Ainda não é o fim (Parte I):

Fé sem alarmismo

 

Uma simples olhada para o cenário atual e as coisas que acontecem em nossa atualidade já é o bastante para percebermos que vivemos dias inquietos, tanto social como espiritualmente. E toda inquietação espiritual, quando não é filtrada por uma hermenêutica responsável, transforma-se em precipitação escatológica, em ansiedade desnecessária.

Parece haver um certo fascínio contemporâneo pelo colapso, uma ansiedade pelo fim — muitas vezes sem saber o que esse “fim” realmente significa. A cada guerra noticiada, a cada terremoto televisionado, a cada nova doença e epidemia que surgem com algum potencial para, talvez, levar a uma crise sanitária global, ergue-se imediatamente o coro: “Eis os sinais. Jesus está voltando!” Mas a pergunta que raramente é feita — e que deveria ser a primeira — é esta: estamos interpretando os acontecimentos a partir da Palavra, ou estamos forçando a Palavra a se encaixar nos acontecimentos que chegam até nós? Porque, quando a Escritura deixa de ser o eixo interpretativo e passa a ser um acessório confirmatório das nossas impressões, a escatologia deixa de ser revelação e passa a ser projeção, e a história da interpretação escatológica nos mostra que esse tipo de projeção, que reflete mais os nossos desejos pessoais do que a verdade bíblica, pode levar a consequências desastrosas.

Acredito que, para qualquer interpretação escatológica que vise falar sobre a volta de Jesus, o ponto de partida não pode ser outro senão a declaração categórica do próprio Cristo no Evangelho de Mateus 24:21: “Porque haverá então grande tribulação, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá.” Esta frase não é simplesmente retórica ou exagero pedagógico: ela é um critério histórico absoluto e o fio condutor que deve nortear a hermenêutica quando falamos da volta de Jesus. Jesus estabelece um parâmetro comparativo universal: o período que antecederá Sua manifestação será singular, incomparável, irrepetível — um período que nunca houve e nunca haverá na história do mundo. Sendo assim, se na história da humanidade já houve algo comparável, ou pior, que o período no qual estamos vivendo, então não estamos nos dias que antecedem a volta do Senhor.

Se já houve algo pior na história humana, então não estamos próximos à Sua revelação, e nossa pressa em dizer “Ele está às portas” revela pelo menos duas coisas: 1) desconhecimento da história da humanidade, pois julgamos os acontecimentos atuais como demasiadamente catastróficos sem levarmos em conta acontecimentos muito piores que já aconteceram desde a fundação do mundo; a própria história bíblica – que também deve ser vista e usada como chave hermenêutica para interpretar as palavras de Jesus nos evangelhos – fala sobre cataclismos muito maiores e piores do que vemos e vivemos em nossa atualidade; 2) como consequência, revela-se o desconhecimento do próprio livro que dizemos crer, que registra as palavras de Cristo, pois, ao agirmos assim, muitas vezes demonstramos um temor exagerado diante da realidade atual, mesmo com todos os textos e passagens dizendo que Deus nos guardaria e nos protegeria. E isso também traz suas consequências, pois aqueles que deveriam iluminar o caminho em meio à escuridão do mundo também estão se mostrando incapazes de enxergar esse caminho e, com seus erros dados por medos, preocupações e “esperança” infundada, têm servido mais às trevas do que à luz, levando muitos ao erro.

O erro aqui é fazer uma comparação emocional, baseada nos sentimentos que nossas percepções do estado atual nos causam, e não uma comparação histórica. O problema não é perceber sinais. O problema é olhar para a atualidade e, a partir dessas percepções e sentimentos, tomar nossa época como o período mais horrível da história, ignorando os períodos anteriores ao nosso.

A cada geração, cristãos sinceros acreditaram estar vivendo os dias finais: durante a queda de Roma, durante a peste negra, durante as guerras mundiais, durante a Guerra Fria. E, no entanto, a história continuou. Não porque Cristo falhou em Sua promessa, mas porque os homens falharam em compreender a magnitude do que Ele anunciou. Ele não falou de crises comuns. Falou de uma crise culminante. Ele não falou de turbulência histórica comum; falou de um colapso sem paralelo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *