Equipe jordaniana dirigida pelo treinador vargem-alegrense teve jogo adiado pela Champions League da Asia devido ao conflito
DA REDAÇÃO – Ney Franco, treinador do Al-Hussein SC, vive dias de incerteza em Doha, no Catar. A delegação jordaniana está na capital catariana para a disputa da Liga dos Campeões da Ásia, mas a competição foi impactada pela recente escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
O CONFLITO
Desde o último sábado (28), Estados Unidos e Israel realizaram um ataque coordenado contra o Irã, com ações aéreas e marítimas. A operação foi confirmada por autoridades dos dois países. O presidente norte-americano, Donald Trump, justificou a ação como forma de “defender o povo americano”, afirmou que “a liberdade está próxima” para a população iraniana e pediu que os cidadãos assumissem “o controle do governo”. Já o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, declarou estado de emergência em todo o território israelense.
Segundo Trump, o objetivo da ofensiva foi neutralizar “ameaças iminentes iranianas”. Em resposta, o Irã mobilizou aliados na região, como o grupo libanês Hezbollah, ampliando a tensão no Oriente Médio. O governo iraniano também realizou ataques contra países aliados dos Estados Unidos. Nesta segunda-feira (2), alvos no Catar incluíram uma central elétrica e um complexo de tratamento de gás. Na Arábia Saudita, um “incêndio limitado” na refinaria de Ras Tanura foi controlado. Não houve registro de vítimas.
“Quando você está fisicamente na região, tudo ganha outra dimensão”
Em vídeo publicado pelo site Bola na Área Esportes, Ney Franco relatou o clima vivido pela delegação.
“Estamos aqui em Doha com o Al Hussein, que é uma equipe da Jordânia, e viemos para disputar a Champions League da Ásia, contra o Al-Ahli, que é uma equipe aqui do Catar. Nós chegamos na sexta-feira(27/02) à noite, com aquele clima normal de competição internacional, concentração, treino bem programado e a expectativa de um grande jogo. Mas poucas horas depois a gente foi surpreendido pela notícia dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã. A partir dali o ambiente mudou, mudou completamente.
Quando estamos vivendo isso à distância, pela televisão, no caso guerra, parece algo distante. Mas quando você está fisicamente na região, tudo ganha uma outra dimensão. Vocês sabem que o Catar abriga a maior base militar americana aqui do Oriente Médio. Isso naturalmente coloca o país dentro de uma zona estratégica em meio a esse conflito.
A cidade aqui segue organizada, tranquila visualmente, as pessoas continuam circulando, os serviços funcionam, mas existe um sentimento coletivo de atenção. Você percebe no olhar das pessoas, no noticiário constante, no telefone que não para de receber mensagens. Inclusive, na noite passada, eu vi quatro estrondos fortes, ao longe, muito distante de onde nós estamos. Não teve nenhum impacto diretamente na nossa segurança. Mas é impossível não refletir sobre os sons que fazem lembrar que estamos vivendo um momento delicado.
Esse cenário já vinha dando sinais. Na semana passada, por exemplo, enfrentamos o Esteghlal, uma equipe do Irã, pelas oitavas de final da Champions League. O jogo seria no Irã, mas foi transferido para Dubai por questões de segurança. Nós vencemos o primeiro jogo por 1 a 0 e o segundo por 3 a 2, na nossa casa. Aquela mudança já mostrava que havia algo diferente acontecendo na região.
Agora o nosso jogo aqui foi adiado, o espaço aéreo foi fechado e aguardamos autorização para retornar à Jordânia. Estamos hospedados em um hotel com segurança. A nossa delegação tem contato constante com a Embaixada da Jordânia e seguimos todas as orientações das autoridades locais. O clube também nos dá total suporte neste momento.
O que mais marca é perceber como o futebol, que é paixão e alegria, pode de repente ser atravessado por acontecimentos maiores que o esporte. Ainda assim, também é o futebol que une essas culturas, que faz um brasileiro estar aqui trabalhando na Jordânia, competindo no Catar e enfrentando uma equipe iraniana dias atrás. Em realidade, somos todos conectados.
O sentimento é de serenidade e confiança de que a diplomacia e o diálogo possam prevalecer. Quem vive o esporte sabe: dentro de campo competimos, mas fora dele convivemos. O desejo é simples e profundo: que essa guerra termine o mais rápido possível, que a vida volte à normalidade e que o futebol volte a ser apenas futebol. Um abraço a todos.”






