UBAPORANGA- Ao som dos chocalhos, que ecoavam como batidas ancestrais em meio à natureza, o Córrego dos Florentinos, na zona rural de Ubaporanga, se transformou em um verdadeiro espaço de conexão entre passado e presente. Há relatos históricos de que povos indígenas habitaram a zona rural de Ubaporanga.
Foi nesse cenário carregado de simbolismo que teve início, nesta sexta-feira (17), o 1º Festival de Troca de Saberes da Oca Tokmã Kahap — um evento que valoriza a cultura indígena, promove educação e fortalece a identidade regional.
O festival reúne saberes, tradições e vivências que mantêm viva a memória dos povos originários na região, especialmente no Córrego dos Florentinos.
A abertura foi marcada por um cortejo cultural, danças tradicionais, momentos místicos e apresentações artísticas que envolveram a comunidade e estudantes da rede municipal. O festival segue até domingo (19), com uma programação diversificada que inclui oficinas, apresentações culturais, rodas de conversa e rituais.
O projeto da Oca Tokmã Kahap é liderado por Eliana (Mayô Pataxó) e Odair Puri, integrantes da Aldeia Nova Coroa Pataxó, na Bahia. A iniciativa nasceu do sonho de criar um espaço dedicado à educação, arte e cultura indígena.
“Eu pensei em construir um lugar pra dar aula de culinária indígena, de dança, de plantas medicinais. Ainda não consegui tudo, mas já temos um pouco disso acontecendo”, destacou Eliana.
Odair explicou que o projeto começou em 2019, mas enfrentou desafios durante a pandemia e após um problema de saúde enfrentado por Eliana. “A gente ficou um tempo parado, mas agora conseguimos parcerias e estamos retomando. A ideia é levar o conhecimento da cultura indígena para todos, principalmente para as crianças”, afirmou.
Resgate histórico e ancestralidade
Um dos elementos que reforçam a importância cultural do local é a existência de uma urna funerária indígena com mais de 200 anos, encontrada na região. “É uma urna de cerca de 80 centímetros, como um pote. Segundo os indígenas, é funerária. Isso prova que aqui já foi habitado por diversos povos, principalmente o povo Puri”, explicou Odair.
De acordo com o Censo de 2022, Ubaporanga possui 34 pessoas que se declararam indígenas, o que reforça a relevância de iniciativas que promovem o resgate cultural.
Reconhecimento e superação
A história da oca também é marcada pela superação. A idealizadora Eliana enfrentou um AVC, mas retomou o projeto com força e dedicação. “A Eliana teve um sonho e lutou muito por isso. Mesmo após a doença, ela voltou a servir a comunidade com sua terapia. É um trabalho lindo, de muito esforço e fé”, destacou Luzia Maria Ferreira de Souza, integrante do projeto.
Educação e formação cultural
A abertura do festival contou com a participação ativa de alunos da rede municipal, que apresentaram atividades culturais e vivenciaram o contato direto com os saberes indígenas. “A Secretaria de Educação sempre apoia eventos culturais. Trouxemos nossos alunos, que fizeram uma apresentação linda. É um trabalho de valorização da cultura com responsabilidade”, afirmou a secretária de Educação, Renata Elias.
Para os educadores, o contato com a cultura indígena contribui para a formação cidadã dos estudantes. “Os indígenas vivem da natureza. Trabalhar isso com os alunos é fundamental, principalmente a preservação ambiental”, destacou a professora Tamiris Gonçalves.
Entre os alunos, a experiência também deixou marcas positivas. “Eu gostei muito da roda. A gente aprende que os indígenas dependem da natureza para viver”, contou a estudante Vitória da Silva Medina.
Já o jovem Gustavo Pereira Santana, de 14 anos, que frequenta a oca desde pequeno, reforçou a importância do evento.
“Eu sempre gostei daqui. Já participei de festas, curas, festivais. É muito bom ensinar as crianças a não terem preconceito com o povo indígena”, disse.
Programação segue até domingo
Após a abertura nesta sexta-feira, o festival continua com diversas atividades ao longo do fim de semana:
Sábado (18):
Oficina com Mayô Pataxó pela manhã
Teatro e show musical à tarde
Apresentações musicais e exibição de filme à noite
Domingo (19):
Oficina sobre símbolos e tradições da Folia de Reis
Oficina com Odair Puri
Dança afro
Roda ritual de encerramento












