Fêmea de muriqui-do-norte percorre mais de 60 km e é resgatada em Caratinga

CARATINGA- Uma operação de resgate mobilizou biólogos, veterinários e ambientalistas no Córrego dos Campinhos, em Caratinga, nesta segunda-feira (12), para capturar uma fêmea de muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), uma das espécies mais ameaçadas da fauna brasileira. O animal havia deixado a Reserva da Mata do Sossego, em Simonésia, e passou a circular por áreas urbanas próximas à divisa com Manhuaçu, sendo agora localizado e resgatado em território caratinguense.

Batizada de Estrela, a fêmea foi vista inicialmente na região do Córrego das Palmeiras, em Caratinga, na sexta-feira (9). Desde então, passou a ser monitorada pela equipe técnica até ser localizada no Córrego dos Campinhos, onde o resgate foi realizado com segurança.

De acordo com especialistas, é comum que fêmeas de muriqui migrem quando estão próximas de se tornarem aptas a ter filhotes, em busca de novos grupos. No entanto, a fragmentação e a escassez de áreas de mata fazem com que esses animais acabem isolados e expostos a riscos em regiões urbanizadas.

Os levantamentos da equipe indicam que a travessia de Estrela foi extensa e preocupante. Inicialmente, ela percorreu cerca de 30 quilômetros desde a reserva ambiental até a RPPN Fazenda São Lourenço, ao lado do bairro Pinheiro, em Manhuaçu. Depois, seguiu até a zona rural de Caratinga, somando mais de 60 quilômetros de deslocamento, atravessando estradas e áreas de risco, inclusive a BR.

O muriqui-do-norte é o maior primata das Américas e vive exclusivamente na Mata Atlântica brasileira. Estima-se que existam menos de mil indivíduos em vida livre, e a espécie é classificada como criticamente ameaçada de extinção pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN).

O biólogo Marcelo Nery, que participou da operação, detalhou a complexidade do resgate e os riscos enfrentados pelo animal. “Essa fêmea é migrante lá da Mata do Sossego, em Simonésia. Está sumida já há um ano e meio, dois anos. Ela foi parar lá em Manhuaçu, tivemos registro através da comunidade, fomos fazer o resgate e ela desapareceu. Agora, em dezembro, ela apareceu novamente no Córrego dos Bias, em Caratinga. Na sexta-feira tivemos registro dela no Córrego das Palmeiras, perto do aeroporto, e hoje, a partir da informação da comunidade, conseguimos localizá-la aqui no Córrego dos Campinhos”.

Segundo ele, a situação era extremamente delicada. “A fêmea corria um risco muito grande, porque estava migrando de uma mata para outra, procurando um outro grupo. Isso não é uma situação comum, de ver um muriqui numa condição igual essa”.

Marcelo Nery explicou ainda que todo o procedimento exige autorização específica: “Nós trazemos uma equipe de biólogos e veterinários. A gente captura ela com dardo anestésico para poder fazer qualquer procedimento. Para isso, é necessária licença do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, porque é um animal ameaçado de extinção”.

O biólogo reforçou a dimensão do deslocamento feito por Estrela e a urgência do resgate. “Depois que ela saiu da Mata do Sossego, andou até Manhuaçu e, de lá até aqui, são mais de 60 quilômetros. Ela atravessou muitas estradas, inclusive a BR. Por isso a necessidade de resgatar essa fêmea e devolvê-la com segurança ao seu grupo e ao habitat natural”.

Após o resgate, Estrela será avaliada e encaminhada de volta à área de origem, contribuindo para a preservação de uma espécie símbolo da Mata Atlântica e para a continuidade dos esforços de conservação na região.

 

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