Há dias em que a cidade parece falar. Não me refiro ao barulho, motores, passos apressados, conversas que se cruzam sem se ouvir, mas à outra voz, aquela que fica escondida debaixo da pressa e só aparece quando a gente desacelera. É uma voz miúda, porém insistente, como se o mundo tivesse algo importante a dizer, mas estivesse cansado de gritar.
Saí de casa cedo, atrasado. A manhã ainda não tinha encontrado seu próprio ritmo, e eu também não. Caminhava rápido quando vi uma senhora varrendo a calçada. Não era a cena em si, mas o jeito dela: cada movimento parecia um diálogo com o tempo. Varria como quem conversa com os dias, uma varrida calma, outra mais firme, como se naquele gesto simples coubesse a expectativa de que “hoje talvez seja possível”.
Passei por ela, mas levei comigo o que não cabia na rua: aquela serenidade teimosa. Certas pessoas deixam rastros sem perceber, e talvez seja isso que sustenta as cidades: os rastros que ninguém vê, mas que seguram tudo no lugar.
Segui andando. Na nova rodoviária, um menino equilibrava a mala em uma roda só, deveria ter quebrado o puxador. Não a arrastava; apenas a escorava em uma das pernas, como quem tinha todo o tempo do mundo. Aquele gesto me devolveu à minha própria infância. Lembrei de quando eu também tinha todo o tempo do mundo, talvez o mundo coubesse sim em uma mala: os medos, as descobertas, a vontade de ser grande e, ao mesmo tempo, o desejo de continuar pequeno só mais um pouco. Só mais um dia.
Continuei a caminhar como quem recolhe pequenas provas de que a vida acontece mesmo quando a gente não presta atenção. Cada pessoa carregava um fragmento do dia: alguém ajeitava a sacola de compras do Diniz, outro equilibrava o humor antes de entrar no trabalho, o taxista soltava um suspiro que não era cansaço, mas resignação. A cidade inteira parecia feita desses mínimos movimentos que ninguém registra, mas que contam mais que qualquer manchete.
Foi só à noite que entendi o que tinha acontecido. Eu havia passado o dia escutando. Não as conversas, mas a cidade que existe por baixo delas: a cidade que se constrói nos intervalos, nos gestos pequenos, nas intimidades que escapam das pessoas e chegam até nós como recados involuntários.
A cidade fala. Sempre falou. Mas só confia seus segredos a quem para por alguns segundos para ouvir. Eu tinha pressa, muita, estava atrasado… Mas mesmo assim, de vez em quando ainda me dou ao luxo do flâneur. Ao menos isso… bem de vez em quando.
Cheguei em casa com a sensação de que tinha vivido algo simples e, ainda assim, transformador. Talvez eu tenha apenas desacelerado o suficiente para perceber que não estou sozinho, que ninguém está. Há sempre alguém varrendo uma calçada, escorando as malas, segurando o dia para ele não despencar.
A cidade me contou uma história naquela manhã. E, sem dizer palavra, eu pude responder.









