TRAVESSIA PERIGOSA

Levantamento aponta que 16 escolas de Caratinga não possuem faixa de pedestres

CARATINGA – A segurança no trânsito nas proximidades das escolas voltou a ser tema de preocupação em Caratinga após a morte do pequeno João Miguel, de apenas 4 anos, vítima de um atropelamento ocorrido no dia 2 de março, no bairro Santa Zita. A tragédia reacendeu o debate sobre a necessidade de melhorias na sinalização e no controle do tráfego em áreas com grande circulação de estudantes.
Diante do episódio, a reportagem do Diário de Caratinga realizou um levantamento em 36 escolas da zona urbana, entre unidades municipais, estaduais e particulares, para verificar a existência de faixas de pedestres nas proximidades dos educandários.
O resultado revela um cenário que preocupa: 16 escolas não possuem faixa de pedestres, enquanto 20 contam com a sinalização voltada para a travessia segura de alunos, pais e responsáveis.
Entre as instituições sem a sinalização estão algumas situadas em áreas de intenso fluxo de veículos, como o Centro de Educação Infantil Miriam Mangelli, na rua Nossa Senhora de Lourdes, no bairro Santa Zita, e a Escola Municipal Geraldo Marques Cevidanes, localizada na praça Coronel Rafael Silva Araújo, no bairro Salatiel, em frente à Unidade de Pronto Atendimento (UPA).

Tragédia que comoveu a cidade
O acidente que motivou a discussão ocorreu em um momento de rotina escolar. Um pai deixava o educandário acompanhado de dois filhos, enquanto uma mãe chegava ao local para buscar o próprio filho.
Em poucos segundos, um carro subiu um pequeno morro de acesso à escola e atingiu quatro pessoas. Entre elas estava João Miguel, que sofreu ferimentos graves. A criança foi socorrida em estado crítico, mas não resistiu e morreu na madrugada do dia seguinte.
O caso causou grande comoção e reforçou a preocupação de pais e educadores com a segurança nas portas das escolas.

Pais pedem mais segurança
Para quem convive diariamente com o movimento de veículos nos horários de entrada e saída das aulas, a ausência de faixas de pedestres representa um risco constante.
Maria Verônica Corrêa, avó de um aluno do Colégio Adventista, no bairro Dário Grossi, afirma que a travessia no local é perigosa. “Realmente é muito perigoso. Aqui não tem faixa de pedestre. Deveria ter uma faixa elevada para que os carros diminuíssem um pouco a velocidade, tanto na entrada quanto na saída das crianças. O fluxo de veículos é muito grande e isso é necessário para dar mais segurança para as crianças e também para os motoristas”, afirmou.

Segundo ela, a presença de uma faixa elevada ajudaria a alertar os condutores. “Mesmo que a pessoa esteja com pressa, ela acaba reduzindo a velocidade. Isso ajuda muito na segurança de todos. Agora, depois do que aconteceu, essa necessidade ficou ainda mais evidente.”
A mãe de aluno Luiza Vidal também defende a instalação de uma faixa em frente ao colégio. “A gente estava observando que existe uma faixa de pedestres a cerca de 30 metros daqui. Mas com esse fluxo de crianças e carros o ideal seria que tivesse uma faixa exatamente na frente da escola”, disse.
Segundo ela, o tráfego na avenida Dário Grossi costuma ser rápido. “Carros e motos passam com velocidade maior. Uma faixa elevada ajudaria a diminuir a velocidade e dar mais segurança para as crianças. Depois da fatalidade no Santa Zita, a gente precisa redobrar a atenção para que isso não aconteça em outras escolas.”

Prefeitura anuncia levantamento

O secretário municipal de Defesa Social e Trânsito, Isaías Borges, informou que a Prefeitura determinou um levantamento técnico para avaliar intervenções nas proximidades das escolas.
“A Prefeitura Municipal, por meio da engenharia, determinou que seja feito um levantamento e um projeto para todas as escolas municipais, estaduais e particulares de Caratinga, inclusive nos distritos, para implantar medidas que aumentem a segurança”, explicou.
Entre as intervenções previstas estão faixas elevadas, quebra-molas, rotatórias e outras soluções de engenharia de tráfego.
Segundo o secretário, algumas demandas já começaram a ser discutidas. “Tivemos aqui a diretora da escola Feliciano Miguel Abdala trazendo essa preocupação. Vamos começar a trabalhar para implantar melhorias, como rotatórias ou quebra-molas, para atender a necessidade dos estudantes e moradores.”

Atenção redobrada nas zonas escolares

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) alerta que crianças e adolescentes são mais vulneráveis no trânsito, pois muitas vezes não percebem os riscos da mesma forma que os adultos.
Entre as orientações estão:
-Reduzir a velocidade para até 20 km/h nas proximidades das escolas;
-Redobrar a atenção em faixas de pedestres e pontos de ônibus;
-Evitar estacionar em fila dupla, sobre calçadas ou faixas de pedestres;
-Buscar vagas seguras e acompanhar as crianças até o portão da escola;

-Garantir que crianças embarquem e desembarquem pelo lado da calçada;
-Utilizar cadeirinhas e assentos adequados para cada idade;
-Atravessar sempre pela faixa e, no caso de crianças menores de 10 anos, sempre com acompanhamento de um adulto.

Escolas com e sem faixa de pedestres

O levantamento realizado pela reportagem identificou as seguintes situações:
Escolas com faixa de pedestres (20)
CEIM Neir Mendes de Carvalho – Santa Cruz
CEIM Rosa Maria Martins de Paula – Santa Cruz
EM Barquinho Amarelo – Santa Cruz
EE Professor Joaquim Nunes – Santa Cruz
EE Juarez Canuto de Souza – Santa Cruz
CEIM Belas Artes – Centro
EM Belas Artes – Centro
EM Ilha da Fantasia – Nossa Senhora das Graças
CEIM Nossa Senhora do Carmo – Esplanada
EM Nossa Senhora do Carmo – Esplanada
EM Bezerra de Menezes – Limoeiro
CEIM Santo Antônio – Santo Antônio
EM Branca de Neve – Aparecida
EE Engenheiro Caldas – Santa Zita
EM Dona Glorinha Rocha Abelha – José Moisés Nacif
EE Deputado Agenor Ludgero Alves – Bela Vista
Escola Municipal Menino Jesus de Praga – Centro
Escola Líber – Centro
Escola Jairo Grossi – Centro
Escola Genoma – Centro

Escolas sem faixa de pedestres (16)
EE Princesa Isabel – Centro
CEIM Bairro Zacarias – Zacarias
EM Doutor Maninho – Zacarias
EE Isabel Vieira – Nossa Senhora das Graças
CEIM Maria Imaculada – Esperança
CEIM Pátria Livre – Esperança
EM Professora Maria do Carmo Ribeiro – Esperança
EE Moacyr de Mattos – Esplanada
CEIM Santa Terezinha – Salatiel
EM Geraldo Marques Cevidanes – Salatiel
EE Sinfrônio Fernandes – Santo Antônio
Centro Solidário de Educação Infantil José Milim – Nossa Senhora Aparecida
EM Miriam Mangelli – Santa Zita
EE Feliciano Miguel Abdalla – Floresta
EE José Augusto Ferreira – Dário Grossi
Colégio Adventista – Dário Grossi

Debate que precisa continuar

O levantamento mostra que quase metade das escolas visitadas ainda não conta com a sinalização básica de travessia, um fator que pode aumentar o risco de acidentes em locais frequentados diariamente por crianças.
Para especialistas em mobilidade urbana, a combinação entre infraestrutura adequada, fiscalização e conscientização dos motoristas é essencial para evitar novas tragédias.
Enquanto isso, pais e educadores esperam que a comoção provocada pela morte de João Miguel resulte em mudanças concretas — e que a travessia para a escola deixe de ser um momento de perigo para as famílias caratinguenses.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *