O que cresce onde não podemos mais estar

Em Chernobyl, a vida ocupa o vazio que deixamos

 

 

Chamam de resiliência. Mas talvez essa seja apenas mais uma das palavras que usamos para nos absolver. Desde o Desastre de Chernobyl, aprendemos a narrar o impensável com termos suportáveis. É assim que seguimos: nomeando o desastre com palavras que cabem no cotidiano, como se isso diminuísse o que não cabe.

Resiliência é uma delas. Porque dizer que a natureza é resiliente, ali, é confortável. É quase bonito. É, de algum modo, esperançoso. Mas esperança demais também pode ser uma forma de desvio. A Zona de Exclusão continua sendo um território interditado à vida humana plena. Não é passado. Não é memória. É permanência. É um tempo que não passa no ritmo do nosso calendário. E, ainda assim, há vida. Há árvores atravessando concreto. Há animais caminhando por ruas que já tiveram nome. Há silêncio onde antes havia rotina.

Mas essa vida não responde à nossa narrativa. Ela não está “superando” nada. Ela está ocupando. E o que vemos não é a natureza se recuperando de nós, mas a natureza existindo sem nós. Sentem esse peso?

E isso muda tudo. Muda porque, por muito tempo, nos colocamos como condição da vida. Como centro. Como medida. Como necessidade. Chernobyl, mesmo sem intenção, desmonta essa ideia com uma delicadeza brutal. A vida não precisa de nós para continuar. Precisa, no máximo, que a gente pare de interrompê-la.

Talvez o mais difícil não seja encarar a devastação que causamos. Talvez seja aceitar que, depois dela, o mundo segue, não apesar de nós, mas sem nós. E há uma diferença irreversível entre essas duas coisas. E, se há alguma resiliência nessa história, talvez não seja da natureza, mas da nossa capacidade de continuar acreditando que ainda somos necessários, mesmo diante de evidências que insistem em dizer o contrário.

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