Entre a comédia romântica e o terror psicológico, a escrita inquieta de Érica Carvalho

UICLAP, Érica transita do romance leve e bem-humorado ao terror psicológico, explorando diferentes camadas das relações humanas. Sobre ‘Casa de Bonecas’, o colunista do DIÁRIO, Wanderson R. Monteiro, escreveu na edição de 29 de janeiro de 2026, no artigo “Destruindo um por um”: “Como alguém que se estabeleceu no mundo da leitura lendo os contos de Edgar Allan Poe, Stephen King, H. P. Lovecraft e companhia, encontrei no livro da professora Érica Carvalho não só um ótimo thriller psicológico, mas um apanhado simbólico daquilo que acontece todos os dias em inúmeras famílias brasileiras: a destruição de cada um de seus membros; não por meio da morte, como em ‘Casa de Bonecas’, mas no isolamento e no afastamento emocional demonstrados pelo silêncio e pela decisão de ignorar todos os sinais que apontam para a necessidade de ajuda.”

A partir dessa leitura crítica e sensível, a entrevista a seguir percorre a formação acadêmica da autora, suas escolhas estilísticas, a passagem entre gêneros distintos, o impacto da docência em sua escrita e os desafios da publicação independente, revelando uma escritora atenta às palavras — e, sobretudo, aos silêncios.

 

 

 

ENTREVISTA

 

Você vem de uma formação sólida em Letras e Revisão Textual. De que maneira esse percurso acadêmico influencia suas escolhas estilísticas e sua relação com a palavra na ficção?

Sinto-me mais preparada e segura durante o processo de escrita, com maior domínio da linguagem e consciência das escolhas que faço no texto. Minha formação em Letras e Revisão Textual, aliada ao estudo aprofundado da literatura, especialmente a literatura clássica, influencia diretamente minha relação com a palavra, ampliando minha sensibilidade estética e estimulando minha criatividade de forma mais consciente e explorada.

‘A Noiva Errada’ dialoga claramente com o universo das comédias românticas dos anos 2000, enquanto ‘Casa de Bonecas’ mergulha no terror psicológico. O que provocou essa mudança tão brusca de gênero entre um livro e outro?

Cresci assistindo às comédias românticas dos anos 2000 e, até hoje, sinto a necessidade de ler romances nesse estilo: divertidos, leves e intensos ao mesmo tempo. Em ‘A Noiva Errada’, me desafiei a escrever exatamente o tipo de história que eu sempre procurei como leitora. Na verdade, em todos os meus livros, busco escrever algo que eu mesma leria com prazer. Já ‘Casa de Bonecas’ nasce de uma necessidade diferente: explorar o lado mais sombrio das relações humanas, algo que sempre esteve presente na minha escrita desde muito jovem. A mudança de gênero não foi uma ruptura, mas uma ampliação das minhas possibilidades narrativas.

 

Há quem veja o romance como leveza e o terror como densidade. Para você, esses dois gêneros conversam em algum ponto emocional ou simbólico?

Sim, conversam profundamente. Ambos tratam, à sua maneira, das emoções humanas mais intensas: o amor, o medo, o desejo, a perda, a expectativa e a frustração. Enquanto o romance costuma explorar essas emoções sob uma perspectiva mais luminosa, o terror psicológico mergulha nas sombras do que sentimos e escondemos. Em ambos os gêneros, o que me interessa é o impacto emocional no leitor e a forma como os sentimentos moldam escolhas, comportamentos e destinos.

 

Em ‘Noiva Errada’, o humor nasce do cotidiano, dos mal-entendidos e das relações afetivas. O que te atrai nesse tipo de narrativa e por que ela ainda encontra tantos leitores?

O que me atrai é justamente o reconhecimento. As comédias românticas falam de situações comuns, afetos reais e falhas humanas, tudo isso envolto em leveza e humor. Cresci consumindo esse tipo de narrativa e percebo que ela ainda encontra tantos leitores porque oferece conforto, identificação e esperança. ‘A Noiva Errada’ nasce desse desejo de criar uma história acolhedora, divertida e emocionalmente intensa, sem deixar de dialogar com conflitos reais.

Já em ‘Casa de Bonecas’, o passado retorna como força destrutiva e inevitável. Esse terror psicológico nasce mais do medo externo ou das fragilidades humanas e familiares?

Nasce, sobretudo, das fragilidades humanas e familiares. Em ‘Casa de Bonecas’, o terror não está apenas no sobrenatural ou em forças externas, mas principalmente naquilo que é silenciado, negado ou naturalizado dentro das relações familiares, levando ao sufocamento emocional e à negligência de seus membros. O passado retorna porque jamais foi verdadeiramente elaborado, e a casa assume o papel de símbolo desse aprisionamento afetivo. O medo, nesse contexto, é íntimo, cotidiano e profundamente humano.

 

Como professora de Língua Portuguesa, você convive diariamente com a linguagem em sua forma mais normativa. Escrever ficção funciona como liberdade, ruptura ou extensão desse trabalho?

Funciona como uma extensão, mas também como liberdade. A norma me dá base, segurança e consciência linguística; a ficção me permite transgredir, experimentar e sentir a linguagem. Uma coisa não anula a outra. Pelo contrário: minha prática como professora fortalece minha escrita, e a escrita amplia meu olhar sobre o ensino da língua.

 

O prazer de escrever ainda é o mesmo desde os primeiros textos ou ele muda conforme a maturidade, os temas e as responsabilidades de publicação?

O prazer permanece, mas ele muda de forma. Hoje escrevo com mais responsabilidade, consciência e cuidado, o que traz novos desafios. Ainda assim, a escrita continua sendo um espaço de refúgio, elaboração emocional e expressão. A maturidade não diminui o prazer; ela o torna mais profundo.

Publicar de forma independente exige do autor um papel múltiplo: escritor, divulgador, estrategista. Quais têm sido as maiores dificuldades na divulgação dos seus livros?

A maior dificuldade é conciliar todas essas funções sem comprometer o processo criativo. A divulgação exige constância, estratégia e presença, algo que nem sempre dialoga com o tempo lento e introspectivo da escrita. Além disso, alcançar novos leitores sem o suporte de uma grande editora é um desafio constante.

 

Você percebe diferenças na recepção do público entre o romance e o terror psicológico? O leitor surpreende mais ou o mercado impõe mais limites?

Percebo diferenças, sim. O romance costuma alcançar um público mais amplo e imediato, enquanto o terror psicológico encontra leitores mais específicos, porém extremamente engajados. Muitas vezes, o leitor surpreende pela abertura e interesse, enquanto o mercado tende a impor mais limites e rótulos. Ainda assim, acredito que boas histórias sempre encontram seu caminho.

 

Entre aulas, estudos, escrita e divulgação, como você equilibra o tempo e, principalmente, protege o espaço criativo para que novas histórias continuem nascendo?

O equilíbrio é um exercício constante. Tento respeitar meus limites e compreender que o processo criativo também precisa de silêncio e pausa. Proteger o espaço criativo, para mim, significa não transformar a escrita apenas em obrigação, mas mantê-la como um lugar de escuta, sensibilidade e verdade.

 

 

 

BOX

 

AS CAPAS

Essas duas capas funcionam quase como um manifesto visual da versatilidade literária de Érica Carvalho. Elas não apenas divulgam livros diferentes — anunciam projetos estéticos opostos, pensados com consciência de gênero, público e atmosfera.

 

‘A Noiva Errada’

Aqui, a capa conversa diretamente com o universo das comédias românticas contemporâneas. A paleta em tons suaves, rosados e claros cria uma sensação de leveza e expectativa afetiva. O casal visto de costas, caminhando em direção a uma casa que remete a estabilidade e promessa, já antecipa o tema central: o amor, os equívocos do caminho e a ideia de “final feliz” colocada em dúvida.

O detalhe do letreiro “Errada” pendurado sobre “Noiva” é decisivo: há humor, ironia e deslocamento. A imagem sugere romance, mas também alerta o leitor de que essa história não será totalmente previsível. É uma capa acolhedora, acessível, pensada para gerar identificação imediata e conforto emocional — exatamente como o gênero propõe.

 

 

‘Casa de Bonecas’

 

Em contraste absoluto, esta capa aposta no incômodo. O fundo escuro, a máscara branca sem expressão e as manchas vermelhas criam uma atmosfera de tensão psicológica e violência simbólica. Nada aqui é confortável. O rosto sem identidade reforça o apagamento emocional, o silêncio e a negação — temas centrais do livro.

O título fragmentado, visualmente “agredido” pela textura e pelas manchas, sugere uma narrativa de ruptura e deterioração. A casa, que culturalmente simboliza abrigo, aqui se converte em espaço de aprisionamento. É uma capa que não busca seduzir, mas provocar — típica do terror psicológico.

Dois estilos, uma mesma autora

 

Colocadas lado a lado, as capas deixam claro que Érica Carvalho não escreve por repetição, mas por necessidade expressiva. ‘A Noiva Errada’ nasce do afeto, do riso e do reconhecimento cotidiano; ‘Casa de Bonecas’, do silêncio, da dor e das fraturas emocionais.

Visualmente, uma convida o leitor a entrar; a outra o desafia a continuar olhando. E é justamente nessa oposição que se revela a força da autora: a capacidade de compreender que cada história exige sua própria linguagem — inclusive na capa.

“Acredito que boas histórias sempre encontram seu caminho”, afirma a professora e escritora

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