Psicólogo Dionatan Carlos analisa os desafios das relações familiares, os impactos da separação na vida dos filhos e os caminhos para uma convivência mais saudável
CARATINGA – Em um tempo em que os vínculos parecem mais frágeis e as separações mais frequentes, entender o que sustenta uma família tornou-se não apenas uma questão íntima, mas também social. No centro desse debate estão crianças e adolescentes, muitas vezes atravessados por conflitos que não escolheram viver. É nesse cenário que o psicólogo Dionatan Carlos, com 15 anos de atuação no município, lança luz sobre os desafios contemporâneos das relações familiares — da convivência cotidiana às disputas judiciais, da adoção ao acolhimento institucional.
Com experiência nas áreas clínica, jurídica e social, ele acompanha de perto histórias marcadas por rupturas, mas também por reconstruções possíveis. E é direto ao apontar: “o casamento termina, mas a parentalidade não”.
A seguir, os principais pontos da entrevista concedida nesta semana no Podcast do DIÁRIO:
Funções parentais: papéis que não se confundem
Dionatan chama atenção para um erro comum nos debates atuais: a ideia de que os papéis de pai e mãe podem ser completamente indiferenciados.
Segundo ele, embora o conceito de “função parental” tenha ganhado espaço, cada figura exerce um papel específico no desenvolvimento emocional da criança.
“A função parental é exercida a partir de afeto, apego, proximidade de vínculo, validação do sofrimento da criança. Cada integrante tem uma função muito específica. O pai ocupa o lugar de construção da vida social da criança. A mãe fornece segurança, afeto, apego e validação emocional.”
Ele reforça que outros membros da família também participam desse processo, mas alerta:
“Cada qual tem o seu lugar. Um não pode confundir com o outro.”
Separação: o fim do casal não pode ser o fim da parentalidade
A ruptura conjugal, cada vez mais comum, não deve se transformar em ruptura parental — embora, na prática, isso ainda aconteça.
“A conjugalidade terminou, mas a parentalidade não. Ela nunca termina.”
O psicólogo explica que conflitos mal resolvidos entre os adultos acabam recaindo diretamente sobre os filhos, muitas vezes colocados em uma disputa emocional.
“A separação não pode ser uma barreira estrutural no desenvolvimento da criança. É ela que está no meio desse cabo de guerra.”
Ele descreve a dinâmica com uma imagem simples e contundente:
“O pai puxa para um lado, a mãe puxa para o outro, e a criança fica no meio. Isso gera grandes conflitos porque não há co-parentalidade, há uma guerra que não terminou.”
Impactos psicológicos nos filhos: ansiedade, culpa e privação
Quando os pais não conseguem estabelecer uma convivência saudável após a separação, os efeitos sobre os filhos são profundos.
“Crianças e adolescentes lidam mais com a forma como os pais lidam com a separação do que com a separação em si.”
Entre as consequências, ele destaca:
Ansiedade
Conflitos internos
Privação de convivência
Sentimento de culpa
“Às vezes a criança quer conviver com o pai, mas não quer desvalidar a angústia da mãe. Então ela nega ao pai o direito de conviver — e nega a si mesma também.”
Co-parentalidade: o diálogo como caminho
Para Dionatan, a solução passa por maturidade emocional dos adultos — algo simples na teoria, mas desafiador na prática.
“Primeiro, os dois adultos precisam agir como adultos.”
Mesmo após a separação, a comunicação deve continuar, sempre em função do bem-estar dos filhos. “A gente precisa criar essa criança como se estivéssemos juntos. Isso exige comunicação, ainda que por terceiros.”
Ele também critica a visão limitada da responsabilidade paterna apenas ao aspecto financeiro:
“Você não está pagando para a pessoa adulta. Está financiando o desenvolvimento saudável da sua criança.”
O novo papel do pai: mais presença, menos distância
O psicólogo observa uma mudança gradual no comportamento masculino ao longo das últimas décadas. “Hoje há maior procura dos pais para validarem melhor o emocional dos filhos.”
Ele contextualiza essa transformação com avanços legais e sociais, como o Estatuto da Criança e do Adolescente. “Hoje você tem pais mais presentes, que tentam fazer diferente, mesmo carregando uma história de distanciamento.”
Ainda assim, ressalta: “A guarda pode ser prioritariamente da mãe, mas o exercício da parentalidade é dos dois.”
Adoção: mais do que acolher, aprender a ser família
No campo da adoção, Dionatan atua diretamente em processos judiciais e avaliações psicossociais. Ele explica que o processo vai muito além da vontade de ter um filho.
“O que o processo quer saber é se existe a habilidade de aprender a ser pai e mãe daquela criança.”
Ele destaca um ponto sensível: a resistência à adoção de crianças mais velhas. “Quanto maior a idade, mais difícil encontrar famílias. Mas essa é uma necessidade do Brasil e do mundo.”
E alerta para a realidade emocional desses jovens: “Não é um robô que sai da instituição pronto. É uma criança com uma bagagem de sofrimento que precisa ser acolhida e validada.”
Devolução na adoção: uma ruptura dentro da ruptura
Casos de devolução — quando a família desiste da adoção — ainda ocorrem e são considerados extremamente delicados. “Chega uma hora em que há uma escolha: lidar com o conflito ou dispensar a relação.”
O estágio de convivência existe justamente para avaliar essa adaptação, mas nem sempre impede a ruptura. “Não se trata de obrigação. Se trata de responsabilidade parental. Se não há essa disponibilidade, talvez não devesse estar no cadastro.”
Família acolhedora: alternativa mais humanizada
Uma das políticas mais recentes destacadas por Dionatan é o programa de família acolhedora, que substitui temporariamente o acolhimento institucional. “É uma família substituta por período temporário, que oferece validação e regulação emocional.”
Diferente da adoção, essas famílias não podem integrar o cadastro de adotantes. “Elas sabem que vão cuidar por um tempo. O objetivo é proteger a criança enquanto a família de origem se reorganiza — ou até que se encontre outra solução.”
Instituições de acolhimento: avanços e desafios
O modelo tradicional de “orfanato” ficou para trás, mas ainda há desafios.
“O modelo institucional é frágil no sentido de não ser uma família.”
Apesar disso, houve avanços importantes com políticas públicas e fiscalização: “Hoje há uma preocupação maior com o vínculo, com a convivência comunitária, com o desenvolvimento emocional.”
Ele resume a missão dessas instituições: “Validar que essa criança não deixe de existir enquanto membro da sociedade.”
No fim, o que sustenta uma família?
Entre leis, conceitos e transformações sociais, Dionatan retorna sempre ao ponto essencial: o vínculo.
Afeto, escuta e responsabilidade aparecem como pilares inegociáveis — independentemente da configuração familiar.
Porque, no fim, como ele próprio sugere ao longo da conversa, o que está em jogo não é o modelo de família, mas a capacidade de sustentar relações que não desmoronem sobre quem ainda está aprendendo a existir.







