A educação como espelho

Não é novidade que vivemos em um país cheio de problemas estruturais. E, um destes problemas que tanto tem a capacidade de nos afetar – e de gerar ainda mais problemas – estão o descaso, o mal manejo e a falta de interesse pela educação.

Infelizmente, a educação no Brasil é um espelho quebrado: reflete nossos problemas e limitações, mas não os conserta. Podemos ver crianças nas escolas aprendendo a repetir fórmulas, mas não a pensar, e, infelizmente, mesmo com essa limitação no ensino atual, ainda devemos ficar felizes por ainda existirem crianças querendo aprender dessa forma, por meio de fórmulas decoradas, e por ainda ter, por enquanto, pais que se importam com a instrução escolar destas crianças e professores para ensiná-las.

Se levarmos em conta a realidade brasileira de nossas crianças e jovens e o estado de nosso sistema educacional, ainda devemos ficar felizes ao ver o esforço no oferecimento e recepção de uma educação na maioria das vezes defasada. Mas isso não basta. Esse sistema nos traz como consequência uma “educação” que, em teoria, diz dar maior atenção àquilo que julgam ser útil no lugar de valorizar o que é essencial, dá mais valor ao imediato em vez daquilo que é duradouro. Dessa forma, formamos uma geração que, em teoria, deveria saber de muitos temas, mas, na maioria dos casos, isso não tem sido visto na realidade. Além do mais, teoricamente, temos uma geração sendo instruída em inúmeros assuntos diferentes, mas a experiência nos mostra que essa instrução não tem englobado aquilo que realmente importa: a formação de um pensamento crítico bem estruturado e fundamentado.

Não é só nas escolas e salas de aula que isso acontece. Isso acontece todos os dias e em todo o nosso país, tanto pelas ruas, quanto nos comércios, como dentro de nossas próprias casas. A sociedade atual, que deveria valorizar o saber, também têm apoiado e praticado isso todos os dias, de maneira que todos nós também temos falhado nisso. Constantemente vemos líderes sem preparo oferecendo soluções rasas, enquanto os cidadãos, sem base, aceitam qualquer coisa. A falta de reflexão, tanto nas escolas quanto nas ruas e em nossas casas, nos deixa vulneráveis às mentiras da cultura e de líderes enganadores.

Foi nos vendida a ilusão de que conhecimento é poder, mas isso tem se mostrado como um fato real? Quais os tipos de conhecimento tem dado esse poder para aqueles o possuem? Filosofia? Reflexão crítica? A maioria traz em si o pensamento de que esses conhecimentos são coisas de “intelectuais”. Mas sem elas, como entender o mundo que nos cerca? Como combater o relativismo que nos engole? A realidade tem nos mostrado que somos um povo que rejeita o pão da mente por migalhas de entretenimento, e ainda achamos que está tudo caminhando bem.

Mas esse problema não é de um grupo de pessoas, ou simplesmente do “sistema”. O problema é de todos nós, é um problema cuja responsabilidade é de toda a nossa sociedade. Pois a maior parte de nossa sociedade é formada por pais que não leem – a geração dos meus pais, por exemplo, a maioria não lia pois não aprenderam a ler. Essa nova geração de pais não tem desculpa diante do fato de que aprenderam o que seus pais não tiveram a oportunidade de aprender. Além dos pais, a maior parte de nossa sociedade atual é formada, também, por professores que não inspiram, ou que não compreendem o seu real papel como formadores, por líderes que não estudam, e por alunos cada vez mais desinteressados em aprender, tornando a tarefa dos professores quase impossível. Dessa maneira, todos contribuímos para essa tragédia. O Brasil padece não por falta de escolas, mas por falta de visão. Educar é mais do que informar; é formar caráter, é apontar o caminho da clareza. No nosso contexto, parece que a maioria daqueles que são tidos como guias, que deveriam apontar o caminho, não fazem a mínima ideia de que caminho é esse.

Os líderes têm um papel extremamente importante dentro do contexto em que vivemos, sejam eles prefeitos, secretários das inúmeras áreas da administração das cidades, vereadores, deputados, senadores, ministros das inúmeras áreas da administração do país, e presidente. Os líderes devem buscar ser verdadeiros mestres para guiar o povo no caminho correto. Mas para isso, precisam se dedicar aos estudos para buscar oferecer respostas aos problemas que tanto afligem nossa sociedade. Só assim poderemos ter alguma esperança de deixarmos em nosso passado essa realidade triste. Infelizmente, a safra de líderes que temos atualmente tem se beneficiado muito dessa falta de conhecimento e educação de qualidade que nossa sociedade padece, de maneira que não podemos esperar que as mudanças necessárias venham por intermédio deles.

A realidade atual de nossa educação nos faz olhar para o futuro e temer as consequências que esse futuro nos reserva. Sem educação de verdade, seremos eternos reféns do caos. Mas ainda brilha alguns raios de esperança nesse céu negro que nos cobre: se cada um de nós, do lavrador ás lideranças, se dedicar na busca do conhecimento, poderemos, talvez, reconstruir esse espelho e ver quem realmente somos.

Que tenhamos sabedoria para realizar essa tarefa, de maneira que a educação volte a ser luz, e não sombras. A crise é nossa, sendo assim, a mudança também poderá vir de nós. Que venhamos lutar por essas melhorias que tanto precisamos, para, quem sabe, conseguirmos mudar os rumos de nosso futuro.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *