INHAPIM – Na comunidade de São Tomé, zona rural de Inhapim, onde vivem cerca de 300 moradores e o acesso à cidade pode levar até duas horas, a rotina ainda segue o ritmo do campo. Mas, de dentro de casa, diante de um computador ligado a uma rede de internet reforçada, o animador digital Sávio Fernandes Braga de Freitas, 29 anos, se conecta diariamente a um mercado que está a milhares de quilômetros dali — nos Estados Unidos.
Formado em Cinema de Animação e Artes Digitais pela UFMG, ele trabalha há quase quatro anos para a empresa norte-americana Suburban Plumbing Experts, desenvolvendo projetos em 3D que auxiliam na visualização de serviços técnicos. A trajetória até esse ponto, no entanto, é marcada por mudanças, improvisos e aprendizado contínuo.
Filho de um pedreiro, Saulo Nicodemos de Freitas, e de uma técnica em enfermagem, Auxiliadora Fernandes Braga de Freitas, Sávio cresceu em uma família de origem simples. Desde cedo, demonstrava interesse pelo desenho, atividade que o acompanhou por anos e o levou, inclusive, a publicar quadrinhos — um deles com circulação internacional.
Ao ingressar na universidade, seu plano era seguir na animação tradicional. Mas foi no contato com o 3D que encontrou um novo caminho.
“Eu entrei querendo trabalhar com desenho à mão, com animação 2D. Mas me apaixonei pelo 3D logo na primeira aula. De uma turma grande, poucos seguiram nessa área”, conta.
Hoje, ele soma cerca de nove anos de experiência com a tecnologia, período em que acompanhou de perto a evolução acelerada do setor. Segundo ele, o avanço das ferramentas foi decisivo para ampliar as possibilidades de atuação.
“No início, o 3D era muito custoso, exigia máquinas muito potentes e muito tempo de processamento. Com o avanço das tecnologias em tempo real, isso mudou completamente”, explica.
Ainda durante a graduação, participou da produção do primeiro curta-metragem totalmente em 3D desenvolvido no curso, iniciativa considerada inédita na época.
Barreiras e adaptação
A chegada à universidade também expôs desafios além do conteúdo técnico. Um dos principais foi o idioma.
“Quando comecei a estudar cinema, percebi que muito material nem sequer tinha tradução. E eu não sabia inglês”, lembra.
Sem recursos para cursos, Sávio desenvolveu uma estratégia própria de aprendizado. A partir de conteúdos gratuitos e do uso de plataformas de streaming, passou a estudar diariamente. “Eu assistia a séries em inglês com legenda em inglês. Lia, escutava, pausava, pesquisava. Foi um processo gradual, até o momento em que percebi que estava entendendo tudo naturalmente”, relata.
Oportunidade inesperada
Após a graduação, em meio às incertezas da pandemia, Savio se mudou para o litoral paulista. Foi nesse período que surgiu a oportunidade que mudaria sua trajetória profissional — de forma improvável.
O contato com o atual empregador aconteceu por meio de um jogo de celular com chat internacional, utilizado inicialmente como ferramenta para praticar inglês. “Eu via aquilo como uma oportunidade de conversar com pessoas de outros países. Foi ali que a gente começou a interagir”, conta.
Apesar da insegurança, decidiu apresentar seus trabalhos. “Eu evitava pedir oportunidades por medo de ouvir um ‘não’. Até que pensei: o ‘não’ eu já tenho. Resolvi tentar”, diz.
Mesmo com experiência limitada, mostrou projetos acadêmicos e chamou a atenção. O trabalho em 3D acabou sendo incorporado à empresa, que atua na área de encanamento e saneamento.
Visualizar para entender
A função de Savio é transformar processos técnicos em imagens compreensíveis para os clientes. Por meio de animações, ele simula o interior de tubulações, identifica problemas e demonstra soluções.
“Lá, eles usam câmeras que percorrem os canos e indicam exatamente onde está o problema. Eu transformo isso em visualização. O cliente vê o que está acontecendo”, explica.
A precisão é essencial, já que intervenções como escavações podem custar milhares de dólares. O uso do 3D ajuda a reduzir erros e facilitar decisões.
Retorno ao campo
Após cerca de um ano e meio em São Paulo, Sávio optou por retornar à zona rural. A decisão envolveu fatores financeiros e pessoais. “O custo de vida na cidade era muito alto. Aqui, consigo reduzir despesas e ter mais qualidade de vida”, afirma.
A mudança só foi possível com a chegada da internet de fibra óptica à comunidade. Para garantir estabilidade, ele estruturou um sistema com duas conexões e nobreak.
“Se uma internet cai, eu tenho outra. Se falta energia, consigo manter tudo funcionando por um tempo”, explica.
Rotina criativa e desafios
O trabalho exige dedicação intensa. A produção de um único vídeo pode levar cerca de um mês e, no início, a carga de trabalho chegava a 12 horas diárias.
Com o tempo, ele reorganizou o modelo de atuação, passando a trabalhar por projeto. “Hoje eu administro melhor meu tempo. Criatividade exige pausa. Não é um trabalho automático”, compara.
Ele destaca que o equilíbrio mental é essencial para manter a produtividade. “A criatividade é como o sangue: você usa e precisa de tempo para repor”, diz.
Expansão e novos caminhos
Além do trabalho internacional, Savio abriu um estúdio próprio voltado à produção de vídeos promocionais na região, incorporando elementos em 3D.
Também planeja avançar em projetos de visualização interativa, como simulações de imóveis em que o cliente pode “navegar” pelo espaço antes da construção.
“Você entra no ambiente, acende uma luz, abre uma porta. Isso já é possível e quero trazer para o Brasil”, afirma.
Impactos além da carreira
A estabilidade financeira proporcionada pelo trabalho remoto trouxe mudanças significativas em sua vida pessoal. Entre elas, a possibilidade de investir em equipamentos de alto desempenho, ajudar a família e cuidar da saúde.
“Consegui fazer tratamentos que antes eram inviáveis. Coisas que eu não tinha acesso”, relata.
Um caminho possível
Para quem vive no interior e deseja ingressar na área, Savio reconhece os desafios, mas destaca que o cenário atual oferece mais oportunidades.
“O acesso à informação hoje é muito maior. Mas é preciso paciência”, afirma.
Ele recomenda iniciar com ferramentas gratuitas, como o Blender, e aproveitar conteúdos disponíveis na internet.
“Tem muito material bom, inclusive em português. E o inglês acaba sendo uma consequência”, orienta.
Entre o som dos pássaros e a conexão com clientes internacionais, Savio construiu uma trajetória que reflete uma transformação silenciosa: a de um interior cada vez mais conectado — e sem fronteiras.






