Atrasados de novo! É incrível como nos cansamos da rotina com o passar do tempo. Seis horas. Levanto-me, faço café, deixo a carteira em cima da mesa para não esquecê-la, o mesmo não acontece com o “Bom dia” que acaba sendo esquecido na correria. Acordo e arrumo as crianças para a escola. Engulo o café enquanto calço os sapatos. “Pega a bolsa e vai!”, fala minha consciência me lembrando das horas.
Quinze para sete! Trânsito horrível! Preciso olhar aquele assunto no banco… peguei a carteira? Não interessa! Tenho de cruzar esse oceano de carros antes de deixar as crianças na escola e em seguida ir para o trabalho. O dia mal começou e já estou exausta. Pronto! “Corre para o trabalho!” Só se for a pé, né, consciência?! Pilhas e pilhas de papéis em cima da mesa para serem analisados. MI-NUN-CI-O-SA-MEN-TE. Um belo cartão de boas-vindas. Falando em papéis… tinha de olhar aquele negócio do cartão…, mas, eu peguei a carteira? Ah, depois olho isso.
Nove e meia. As horas não passam e a pilha de papéis não diminui.
Queria ter descanso como antes…
Os ponteiros parecem se arrastar no relógio de parede…
Até que enfim! Uma da tarde! A tão esperada tarde de folga! Já saio do serviço sonhando com aquele cobiçado cochilo da tarde…, mas antes tenho de passar na lotérica para pagar aquela boleta… e vou! Como sempre aquela belíssima fila me espera de braços abertos como quem diz: “Passaremos um tempinho juntas…”. Conto as cerâmicas, os cartazes, até as folhas das árvores. Finalmente chegou minha vez! Abro a bolsa com o coração até leve quando… algo tinha que dar errado. A carteira! Tinha que ser a bendita! Uma e quarenta da tarde. Quarenta minutos de folga desperdiçados. Volto para casa revoltada com minha consciência. Isso você não me lembra não é, dona?
Duas e meia da tarde. Entro e vou direto me esticar no sofá. Suspiro fundo ao perceber que consegui ficar cinco minutos deitada. Ainda bem que Dona Rosa já deu almoço às crianças antes de ir para a hidroginástica. Um bom vizinho a casa torna…
Chega de moleza! A casa não vai se arrumar sozinha. Tiro o pó, varro, passo. Que tranquilidade… a casa está quieta… quieta demais! Davi, o que você está fazendo? Jogando vídeo game?! E o dever de casa, nada, né? Vá já arrumar aquela bagunça do seu quarto e divida esse biscoito com a sua irmã! A Manu está quase aguando em volta de você. Criança quando cala, pode saber…
Continuo a faxina; limpa calçado, põe roupa para lavar, arrumo o quarto. Não acredito que o Willian dobrou as camisas errado de novo! Já falei que não é assim… se ele ao menos tentasse dobrar do jeito certo. Torno a dobrar as camisas.
De repente, assusto-me com um lencinho enrolado que cai dentre as camisas. Do velho paninho enrolado surge uma correntinha… um colar com pingente de coração. Dirijo-me à cômoda que fica ao lado da janela para guardar as camisas que já dobrei enquanto observo calmamente os dois objetos carregados de lembranças.
Seis horas. Aquela velha música toca naquela igreja… há dezesseis anos…
Da janela posso ver as escadarias na igreja. Um jovem casal se encontra por acaso e inicia uma conversa para esperar a missa das sete. No decorrer do diálogo surgem sorrisos. Que coisa mais linda! O sentimento que emanava daquela cena me comovia. Ela já começava a sonhar com o fato de ter aquele rapaz em sua vida para sempre… ele tocava seus cabelos delicadamente, como se fosse uma boneca de louça.
Ele tira o lenço do pescoço dela e em seguida o colar com o pingente, tudo para poder presenteá-la com seu escapulário antes que o avô da jovem surgisse na esquina fazendo com que ela corresse para dentro da igreja, levando o escapulário no pescoço e deixando o lenço e o colar com o rapaz.
Sete horas. Sinto um leve toque em meu ombro:
-Lembrando do dia em que nos conhecemos, amor?
Sempre sorridente, meu marido me abraçava e me beijava a face como sempre fazia ao chegar do serviço. Vendo a pilha de camisas redobradas ele ri:
-Nunca consigo dobrar as camisas como você. E você esqueceu a carteira em cima da mesa de novo. Deixe as camisas para depois e descanse, eu queimo as panelas hoje.
Ele acariciava meus cabelos já bagunçados como na primeira vez em que nos vimos. Assim como o escapulário em meu pescoço, ele ficou em minha vida para sempre.
A rotina desgastante fazia com que eu me esquecesse das pequenas coisas que eram o real motivo da minha felicidade. “Mas isso você não me lembra não é, dona consciência?!”
ANDREZA EDUARDA ARAÚJO FREITAS
Aluna do 3º período do curso de Letras- Unec









