Ildecir A.Lessa
Advogado
Pelos registros da história da humanidade sabe-se que nós seres humanos enfrentamos ao longo dos tempos várias transformações de ordem social, econômica, religiosa e tecnológica. A maior modificação que a humanidade enfrenta, sem dúvida é o comportamento. O mundo passou por diversas transformações de diversas ordens e dimensões, que culminaram num mundo contemporâneo capitalista, globalizado e ordenado. Os meios de comunicação de massa, pela devastadora tecnologia que produziu na sociedade, o comodismo, a preguiça e a assaz inutilização frequente da razão. Para algumas correntes do pensamento, umas das virtudes da humanidade é a paciência. Saber esperar e aguardar o momento necessário para agir. Os interesses particulares tomaram conta das mentes desprotegidas, alterando substancialmente o modo de viver das pessoas na atualidade.
No mundo contemporâneo, mais especificamente no Brasil, as famílias mudaram de comportamento e perfis éticos e morais em razão das circunstâncias do cenário atual. Em tempos passados, os pais tinham um papel fundamental na construção da educação de seus filhos. Passavam mais tempos com as crianças, tomavam café da manhã, almoçavam, jantavam e ficavam juntos com uma maior frequência. Nesses momentos importantíssimos, os pais repassavam seus valores às crianças, transmitiam lições que deviam ser postas em prática fora do lar. Noções de educação, de como se comportar na escola e na sociedade, respeitar e ouvir os mais velhos, ensinamentos de cautela e prudência diante das pessoas. E uma das lições mais importantes que nossos pais nos transmitiam era a de se pronunciar no momento certo, aguardar a sua vez, não se antecipar, em outras palavras, consistia no ensino de ser paciente, ter autocontrole, ser atencioso (a) e saber se concentrar. Porém, nosso mundo mudou bastante e a configuração do trabalho seguiu os mesmos passos, os filhos saem de casa para estudar antes dos pais, em geral, não almoçam mais juntos e, talvez também não jantem. Quando se reencontram já é noite, bastante tarde e os filhos e pais estão com fadiga acumulada, cansaço exaustivo da rotina diária e neste caso, a maioria dos pais não transmitem seus valores éticos e morais aos filhos, não por omissão, mas em razão do novo cenário social que se formou. As crianças se tornaram seres impacientes por causa dessa injusta rotina diária. Passam o dia inteiro sem a presença dos pais, precisam ser educadas por outras pessoas, possuem uma série de compromissos apesar da idade tenra, precisam estudar, ter aulas de balé, dança, natação, academia de ginástica e vivem um tempo desnecessário em frente a TV e nas redes sociais jogando fora um tempo precioso para desenvolverem a arte da paciência, da prudência, da concentração.
Em outras palavras, a sociedade ensina aos mais jovens a serem impacientes, a não concluir as tarefas. A sociedade impõe à juventude a ideia de ganhar tempo, serem frenéticos, ágeis e na maioria das vezes, impingem os jovens ao não pensar, não perceber o processo de conclusão das coisas. Na Escola percebe-se cada vez mais a presença de pessoas jovens com um nível alto de impaciência, desatenção, descontrole, distração e ávidos por pressa. Isso é fruto dos mecanismos de alienação: mídias, tecnologias, incentivo ao consumo e ao entretenimento. Os estudantes estão perdendo o sentido e o conceito de processo, perderam a noção de historicidade, de como as coisas se constituem e se consolidam e, em razão disso, querem tudo de forma instantânea, rápida, de imediato. Observa-se exemplos de atos impacientes até mesmo nas filas das agências bancárias, lotéricas, supermercados e qualquer organização deste tipo. As pessoas quando veem filas enormes tecem comentários negativos, repudiando a existência das filas.
As tecnologias tiraram a paciência de vez dos humanos através de suas invenções que ao invés de facilitar a vida das pessoas, tornando ainda mais impacientes, descomedidas e seus atos são irrefletidos. O celular, por exemplo, deseducou bastante nós humanos. Na sala de aula o celular se tornou um problema. As pessoas, em geral, preferem fazer uma ligação que ir de encontro às outras pessoas, isso se reflete na impaciência, economia de tempo, deixar de realizar um encontro real para se consolidar num encontro virtual. Pode-se enumerar milhares de exemplos cotidianos que se assemelham e se encaixam no tema, a impaciência. Vive-se a Era da Impaciência. Às vezes, tudo parece acelerar. E a impaciência aumenta. Impacientes. Estamos cada vez mais impacientes. As novas tecnologias estão mudando nossas vidas e alterando nossa relação com o tempo, nos jogando a cada dia mais, no buraco negro da Era da Impaciência.









