CARATINGA DISCUTE AVANÇO DA POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA

CARATINGA – O aumento da população em situação de rua em Caratinga foi tema de uma audiência pública realizada na noite desta quarta-feira (6), na Câmara Municipal, por iniciativa do vereador Juarez. O encontro reuniu representantes do poder público, Judiciário, Polícia Militar, assistência social, saúde e diversos segmentos da sociedade civil para discutir medidas de acolhimento, reinserção social e enfrentamento do problema, que vem crescendo no município.
Durante a audiência, o vereador Juarez destacou que o problema exige uma atuação conjunta entre poder público, entidades religiosas, clubes de serviço, forças de segurança e sociedade civil organizada.
“Precisamos dos clubes de serviço, das entidades religiosas, precisamos de todo o poder público, das polícias, para que possamos encontrar uma forma de trabalhar essa situação”, afirmou.
Segundo ele, a quantidade de pessoas vivendo nas ruas aumenta significativamente nesta época do ano, principalmente em razão da chegada de trabalhadores migrantes para a colheita do café.
“Muita gente vem de fora para apanhar café, não aguenta o trabalho e acaba ficando na rua”, explicou.
O vereador ressaltou ainda que a localização estratégica de Caratinga, às margens da BR-116, contribui para o fluxo constante de pessoas em situação de vulnerabilidade social.
“Hoje, tranquilamente, passam de 100 moradores em situação de rua em Caratinga. Temos os daqui e os que passam, ficam dois ou três dias, e outros que acabam permanecendo mais tempo pela hospitalidade e generosidade da população”, pontuou.
Juarez defendeu ações voltadas para a reinserção social, com oferta de emprego, atendimento de saúde, tratamento para dependência química e acolhimento digno.
“A gente precisa entender primeiro o que levou essa pessoa a morar na rua. Precisamos ofertar trabalho, saúde, dignidade e, quando necessário, internação para tratamento médico”, declarou.
O parlamentar também afirmou que, nos casos em que a pessoa não aceite os atendimentos ofertados, o município precisa buscar alternativas legais para encaminhá-la de volta à cidade de origem, preferencialmente com acompanhamento familiar.
“O que não podemos mais é deixar que Caratinga continue crescendo assustadoramente nesse número”, alertou.
CREAS acompanha até 70 pessoas em situação de rua
O coordenador do CREAS, Anderson Mol Júnior, afirmou que o problema não é exclusivo de Caratinga e ocorre em diversas cidades do país. Segundo ele, a audiência representa um primeiro passo para ampliar o debate e buscar soluções coletivas.
“Essa questão dos moradores em situação de rua não é somente de Caratinga. É uma situação nacional. Essa audiência é um pontapé inicial para tratarmos desse problema que tem tirado o sono da população caratinguense”, afirmou.
De acordo com Anderson, atualmente o CREAS acompanha entre 60 e 70 moradores em situação de rua no município. Além disso, entre 80 e 100 migrantes passam mensalmente por Caratinga.
“O migrante é aquele que não fixa moradia. Ele vai andando de cidade em cidade. Muitas vezes oferecemos passagens para que possam retornar”, explicou.
Ele ressaltou que a assistência social oferece diversos tipos de suporte, incluindo atendimento psicológico, aluguel social e hospedagem temporária em hotéis. Entretanto, segundo ele, a adesão aos programas ainda é pequena.
“Infelizmente eles são muito resistentes. Existe uma lei federal que proíbe a retirada à força dessas pessoas dos espaços públicos”, observou.
Anderson afirmou ainda que grande parte da população em situação de rua é formada por dependentes químicos, usuários de álcool e drogas, embora existam casos distintos.
“Há pessoas que têm família, têm casa e preferem permanecer na rua. Já ouvi relatos de pessoas que dizem não conseguir viver em ambiente fechado porque se encontraram nas ruas”, contou.
Atendimento cresce também no setor de urgência
Representando o Consurge, o assessor institucional Dalton Caetano confirmou o aumento da demanda envolvendo moradores em situação de rua nos atendimentos de urgência e emergência.
“Infelizmente aumentou muito essa demanda”, admitiu.
Segundo ele, muitos moradores em situação de rua apresentam comportamento tranquilo e possuem histórico familiar e escolar.
“São pessoas instruídas, pessoas que têm família e são de outras regiões. Algumas precisam realmente de acolhimento. Outras estão na rua por opção própria”, afirmou.
Dalton destacou ainda a dificuldade enfrentada pelas equipes de saúde quando os pacientes não possuem documentação pessoal.
Juiz destaca necessidade de soluções humanizadas
O juiz Anderson Fábio Nogueira Alves afirmou que o problema é comum em diversas cidades brasileiras e ressaltou a importância do diálogo entre os setores envolvidos.
“Caratinga é uma cidade acolhedora e que se reúne para resolver seus problemas. A troca de ideias aqui pode contribuir bastante”, declarou.
O magistrado também fez uma reflexão sobre os fatores sociais ligados à criminalidade e à vulnerabilidade extrema.
“Condenar alguém por um crime alegando fome é algo que exige reflexão. Gostaria de ter a consciência de que aquela pessoa realmente teve oportunidade de agir de outra forma”, comentou.
Segundo ele, existem diferentes perfis dentro da população em situação de rua, incluindo abandono familiar, dependência química, transtornos mentais e migrantes de outras cidades.
“Cada caso precisa ser analisado individualmente, porque cada situação é diferente”, observou.
Polícia Militar reforça apoio às ações sociais
O capitão Christófori, da Polícia Militar, afirmou que a corporação entende que o problema é, principalmente, uma questão de saúde pública, embora em alguns momentos também envolva segurança pública.
“A Polícia Militar sabe que essa é uma questão mais de saúde pública do que de segurança pública, mas há situações em que ela extrapola isso”, afirmou.
Segundo ele, a PM atua em apoio aos órgãos responsáveis sempre que acionada, especialmente em casos envolvendo perturbação do sossego, danos ao patrimônio ou conflitos.
“Quando há necessidade de apoio, a Polícia Militar tem atuado e continuará à disposição para colaborar com os órgãos envolvidos”, garantiu.
Ao final da audiência, os participantes defenderam a continuidade das discussões e a criação de ações integradas entre assistência social, saúde, segurança pública e entidades da sociedade civil, diante do crescimento da população em situação de rua em Caratinga, sobretudo com a aproximação do período de frio intenso.

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