Estava sentada no ponto de ônibus com meus fones e um livro em mãos, The Smiths era a escolha da vez. Ao som de “There Is a Light Never Goes Out” buscava descansar minha mente imaginando cenários onde entrara em um ônibus sem destino deixando a estrada me levar. Minha postura corporal não estava aberta para interações sociais naquele momento. “Só quero descansar” – pensei enquanto bufava. Segundos depois ouço uma voz longe, feliz, empolgada, levanto os olhos e pauso a música. Era uma conhecida vindo em minha direção dizendo que soubera da novidade e queria me parabenizar pela gestação. Confesso que mesmo estando exausta, esse era um assunto que me agradava e me deixava muito feliz em falar sobre, então concertei a postura, tirei os fones e me propus a escutar e receber as felicitações.
Diante das perguntas, percebi que a maioria não eram sobre mim e o bebê. Fui ignorada quando demonstrei empolgação e felicidade por estar experienciando tal fase, as perguntas giravam entorno de um único eixo: o Pai.
Ela não estava interessada em saber se eu estava bem, se o bebê estava saudável. Isso ela já estava vendo. Já deduziu. Eu estava ali de pé. Estava viva então tudo estava bem, é claro. Ela precisava de mais, precisava de informações que os olhos não tinham acesso. “E o Pai… deve estar feliz com a notícia…” – olhar de análise e sorriso frio. Não sou o tipo de pessoa que expõe a vida pessoal, apesar de gostar de fazer compartilhamentos em redes sociais. Existem situações e acontecimentos que prefiro guardar em um potinho na minha mente e no coração para acessá-los quando sinto que devo. Nem tudo precisa ser exposto ou dito, mas sentido. Com meu silêncio, ela se viu na necessidade em insistir e acrescentar “Quem é o pai, eu conheço? Ele é daqui? Eu nem sabia que você namorava, ele reagiu bem?” – Não. – Respondi com um sorriso ameno e bem desmotivado no rosto.
O ônibus chegou
Sentada admirando a paisagem de dentro do ônibus, voltei para a minha playlist que já não estava surtindo tanto efeito pois aquele momento em que acabara de vivenciar, não havia sido isolado. Estava percebendo que, socialmente, a gestação não é sobre o bebê, muito menos a mãe. Infelizmente é usada como um portal onde se abre (de maneira forçada e velada) uma liberdade para se obter notícias que não irão agregar na vida de quem as recebeu. Usam estratégias muito criativas, desde jogos psicológicos até perguntas diretas forçando uma intimi… – O ônibus chegou ao destino.
“Bigmouth” era a trilha sonora do caminho que percorri para chegar em casa, cantarolava e sorria enquanto repetia o refrão incansavelmente.
“Linguarudos!” – pensei.
Cheguei ao apartamento e meu namorado estava terminando de preparar o jantar, era minha comida favorita! Ajudei a colocar a mesa e fomos comer. “E então, como foi seu dia meu bem?” – Perguntou ele curioso. “Nem te conto o que me aconteceu…” – respondi com toda empolgação do mundo.
Bigmouth lararara… Bigmouth larara… Bigmouth strikes again and I’ve got no right to take my place… ♫








