CARATINGA- Famílias do Bairro Zacarias, em Caratinga, vivem dias de angústia após descobrirem que imóveis onde moram há anos estão sendo levados a leilão para pagamento de uma dívida milionária atribuída ao antigo dono do loteamento. A situação, que pegou os moradores de surpresa, tem gerado mobilização urgente na comunidade e apelos por ajuda das autoridades.
A história do bairro, segundo os próprios moradores, começa ainda na década de 1980. Em 1987, as primeiras famílias chegaram à região, que na época era formada por cafezais. Já em 1995, surgiu o projeto do Loteamento Bandeirantes, e no ano seguinte começaram as construções.
Desde então, o crescimento da comunidade foi marcado pela união entre os moradores. Casas foram erguidas em mutirões, com vizinhos ajudando uns aos outros, carregando concreto e dividindo esforços para transformar o que antes era apenas terra em um bairro consolidado.
Hoje, esse cenário de conquista deu lugar ao medo.
Descoberta repentina e corrida contra o tempo
O problema veio à quando um morador foi avisado por um conhecido de que sua casa constava em um site de leilão. A partir daí, o alerta se espalhou rapidamente entre vizinhos.
Raquel Paulino, representante dos moradores, descreve o momento como desesperador. “Foi um susto muito grande. A gente está dentro da nossa casa, tranquilo, e de repente descobre que ela está em um site de leilão. O leilão já é agora, dia 5, então virou uma corrida contra o tempo”, afirmou.
Segundo os moradores, cerca de 78 imóveis fazem parte do loteamento, e ao menos oito já estariam incluídos na primeira etapa de leilões — com possibilidade de novos grupos serem colocados à venda posteriormente.
Os moradores afirmam que possuem contratos de compra e venda, comprovando que adquiriram os imóveis de boa-fé, ainda na fase inicial do loteamento. “A gente tem, sim, contrato de compra e venda. Compramos e construímos nossas casas. O leilão está acontecendo por causa de uma dívida de terceiros, e agora quem está pagando somos nós”, relatou Raquel.
O motivo dos leilões seria uma dívida estimada em R$ 4,5 milhões deixada pelo antigo proprietário da área, responsável pelo loteamento.
Falta de notificação revolta moradores
Outro ponto que causa indignação é a ausência de qualquer aviso prévio. “Ninguém foi notificado. Nenhum órgão procurou a gente. Descobrimos tudo faltando poucos dias para o leilão, sem tempo para buscar orientação”, disse a moradora.
A situação obrigou os moradores a se organizarem rapidamente, formando grupos para tentar barrar os leilões por meio de medidas judiciais.
Uma das principais dúvidas levantadas nas redes sociais diz respeito à regularização dos imóveis. Porém, segundo os moradores, nem mesmo quem possui escritura está livre da situação. “Tem pessoas aqui com escritura desde 2018 e outras de 2023, e mesmo assim as casas estão indo a leilão. Não é só a questão de regularizar”, destacou Raquel.
Além disso, muitas famílias não conseguiram formalizar a escritura ao longo dos anos devido aos custos e à dificuldade de obtenção da documentação necessária.
Casos já registrados aumentam o medo
O receio não é apenas uma possibilidade. Já houve caso no próprio bairro de uma moradora surpreendida com a visita de um arrematante, afirmando ter adquirido o imóvel em leilão. Segundo Raquel, a moradora entrou na Justiça e ainda enfrenta um processo para tentar reverter a situação, acumulando custos e insegurança. “Hoje, a gente dorme sem saber se vai continuar na nossa casa no dia seguinte. É um medo constante”, relatam moradores.
Apelo às autoridades
Diante da gravidade do caso, a comunidade faz um apelo direto à Prefeitura de Caratinga e ao Ministério Público para que intervenham na situação. “São famílias trabalhadoras, que compraram, pagaram e construíram suas casas. A gente pede que olhem com carinho para a nossa situação, porque estamos prestes a perder o único patrimônio que temos”, finalizou Raquel.
O clima no bairro é de apreensão e incerteza. Moradores seguem na tentativa de garantir o direito de permanecer nas casas que representam anos de esforço, união e construção coletiva.









