Ao longo dos anos, aprendi que a escrita jamais é um ato solitário, ainda que muitas vezes seja exercida em silêncio. Por trás de cada texto publicado, de cada reflexão, de cada palavra lançada ao espaço público, há sempre vozes que antecedem, sustentam e, muitas vezes, salvam o escritor de desistir. Olhar para trás após dez anos se torna impossível sem antes reconhecer o fato de que ninguém escreve sozinho, toda escrita se dá, primeiramente, a partir do espanto, da inquietação, como na filosofia – ou, no filosofar. A partir do espanto e da inquietação iniciais, que vieram, muitas vezes, justamente, de ler ou ouvir outros autores, o ato de escrever e trazer à luz sua escrita se desenvolve por meio de encontros, de incentivos, de compromissos pessoais e de responsabilidades assumidas.
Quando comecei a escrever, há 10 anos, não havia planos grandiosos, estratégias de visibilidade ou qualquer projeto estruturado. Havia a inquietação e o espanto, que nasceram de um incentivo que veio, de ninguém mais, ninguém menos, que meu professor de filosofia da época, o querido Walber Souza. Isso se juntou a algo que já tinha em mim: havia perguntas demais para respostas de menos. E, além disso, como no exemplo do próprio Walber, tudo veio a acontecer porque havia pessoas que acreditaram quando tudo ainda era apenas tentativa – como fizeram o jornalista e editor do Diário de Caratinga, José Horta, e toda a equipe do Diário, o diretor executivo e editor do Diário de Teófilo Otoni, Vinícius Rêgo Pessoa, e sua equipe, assim como o jornal Diário de Manhuaçu, que foram os primeiros jornais que abriram suas portas para que tudo pudesse acontecer. Após estes, outros jornais vieram, mas nada aconteceria sem que estes jornais tivessem me dado as oportunidades iniciais. Em um tempo em que o incentivo à cultura é raro, cada gesto de apoio se torna decisivo, e assim o foi.
Entre outros gestos de incentivo, também teve o incentivo que veio de dentro de casa. Muito antes de eu pensar na possibilidade de escrever algo, eu já tinha em minha casa, com o apoio de meus pais e minha irmã, o ambiente propício para que tudo pudesse vir acontecer algum dia. Era só questão de tempo para isso acontecer, e quando aconteceu, o apoio deles e sua importância nesse processo continuou firme e com grande importância.
Após me casar e deixar a casa de meus pais, o apoio familiar se intensificou ainda mais, tendo minha esposa como a minha maior incentivadora. Mesmo antes de ter meu primeiro artigo publicado, quando ela era ainda minha namorada, ela já apoiava e acreditava. Por conta de seu apoio e crença em mim, consegui não só minhas primeiras publicações em jornais, mas, também, meu primeiro prêmio literário. Ter ao lado alguém que acredita quando o mundo ainda não vê, que encoraja quando o texto parece insuficiente, faz toda a diferença. Muitas reflexões só vieram à tona porque houve quem acreditasse nelas antes mesmo de serem escritas. Por parte da família dela, que hoje também é minha família, não posso deixar de citar o apoio constante de minha sogra, dona Marta, e de minha cunhada, Jéssica, que também são pessoas importantes durante toda a minha caminhada.
No ambiente acadêmico, também houve encontros que marcaram definitivamente esse percurso. Professores, como o já citado professor Walber, que compreenderam que a educação não se limita à reprodução de conteúdos, mas consiste em despertar o pensamento, provocar o incômodo e incentivar seus alunos a irem além do esperado. Palavras ditas em sala de aula, muitas vezes de forma simples, foram suficientes para mudar o rumo das coisas. Incentivar um aluno a escrever, publicar e se expor é assumir o risco junto com ele e poucos fazem isso.
Nesse meio, os colegas de sala também tiveram papel decisivo, pois todos eram extremamente dedicados e ansiosos por aprender, de forma que muitos dos meus colegas do curso de Psicologia da UNEC hoje têm se destacado, tanto em suas profissões como em suas produções. O meio forma, sim, nossas ambições e os potenciais alvos a serem alcançados.
Em meio a todo esse incentivo e a planos e desejos imediatistas – que, inicialmente, nada mais eram do que a simples expressão do mais puro e vago egoísmo –, a entrada escrita no espaço público aconteceu, de modo decisivo, por meio do jornalismo cultural. O Diário de Caratinga não foi apenas um veículo de publicação; foi uma escola. Foi ali que os textos começaram a dialogar com leitores reais, com concordâncias e discordâncias, com elogios e críticas. Escrever para um jornal ensina responsabilidade: cada palavra ganha peso, cada ideia precisa ser sustentada. Não se escreve mais apenas para si.
Nesse processo, é impossível não reconhecer pessoas que abriram portas quando elas ainda estavam fechadas. Editores que acreditaram, que incentivaram, que deram espaço e liberdade, compreendendo que a cultura se constrói com diversidade de pensamento. Diante disso, o apoio constante, a atenção e o respeito, criam um ambiente no qual a escrita pode amadurecer.
Depois de um tempo, vieram outras pessoas que também se tornaram extremamente importantes nessa trajetória literária, como a querida escritora e poetisa Verônica Moreira, que abriu as portas do meio das academias literárias para mim, se tornando minha madrinha acadêmica, me apresentando – e me presenteando –, com suas ações e atenção, toda uma gama de novos caminhos a serem percorridos. Na trajetória desses caminhos, mais pessoas vieram a ser conhecidas e sendo importantes para esse trajeto, como Berenice Souza, que, com toda a sua sabedoria e simplicidade – mesmo sendo uma gigante das letras – me mostrou uma das coisas mais importantes dessa trajetória: com a história e o testemunho de Berenice, aprendi que Deus ainda tem espaço dentro das academias e de todo o meio literário; algo que mudou toda minha perspectiva posterior. Ainda no meio literário, não posso deixar de citar o apoio do escritor e roteirista M. P. Garnet, que não só lê todos os artigos, como, não raramente, comenta e aprofunda o assunto do artigo em nossas conversas sobre o texto. Marcelo Garnet é o tipo de parceiro e amigo que todo aquele que se atreva a escrever precisa ter ao seu lado.
Diante desses pouco exemplos – pois muitas são as pessoas e apoios envolvidos em todo esse processo –, digo sem medo: cada um dos textos carrega algo de quem esteve presente no caminho. Cada artigo é, em alguma medida, um testemunho de que o incentivo gera frutos e que a cultura só sobrevive onde há quem acredite nela.
Escrever, ao longo desses anos, foi um exercício de responsabilidade e dívida diante de todos esses gestos. Hoje percebo que, aquilo que começou como uma simples ambição de viés egoísta – de ter um texto publicado em jornal –, já lá no início sofreu mudanças, amadureceu, e tomou contornos de compromisso e responsabilidade. Como tudo tem que começar de algum jeito, o que começou como uma ambição simples se desenvolveu em algo maior, e ao olhar para todas essas pessoas e incentivos, hoje percebo que não se escreve apenas porque se quer, mas porque se deve honrar aquilo que foi confiado. A palavra publicada cria vínculos, compromissos e deveres. E é por isso que, ao olhar para trás, mais do que contabilizar textos ou temas, reconheço pessoas, porque, após Deus, e por meio dEle, são elas que tornaram possível toda essa caminhada.
Muito obrigado a cada um de vocês!









