Ildecir A.Lessa
Advogado
É comum presumir-se que apenas a mensuração das mudanças pode explicar a mudança social. A substituição de valores está corroendo muitas instituições no seio da sociedade. Na seara política a ascensão de valores pós-industriais produz uma queda no respeito à autoridade e uma ênfase crescente na participação e na auto expressão. O respeito à autoridade está diminuindo e a tendência de longo prazo no sentido de uma maior participação das massas assumiu um novo caráter. Isso ocorre em razão de se deparar com instituições que estão inertes, uma a sociedade alheia e ao mesmo tempo, surpresa, deprimida e ausente.
O rumo econômico virou uma incógnita. Presente uma Justiça, assoberbada, inepta, inerme, mortalmente contaminada, onde liminares não são cumpridas, como no caso da greve dos caminhoneiros com várias liminares em favor da União, nenhuma ainda cumprida, num total de quase 23. Uma política experimentando um verdadeiro caos, com todas as consequências negativas. A ordem foi subvertida. Impera uma anarquia e uma ilegalidade institucionalizada. A sociedade tem o perfil de que tudo resolverá “como por um passe de mágica”, ou então, sempre expectando que “outros o farão”.
Os caminhoneiros reagiram, fizeram e estão com aval velado da sociedade. Não foi um movimento organizado, com uma liderança. A proposta de greve começou a circular de forma espontânea em redes sociais e grupos de WhatsApp de caminhoneiros. Outros sindicatos de caminhoneiros se juntaram aos protestos ao longo dos dias. Começou com os autônomos. Mas como a situação está ruim para todos, as empresas (e os motoristas contratados por elas) também aderiram. O governo recebeu avisos de entidades sindicais dos caminhoneiros sobre a possibilidade de uma paralisação. A Abin, Agência de Inteligência do Brasil, certamente, viu o céus escuros. Após entrar no quinto dia da paralisação, os efeitos estão presentes. Anunciou-se um acordo na quinta-feira, dia 24, porém caiu no vazio. A principal exigência é a queda no preço do óleo diesel. Para os caminhoneiros e transportadoras, o custo do frete é elevado. O país depende fortemente do transporte rodoviário para transportar bens, pessoas e produtos – inclusive matérias-primas e insumos como os combustíveis.
Diferentemente de outros países com território de tamanho parecido, o Brasil tem poucas linhas de trens para escoar a produção – são 29 mil quilômetros de ferrovias, contra 86 mil km na China, 87 mil km na Rússia e 225 mil nos EUA. O resultado é que, hoje, 90% dos passageiros e 60% da carga que se deslocam pelo país são movimentados em rodovias, de acordo com a Confederação Nacional do Transporte (CNT), entidade sindical das empresas do setor. Ao longo dos últimos dias, os caminhoneiros grevistas também fizeram bloqueios em pontos estratégicos, como a saída de refinarias da Petrobras e a entrada do porto de Santos, em SP, dificultando ainda mais o escoamento das mercadorias.
O acordo da quinta-feira foi recebido com desconfiança. Resultou em efeito inócuo. Nesta sexta-feira (25), devido ao estado caótico dos mais diversos setores do país, de conhecimento de todos os brasileiros, pelos efetivos meios de comunicações, declara-se instaurado o caos. Presidente aciona as forças de segurança em pronunciamento, chama o esquadrão do Supremo Tribunal Federal. Militares pronunciam abertamente sobre o caos do país. Enfim, é isto que está ocorrendo ao Brasil.
Mas, com tudo isso, não haverá guerra nem derramamento de sangue no solo brasileiro, mesmo em ação as forças de segurança. A tradição histórica do país, demonstra isso. Já foi decantado pelo filósofo francês, Joseph De Maistre (1753-1821): “Toda nação tem o governo que merece”. Insofismável verdade! Ao que os filósofos materialistas, Helvecio & Holbach (século XVIII), acresciam: “[…] os sacerdotes estão interessados em manter o povo na ignorância com o fim de resguardar seu poder e riqueza” (parafraseados por Jorge Larraín). Do que pode inferir-se facilmente, que a religião e a política são “os verdadeiros verdugos do povo” (J. Koffler, 1976).
O presidente Temer acionou as forças federais para desbloquear as estradas. O governo afirma que, atendeu aos pedidos dos caminhoneiros, mas, uma “minoria radical” não quis cumprir o acordo. Final de semana chega com o Brasil sem abastecimento do básico. De repente, oque se tornou uma grande conquista, para os interessados, pode sofrer um revés, com um grande clamor nacional. Aí, parece que reside o perigo. Contudo, o Brasil está nesse caos anunciado, e o resultado foi o que pode ser parafraseado da música de Raul Seixas, “O dia em que a terra parou”. E o Brasil continua dependendo da estrada.









