Suicídio e um conto amargo

A primeira vez que chorei, de fato, por uma morte, foi quando o meu saudoso gato Faruk faleceu envenenado. Me recordo desse dia com exatidão, pois, realmente, foi meu primeiro grande luto.

A ideia de morte nunca foi bem aceita por mim. Imagino que não seja bem aceita para a maioria de nós. Entretanto, tenho percebido ao longo dos anos, cada vez mais, a minha complacência à respeito de tal assunto, e um pensamento que outrora seria absurdo, hoje se torna aceitável: o suicídio.

Sei que é um tabu, mas é preciso falar sobre o tema da maneira mais direta possível.

Minha aceitação parte, primeiramente, de um pressuposto socrático sobre o simples fato de morrer. Na obra de Platão ‘Apologia de Sócrates’, o célebre filosofo grego da antiguidade, após ser acusado de corromper a juventude, é condenado à morte. Enquanto aguardava sua execução, Sócrates chegou a conclusão que a morte talvez seja um bem e que a associação à algo ruim seja um grande engano.

Segundo a filosofia socrática, o primeiro caminho após a morte seria o próprio nada. Apenas, e simplesmente, o cessar de nossas atividades metabólicas.

Bom, que ótimo seria! Não sentir mais as angústias, os medos, as dores e sofrimentos de uma vida agonizante. Simplesmente, deixar de existir.

Um outro caminho, ainda de acordo com nosso grande filósofo, está associado a continuidade da vida em um outro plano onde se encontram os verdadeiros juízes do mundo. Ora, um lugar onde exista a real justiça divina, os bons não têm o que temer. Afinal, temos convicções de nossas ações quando elas se fazem boas.

Nesse ponto, podemos ainda usar o conceito da relatividade de Protágoras, filósofo da escola Sofista da antiguidade, que define que os conceitos de bom e mal são relativos à sociedade à qual estamos inseridos.

Analogamente, podemos comparar da seguinte forma: em nossa sociedade, de maioria Cristã, os suicidas são vistos como hereges da dádiva da vida. No entanto, na sociedade japonesa da idade média, o suicídio dos guerreiros era um grande sinal de honra. Percebemos aqui neste exemplo, o conceito relativista de Protágoras.

Portanto, é possível perceber que a partir de tais conceitos, os pensamentos sobre suicídio em nossa sociedade talvez estejam equivocados. Dessa forma, o combate às doenças que levam a essa atitude possa ser mais eficaz do que ampla abominação da prática.

Exemplificando de maneira geral, uso a frase de Neil Young que se tornou célebre na carta de Kurt Cobain:

“É melhor queimar do que se apagar aos poucos.”

 

Paulo Bonfá

Produtor Cultural

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