Pesquisa revela crescimento do número de leitores no país, avanço das compras pelas redes sociais e protagonismo das mulheres jovens no mercado editorial brasileiro
CARATINGA – No ônibus, na fila do banco, antes de dormir ou entre uma aula e outra da faculdade, milhares de brasileiros ainda carregam livros nas mochilas — físicos ou digitais. Em meio à avalanche de vídeos curtos, apostas esportivas, aplicativos e redes sociais, o livro resiste. E mais: encontra uma nova geração de leitores. Jovem, conectada, feminina e acostumada a transitar entre o papel e a tela, ela está redefinindo o mercado editorial brasileiro.
É o que revela o novo “Panorama do Consumo de Livros 2025”, estudo realizado pela Câmara Brasileira do Livro em parceria com a Nielsen BookData. A pesquisa aponta crescimento do público consumidor: atualmente, 18% da população brasileira acima de 18 anos afirma ter comprado ao menos um livro nos últimos 12 meses — um avanço de dois pontos percentuais em relação ao levantamento anterior, equivalente a cerca de 3 milhões de novos consumidores.
Longe da imagem tradicional do leitor isolado em bibliotecas silenciosas, o novo consumidor de livros está profundamente conectado às redes sociais, compra pela internet, acompanha influenciadores digitais e alterna entre o impresso e o digital sem grandes conflitos.
Ao contrário do que muitos imaginam, o hábito da leitura não está concentrado nas gerações mais velhas. O maior crescimento ocorreu justamente entre os mais jovens. Somadas, as faixas etárias entre 18 e 34 anos avançaram 3,4 pontos percentuais no último ano.
É nesse cenário que encontramos leitores como Brenda Lopes da Silva, de 21 anos, estudante de Psicologia. Ela conta que cultiva o hábito da leitura desde cedo. “Leio desde os nove anos.”
Para Brenda, a leitura ultrapassa o simples entretenimento. “Uma oportunidade de conhecer o novo. Por existirem diversos gêneros, existem também diversas oportunidades de conhecimento. Então além de expandir o conhecimento, a leitura expande a sua esperança e imaginação. A leitura também me proporciona uma fuga da realidade quando o mundo está cansativo demais.”
A fala da estudante ajuda a explicar um fenômeno apontado pela pesquisa: o livro passou a ocupar também um espaço emocional. Em tempos acelerados e hiperconectados, a leitura aparece como pausa, refúgio e reconstrução íntima.
O motor da juventude digital
Boa parte dessa transformação acontece nas redes sociais. Comunidades como BookTok, BookGram e canais literários no YouTube tornaram-se verdadeiras vitrines editoriais.
O levantamento mostra que 70% dos consumidores gostam de acompanhar lançamentos literários. Os principais canais utilizados são sites de compra, recomendações de pessoas próximas, livrarias e criadores de conteúdo digital.
Mais do que isso: 56% dos consumidores afirmam já comprar livros pelas redes sociais. Entre esse público, as mulheres entre 25 e 54 anos representam a maioria absoluta.
O novo consumidor pesquisa, compara preços, acompanha resenhas e planeja compras.
Brenda confirma esse comportamento. “Compro em média 10 livros por ano. A média de compra é o que consigo ler a depender de como está a rotina. Quando são digitais, a quantidade de leitura sobe.”
O último livro adquirido por ela foi “O Peregrino.”
Livros competem com streaming, bets e celulares
Os números mostram que o livro disputa espaço num ambiente dominado por estímulos rápidos e múltiplas formas de entretenimento.
Entre os entrevistados, roupas e celulares aparecem entre os produtos mais consumidos. O livro ocupa posição relevante, superando inclusive apostas esportivas, videogames e canais esportivos por assinatura.
Ao mesmo tempo, a leitura aparece entre os principais hábitos de lazer do brasileiro, atrás apenas de streaming e redes sociais.
O dado sugere que o desafio do mercado editorial não é apenas econômico, mas também emocional: conquistar tempo e atenção numa sociedade marcada pela velocidade.
Mulheres lideram o mercado editorial
Outro dado que chama atenção é a predominância feminina no universo da leitura.
As mulheres representam 61% dos consumidores de livros no Brasil. O levantamento também mostra crescimento expressivo entre mulheres pretas e pardas, que hoje representam metade das mulheres consumidoras de livros do país.
Entre os grupos sociais, as mulheres pretas e pardas da Classe C formam atualmente o maior grupo consumidor de livros do Brasil.
Brenda faz parte justamente desse perfil de nova leitora brasileira. Embora considere os livros caros, ela afirma que isso não impede totalmente seu contato com a leitura. Ainda assim, adapta sua rotina de consumo. “Não influencia tanto. Existem muitos ebooks, e o acesso à internet deixa isso mais fácil. Além de existir biblioteca pública.”
A Amazonização da leitura
O levantamento também revela como o fechamento de grandes redes físicas alterou profundamente os hábitos de compra dos brasileiros.
Hoje, 55% dos consumidores preferem adquirir livros em lojas online, enquanto 39% ainda priorizam as livrarias físicas. As grandes plataformas digitais dominam o setor. A Amazon aparece com ampla liderança entre os sites utilizados pelos brasileiros para compra de livros impressos, concentrando mais de 60% das últimas aquisições realizadas pela internet.
Preço competitivo, frete grátis, rapidez na entrega e grande variedade de títulos estão entre os principais fatores que influenciam essa preferência do consumidor.
Mesmo assim, o brasileiro ainda mantém forte vínculo afetivo com as livrarias físicas. Para muitos leitores, esses espaços continuam associados à descoberta, ao passeio, ao silêncio e à experiência cultural que o ambiente proporciona.
Em cidades do interior, como Caratinga, o cenário acompanha parcialmente essa transformação. As livrarias locais hoje concentram grande parte de suas atividades na venda de materiais escolares, papelaria e itens educacionais. Ainda assim, continuam atuando no mercado literário, sobretudo por meio de encomendas de livros, atendendo leitores que preferem o contato presencial, o atendimento personalizado e a relação de confiança construída ao longo dos anos com os comerciantes locais.
A resistência do papel
Apesar da expansão digital, o livro físico continua predominante. Segundo a pesquisa, 56% dos consumidores compraram apenas livros impressos nos últimos 12 meses. Outros 30% alternaram entre o impresso e o digital.
O apego ao papel revela uma experiência que vai além da leitura em si: o toque, o cheiro, as marcações e a sensação de posse continuam importantes.
Brenda compartilha dessa preferência. “Prefiro livros físicos, porque dependendo do que está sendo utilizado para ler os livros digitais, rouba a sua atenção. Gosto particularmente do físico por ter essa necessidade de ter em mãos. Para mim é mais fácil algo que é meu e eu posso marcar se necessário. Absorvo mais.”
Nos livros digitais, o celular tornou-se o principal dispositivo de leitura, reforçando o caráter híbrido do novo leitor brasileiro.
O país que ainda lê pouco
Apesar do crescimento registrado pela pesquisa, os números mostram que a leitura ainda enfrenta obstáculos históricos no Brasil.
Entre os principais motivos apontados para não comprar livros estão:
-falta de tempo;
-preço elevado;
-acesso gratuito a PDFs;
-downloads gratuitos;
-falta de livrarias próximas;
-preferência por outras atividades.
-Cerca de 35 milhões de brasileiros afirmam considerar os livros caros.
Ainda assim, o mercado demonstra vitalidade. A maioria dos consumidores comprou entre três e cinco livros ao longo do último ano.
Fantasia, romance e ficção científica
Enquanto livros de desenvolvimento pessoal, religiosos e não ficção lideram parte significativa das vendas gerais, entre os jovens as preferências continuam fortemente ligadas ao entretenimento e à imaginação.
Brenda resume bem essa tendência. “Fantasia, romance e ficção científica”, disse ao se referir seus estilos preferidos.
O dado acompanha o crescimento de obras impulsionadas pelas redes sociais, adaptações audiovisuais e comunidades virtuais de fãs.
Ler ainda é um ato de resistência
Num tempo marcado pela lógica dos vídeos curtos e pela disputa permanente por atenção, a leitura exige desaceleração.
Talvez por isso o livro físico continue sobrevivendo de maneira quase teimosa. Não mais apenas como símbolo intelectual, mas como companhia emocional, ferramenta de identidade e espaço íntimo de silêncio.
O novo leitor brasileiro talvez não esteja nas antigas bibliotecas solenes. Está no celular, no ônibus, nas compras parceladas da internet, nos grupos de redes sociais e nas estantes improvisadas dos quartos pequenos.
E embora ainda seja minoria em um país onde o acesso ao livro permanece desigual, ele resiste — página após página.
Box
Os 10 livros mais vendidos em 2025
“Do dia para a noite (Day to night)”, Bobbie Goods (Harper Collins)
“Dias quentes (Spring Summer)”, Bobbie Goods (Harper Collins)
“Café com Deus Pai 2025”, Junior Rostirola (Editora Vélos)
“Isso e aquilo (This & That)”, Bobbie Goods (Harper Collins)
“Dias frios (Fall Winter)”, Bobbie Goods (Harper Collins)
“A psicologia financeira”, Morgan Housel (Harper Collins)
“Verity”, Colleen Hoover (Grupo Editorial Record)
“Elo Monster Books: Flow Pack”, Enaldinho (Pixel)
“A hora da estrela”, Clarice Lispector (Rocco)
“A empregada”, Freida McFadden (Editora Sextante)
Os 10 livros de ficção mais vendidos em 2025
“Verity”, Colleen Hoover (Grupo Editorial Record)
“A hora da estrela”, Clarice Lispector (Editora Rocco)
“A empregada”, Freida McFadden (Editora Sextante)
“A biblioteca da meia-noite”, Matt Haig (Grupo Editorial Record)
“Jantar secreto”, Raphael Montes (Companhia das Letras)
“A metamorfose”, Franz Kafka (Ciranda Cultural)
“A cabeça do santo”, Socorro Acioli (Companhia das Letras)
“Nunca minta”, Freida McFadden (Grupo Editorial Record)
“Tudo é rio”, Carla Madeira (Grupo Editorial Record)
“A hipótese do amor”, Ali Hazelwood (Editora Sextante)










