A QUESTÃO NÃO ESTÁ EM PAUTA

No Brasil, a análise política virou um exercício de torcida organizada. Quem não odeia Jair Bolsonaro com fúria performática é imediatamente confundido com bolsonarista. Quem ousa reconhecer qualquer dimensão histórica do chavismo é carimbado como cúmplice de ditadura. O resultado é um debate raso, barulhento e, sobretudo, intelectualmente preguiçoso.

Uma parte da população do Brasil não simpatiza com Jair Bolsonaro — e isso não é um detalhe. Penso que essa posição se deve, sobretudo, à sua conduta durante a pandemia da Covid-19. Ao zombar da doença, desdenhar da ciência, ironizar a dor das famílias enlutadas e, em um dos momentos mais simbólicos de sua insensibilidade, afirmar que “não era coveiro”, Bolsonaro ajudou a construir um ambiente político que banalizou a morte. Gestos importam. Discursos importam. Em contextos de crise sanitária, eles matam.

Ainda assim — e é aqui que muitos se incomodam — reconhecer essa responsabilidade política não nos autoriza a negar um fato objetivo: Bolsonaro é, goste-se ou não, uma liderança política real, eleito dentro das regras institucionais vigentes e detentor de um capital simbólico que segue em disputa no cenário nacional. Negar isso é recusar a realidade, não enfrentá-la.

O mesmo vale para Nicolás Maduro. Reconhecer sua liderança política e a legitimidade histórica do movimento bolivariano não significa absolver o regime venezuelano de seus vícios autoritários. A Venezuela, hoje, não pode ser chamada de democracia plena sem violentar o conceito. Desconfio, e muito, da lisura de suas eleições recentes. Mas negar que Maduro é uma liderança real — goste-se ou não — é fechar os olhos para a realidade concreta da política latino-americana.

Bolsonaro não surgiu do nada. Cresceu sobre os escombros morais dos escândalos de corrupção que atingiram principalmente o Partido dos Trabalhadores — ainda que tenham atravessado quase todo o sistema partidário brasileiro. Do mesmo modo, o chavismo e o madurismo não brotaram por geração espontânea: emergiram do colapso de regimes corruptos, alinhados aos Estados Unidos, que por décadas drenaram as riquezas venezuelanas enquanto o povo empobrecia.

Aqui está o ponto que muitos se recusam a encarar: lideranças autoritárias não nascem no vácuo. Elas se alimentam do fracasso das elites, da desigualdade estrutural e da sensação generalizada de abandono. Ignorar isso é repetir o roteiro que as produz.

Goste-se ou não, Bolsonaro deixou espólios políticos, simbólicos e eleitorais que continuarão a ser disputados. Da mesma forma, Maduro — mesmo contestado, pressionado e isolado — segue sendo uma peça central no tabuleiro político venezuelano e regional. Fingir que essas lideranças não existem não as enfraquece; apenas fortalece narrativas simplistas.

Do ponto de vista jurídico, considero grave e perigoso que um presidente estrangeiro determine a prisão de outro chefe de Estado e intervenha militarmente em um país soberano. A ação dos Estados Unidos contra Nicolás Maduro não é apenas questionável: ela abre precedentes perigosíssimos para o direito internacional. Hoje é a Venezuela. Amanhã, quem?

Isso não apaga — e jamais apagará — o sofrimento concreto do povo venezuelano. A escassez de alimentos, a falta de insumos básicos, o colapso da infraestrutura e o êxodo forçado não são abstrações acadêmicas. São vidas interrompidas. E não, esse sofrimento não começou apenas com sanções externas, mas tampouco pode ser explicado sem elas.

É preciso fazer a pergunta que muitos evitam: por que Chávez e Maduro se elegeram com apoio popular real? A resposta é desconfortável para quem prefere vilões caricatos. Eles se elegeram porque falaram com uma população historicamente excluída, explorada e esquecida por elites que se locupletaram com o petróleo sob o beneplácito — quando não a tutela — dos Estados Unidos.

Nunca, em nenhum momento da história, uma sociedade prosperou sob domínio militar de uma potência estrangeira. Esse não é um slogan ideológico. É um dado histórico. Valeu para o Iraque, para o Afeganistão, para a América Latina do século XX — e vale, com ainda mais força, para a Venezuela de hoje.

O povo venezuelano nunca esteve no centro das preocupações da política externa norte-americana. Nem o povo brasileiro, nem o chileno, nem o argentino estiveram. O que sempre esteve em pauta foram interesses estratégicos, econômicos e geopolíticos. O resto é retórica.

A questão, portanto, não é escolher heróis ou vilões. A questão que não está em pauta — mas deveria estar — é como chegamos até aqui e por que insistimos em repetir os mesmos atalhos que nos conduzem aos mesmos abismos.

“Sem ética, a política não apenas erra — ela mata.”

PAZ E BEM!

Observação: Seguem abaixo textos produzidos pelo professor Lier, que sempre está presente conosco aqui no Diário de Caratinga, sobre a invasão da Venezuela e a captura de Maduro, para auxiliar aqueles que desejarem conhecer um pouco mais sobre as tensões entre Estados Unidos e Venezuela.

Agradeço ao professor Lier a sua disponibilidade em dividir seus conhecimentos sobre políticas externas. Grata.

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