O MEDO DE TODO O HOMEM: A MORTE

Ildecir A.Lessa

Advogado

O medo mais humano, mais constante, o mais universal de todos os medos é o medo da morte. Disso ninguém tem dúvida. Fala-se todos os dias nos mais diversos meios de comunicações, a respeito de doenças, de sofrimentos, de assassinatos, de massacres, de terror, mas da própria morte só se fala, de forma camuflada, e do medo que ela inspira – do medo que a nossa própria morte, nos inspira. É possível que não exista um homem sequer que não tenha sentido esse medo, qualquer que seja sua nacionalidade, sua classe social, seu sexo, sua idade. O medo da morte é um fato. O homem, todo homem, tem medo da morte.

Noticiou-se nos quatro cantos da terra que, o cientista australiano David Goodall, de 104 anos, morreu na manhã desta quinta-feira (10) na Suíça após sair de seu país para uma clínica de suicídio assistido. A notícia, em nível global, veio a conhecimento de milhares porque o cientista queria acabar com sua própria vida. Digno de registro é de que, Goodall não sofria de nenhuma doença terminal, mas afirmava que sua qualidade de vida havia piorado muito com o passar do tempo. Segundo os noticiários, a morte foi confirmada pela clínica Exit International, instituição que ajuda pacientes a morrer na Suíça, onde o suicídio assistido é legal. A forma da morte, foi anunciada em nota da empresa, que diz que o cientista escolheu uma injeção letal para morrer e caiu no sono segundos depois. Houve a companhia de netos, familiares e médicos. Como último desejo nessa vida, Goodall escolheu a 9ª sinfonia de Beethoven para acompanhar sua morte, informa a clínica. Registrou o médico Philip Nitschke, que acompanhou o processo, que ele morreu tão logo a música acabou. O cientista doou o seu corpo à medicina. Ele também pediu para que não tivesse enterro, nem qualquer tipo de cerimonial. Segundo a Exit International, Goodall não acredita em nenhum tipo de continuação de vida após a morte.

O cientista fez desse momento da vida uma bandeira para lutar em favor de práticas de suicídio assistido. Ele divulgou amplamente a sua vontade para a imprensa. “Lamento profundamente ter chegado a esta idade”, disse o cientista ao canal australiano ABC no dia de seu aniversário, no início do mês. “Meu sentimento é que uma pessoa velha como eu deve ter plenos direitos de cidadania, incluindo o direito ao suicídio assistido“, completou.

Sob a lente do Direito, o suicídio assistido, ou eutanásia, é ilegal na maioria dos países do mundo. Era totalmente proibido na Austrália, mas no ano passado foi legalizado no Estado de Victoria, informa a agência France Presse. A legislação, no entanto, contempla apenas pacientes com doenças em fase terminal — o que não era o caso de Goodall. Sobre o cientista australiano, foi informado que, ele nasceu em Londres, mas vivia sozinho em um pequeno apartamento em Perth, no leste australiano. O morto em um paradoxo do medo da morte, não tinha medo, como disse o pensador Lucrécio, “perturba desde os fundamentos, intimamente, a vida humana, tudo penetra na cor da morte e não deixa prazer algum límpido e puro”.  Não se trata da própria morte, que para o pensador Lucrécio não é um mal, mas sim do medo da morte, que, ele sim, é um mal. O homem é um ser que sente medo justamente para não morrer; porque ele sabe que deverá morrer. Diz que, o que se chama medo da morte não é o medo do além, é o medo de, simplesmente não mais viver. E parece ser óbvio que, as crenças religiosas e populares na alma, na imortalidade, na vida após a morte, na ressurreição, na reencarnação, etc, são formas de negação da morte e, remédios universais, ainda que diversificados, contra o medo da morte. Pensa-se que a morte não é nada para o homem. A morte jamais atingirá o homem. Essa é a ideia, mas, o difícil não é saber disso, mas acreditar nisso, de vez que o medo é natural a todo homem.

Diante desse quadro dantesco, resta buscar o que registra a Bíblia, na Primeira Carta aos Coríntios, que diz: “Onde está, ó morte, a tua vitória? (1Co.15.55). Onde está, ó morte, o teu poder de interromper a vida, encurtar os sonhos de um futuro risonho, abortar planos de realização pessoal, cortar laços de união? Pois Jesus expressou : “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, mesmo que esteja morto , viverá; e todo o que vive e crê em mim, jamais morrerá.” (Jo.11.25,26). E diz também: “Eu sou o que vive; fui morto, mas agora estou aqui, vivo para todo o sempre e tenho as chaves da morte e do inferno.” (Ap.1.18). Onde está, ó morte, o teu poder de transformar corpos em cinzas, fazer o pó voltar ao pó, aniquilar um organismo antes cheio de vida, lançar aos vermes aquilo que há pouco era cheio de vigor? O registro bíblico ainda diz que um dia aquilo que perece se tornará imperecível e aquilo que é mortal se tornará imortal, e quando isto acontecer se cumprirá a promessa de Deus, que diz: “A morte foi tragada pela vitória” (1Co.15.52-54). Onde está, ó morte, o teu poder de impingir dor e sofrimento, lágrimas e saudade? Onde está o teu poder de arrancar a alegria e plantar a tristeza nos corações? O teu poder de separar vidas e destruir a felicidade? Os que habitam com Deus já provaram que “Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem lamento, nem dor, porque as primeiras coisas já passaram.” (Ap.22.4). A morte foi derrotada por aquele que “com poder foi declarado Filho de Deus segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor.” (Rm.1.4). “Deus o ressuscitou, quebrando as algemas da morte, pois não era possível que fosse detido por ela.” (At.2.24). Nesse contexto, desaparece o medo da morte de todo o homem.