A grandiosidade latina
Brasil com Z é erro ortográfico. Mas, sobretudo, é um erro histórico. É aceitar, sem perceber, a ideia de que as Américas têm um único dono, idioma oficial único e endereço fixado no Norte. Como latino-americanos, é preciso afirmar: Brasil é com S. de Sul, de Soberania, de Suor e de Sentido.
Sempre venderam ao mundo que América era sinônimo de EUA. Como se o continente terminasse ali, como se abaixo daquela linha imaginária houvesse apenas um cenário e um quintal exótico. Mas a América é maior do que a narrativa que a enquadra. A América fala espanhol, fala português, fala guarani, quéchua, aimará. A América dança cumbia, samba, reggaeton. A América sangra, cria, reinventa. A América somos nós.
Recentemente, no palco mais televisionado do planeta, o Super Bowl, espetáculo que mistura esporte, mercado e geopolítica, um artista latino-americano ocupou o centro da cena. Bad Bunny não era apenas uma atração musical. Tornou-se símbolo. Porto-riquenho, caribenho, cantando em espanhol para milhões de espectadores acostumados a se enxergar como centro do mundo. Sua presença ali era mais do que pop: era política. Era a afirmação de que a cultura latina fez e continua fazendo história.
Há algo profundamente icônico quando o idioma historicamente colonizado atravessa o império midiático sem tradução, sem pedido de desculpas, sem adaptação. É a inversão precisa de uma hierarquia antiga. Durante séculos, fomos ensinados a consumir o que vinha de fora como sinônimo de qualidade e modernidade. Frida Kahlo, ao pintar a própria dor com cores que o mundo insistia em chamar de exóticas, escreveu: “Pés, para que os quero, se tenho asas para voar?” Talvez seja isso. Sempre tivemos asas. Faltava-nos o reconhecimento do voo. Agora exportamos som, estética, discurso. Não como cópia, mas como origem.
O Brasil precisa reconhecer esse movimento como parte de si. Somos o maior país da América Latina. Somos potência agrícola, ambiental, cultural. Somos ciência produzida em universidades públicas que resistem. Somos periferias criativas que reinventam a indústria musical. Somos cinema que denuncia, literatura que confronta, jornalismo que escava as camadas da desigualdade. Ser brasileiro é carregar contradições imensas. É viver entre a grandiosidade do território e a fragilidade social. Entre o orgulho da diversidade e a ferida da desigualdade. Mas é justamente dessa tensão que nasce a força latinoamericana.
Sim, somos Guimarães Rosa, e o que a vida quer da gente é coragem. E coragem, por aqui, nunca foi escolha estética, mas sobrevivência histórica. É preciso coragem para existir sendo Sul. Para afirmar identidade em um mundo que tenta hierarquizar geografias. E quando um latino ocupa o centro do espetáculo mais assistido do planeta, ele não representa apenas um país. Ele ecoa um continente. Ele lembra que a América não é apenas do Norte. Que há milhões de corpos, vozes e histórias pulsando abaixo da linha do Equador. Que no Sul também há soberania. E que possamos lembrar que soberania não é palavra inflada em palanque.
É entender que nossa história não é rodapé. Que nosso sotaque não é erro. Que nossa cultura não é folclore para turista. É estrutura, influência e potência. Brasil é com S porque somos sujeitos da própria narrativa. Porque não aceitamos ser apêndice geográfico. Porque sabemos que pertencemos à América tanto quanto qualquer outra nação do continente e pertencemos com identidade própria. Somos latinos. E isso não é diminutivo, é grandeza. A grandiosidade latina não está apenas na extensão do território, mas na capacidade de ocupar o mundo sem deixar de ser quem somos. E quando o mundo finalmente percebe, não é concessão. É um reconhecimento tardio e nós já sabíamos.










