absorvido pelo cotidiano, como se o território tivesse obrigação de suportar. Diz-se que foram chuvas intensas. Como se o clima ainda fosse um elemento imprevisível, quando na verdade ele apenas responde ao que fizemos com o mundo. Planejar empreendimentos como se eventos extremos fossem exceção é escolher operar permanentemente no limite e empurrar esse limite para quem vive em volta.
Congonhas é patrimônio histórico. Mas também é um corpo vivo. Um corpo que sente quando a água muda de cor, quando o rio carrega mais do que deveria, quando o solo se encharca de algo que não é só chuva. O risco não chega de repente. Ele avisa. Ele pinga, escorre, vaza. Ele se repete.
Talvez a pergunta não seja se houve rompimento.
Talvez a pergunta seja por que seguimos tratando o aviso como se fosse normal.
Há algo de profundamente brasileiro nessa pedagogia do quase. O quase desastre, o quase controle, o quase suficiente. Vive-se na borda, como se a borda fosse lugar seguro. E enquanto se discute se o termo correto é vazamento, extravasamento ou carreamento de sedimentos, o território absorve o impacto que não cabe nas palavras. A cidade tenta seguir. O rio tenta seguir. As pessoas tentam. Mas seguem cansadas, alertas, impostas a conviver com aquilo que não deveria ser rotina. Porque o problema não é apenas o que vaza. Mas todos os rastros que a mineração deixou e ainda deixa sob a superfície da terra, brasileira, mineira, terra de um povo. Congonhas.
Quando o extraordinário se repete, ele deixa de chocar. E quando deixa de chocar, deixa de mobilizar. O perigo maior talvez não esteja na água que transborda, mas na indiferença que se instala. Congonhas não pede silêncio nem pânico. Pede escuta. Porque quem avisa, quase sempre, é o chão. O problema é quando escolhemos não ouvir, chamando de normal aquilo que já deveria ter parado.









