*Joséllio Carvalho
Ao longo dos anos, temos constantemente escrito sobre fatos acontecidos na vida do nosso grande amigo Adão. Com sua autorização, transcrevemos um bate-papo que tivemos quando de visita à sua residência (por motivos de segurança nacional, apenas podemos informar que ele mora numa cidadezinha em Minas Gerais, mas longe de sua terra natal). Confira a seguir:
– Olá, meu amigo. Há quanto tempo não nos vemos. Obrigado por tão gentilmente nos receber em seus domínios e abrir espaço em tão concorrida agenda. Para começo de conversa, conte para nossos leitores do Diário de Caratinga sobre o seu nome completo, nome dos pais, local de nascimento, etc.
Adão – Obrigado pelas palavras bondosas. Nasci no Córrego Caipora, em Ipanema (MG), em 14 de junho de 1923. Meu pai era Don Jean Valjean di Kavadière, um lendário francês que veio desbravar o interior de Minas desde o final do século XIX até o início do século XX. Minha mãe era a senhora Guilhermina Eloá Soares, filha dum poderoso caiporense. Quando de meu registro de nascimento, o escrivão do povoado não sabia escrever o sobrenome de papai e meu nome ficou registrado como Adão Soares Cavadera.
– Tendo nascido no interior de Minas, como pôde desenvolver tão vasto conhecimento a respeito das ciências humanas e depois aperfeiçoar-se em tecnologia após tornar-se sexagenário?
Adão – Apesar de parecer um local inóspito, o rancho em que nasci era próspero em cultura. Já naquela época éramos ensinados nas artes e ciências liberais do mundo antigo. Líamos os grandes clássicos e já fazíamos contas matemáticas complexas aos cinco anos. Tendo meus antepassados paternos lutado na Revolução Francesa, o ideal de nossa família sempre teve marcas de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
– E como esse lema se relaciona com seu conhecimento?
Adão – Não seja ingênuo, jovem jornalista. Apenas a busca pelo conhecimento pode fazer um homem verdadeiramente livre, pois ninguém pode aprisionar um pensamento do bem. Podem lhe roubar tudo, menos sua inteligência. E um estudo aprofundado da história da humanidade nos mostra que é possível vivermos em condições de igualdade intelectual se levarmos nossas vidas com espírito de fraternidade legítima e abnegada.
– Mas, numa sociedade altamente egoísta e virtual como a nossa isso seria possível?
Adão – Ainda acredito que sim. Já vivi inúmeros movimentos iguais a este que estamos hoje. Rádio, TV, Telefone, Telex, Fax, Celular, Computador, Notebook, Tablet, Smartphones. Realmente essa escalada digital empobreceu o pensamento coletivo. Mas há esperança nisso tudo. O ser humano que almeja melhorar de vida deve pensar em se aperfeiçoar em habilidades sociais e ciências humanas. Não digo para esquecer o digital, mas concentrar-se também no lado humano da tecnologia. Essa é a corrente de pensamento que defendo.
– Mas a tecnologia não vai “engolir tudo”? A revolução não será digital?
Adão – A revolução já é digital. Mas controlada por humanos. Vamos por partes. Meu tataraneto Jean Perré de La Becki tem 7 anos. Em que profissão ele vai trabalhar quando for adulto? Ele não sabe, nem eu, nem você, nem ninguém. 80% das nossas crianças irão trabalhar em profissões que nem sequer foram inventadas, por assim dizer…
– Então, isso confirma o que eu disse sobre a tecnologia tomar conta de tudo!
Adão – Deixe-me concluir a linha de raciocínio primeiro, por favor! Tomando por base o avanço das ciências tecnológicas, podemos concluir que num futuro próximo a informática será ainda mais integrada ao nosso cotidiano. Veja bem: antes o que o porteiro do seu prédio fazia? Sem nenhum demérito, apenas abria e fechava o portão. Hoje ele tem que lidar com equipamentos como computadores, câmeras e sensores de alarmes. Atualmente, uma pessoa sem o mínimo de conhecimento em tecnologia talvez não possa atuar com capacidade nesse serviço. Se ampliarmos o escopo desse pensamento para outras profissões a coisa fica mais feia: hoje em dia, é possível um engenheiro não saber lidar com tecnologias? Impossível. Um médico deve saber assuntos de sua formação e mais tantas outras de tecnologia para cirurgias de alta precisão.
– E onde vão entrar as ciências humanas e as habilidades sociais?
Adão – O ponto chave é esse: a lida constante com a tecnologia vai torná-la comum a todos. Será o novo bê-á-bá da pré-escola. E com todo mundo embarcando na tecnologia desenfreada, as ciências humanas se tornarão relevantes, pois se tornarão escassas. As habilidades para os serviços envolvendo tecnologias serão abundantes, mas as habilidades sociais, o cara-a-cara, será mais valorizado, pois as pessoas estão “desaprendendo” isso.
– E como isso vai afetar o mercado de trabalho, por exemplo?
Adão – Ora, um profissional com habilidades que poucos possuem sempre terá melhores remunerações. No futuro, teremos numa empresa centenas de programadores humanos e milhares de programadores robôs, com capacidade de escrever códigos para outras máquinas e também para se autoprogramarem. Mas deverá haver sempre um profissional tanto para liderar os programadores humanos quanto para indicar qual será o direcionamento a ser seguido pelos robôs que se autoprogramam. Aí é que entram as ciências humanas, principalmente a Ética. Se eu vou construir um carro autônomo, preciso dos engenheiros especialistas dessa área e dos programadores. Mas quem vai definir a Ética a ser seguida pelo carro? Dou um exemplo: o carro autônomo se encontra numa pista em condição de inevitável colisão; na pista contrária, encontram-se uma moto com duas pessoas, seguida por um carro com cinco ocupantes; à sua frente estão um animal de grande porte solto e um ônibus escolar. Qual a decisão correta a ser tomada pelo carro? Esse tipo de situação, e muitas outras, devem ser colocadas na “memória” dele. Nesse sentido, precisa-se dum profissional versado nas ciências humanas, pois todos querem que as máquinas “pensem” como humanos.
– Nunca tinha pensado por este lado. Realmente, há um campo enorme para se trabalhar. Mas, mesmo assim, com o aumento da tecnologia talvez não teremos empregos para todos. Se os robôs assumirem muitos postos de trabalho, como a população terá dinheiro para fazer compras, movimentar o comércio, fazer o dinheiro girar e a economia evoluir?
Adão – Isso eu gostaria de deixar para outro dia. É uma análise mais complexa, mais longa. E agora tenho que levar minha vó no jiu-jitsu…
JOSÉLLIO CARVALHO é membro fundador da AMLM, jornalista, escritor, pedestre, telespectador e, com a chegada de Ísis, em janeiro, Pai.










