A importância da educação política

“Em democracias, o controle sobre o uso da violência é essencial para proteger os direitos civis e garantir que o Estado atue com responsabilidade. O sistema judiciário, a imprensa, as organizações de direitos humanos e a sociedade civil desempenham um papel central na limitação do poder estatal, assegurando que o uso da força seja fiscalizado e que os abusos sejam investigados. A liberdade de imprensa, em especial, é um mecanismo crucial para revelar abusos e responsabilizar as forças de segurança.”

—  Rafael Gripp, ‘Desvendando a Política’  —

 

Nos dias atuais, existe uma ilusão recorrente nas democracias modernas: a crença de que a simples existência de instituições formais basta para conter o ímpeto violento do Estado. Tribunais, constituições, leis, imprensa e organizações civis passam a funcionar, no imaginário coletivo, como garantias automáticas de liberdade. Contudo, tais instâncias não operam no vazio. Elas dependem, de modo vital, de um elemento frequentemente negligenciado: a consciência política do cidadão comum. Sem ela, as engrenagens democráticas tornam-se rituais vazios, facilmente capturados por interesses de poder, de modo a terem somente um nome de fachada e a serem usadas para a realização de desejos ideológicos.

O trecho acima, retirado do livro do cientista político Rafael Gripp, aponta corretamente para o controle da violência estatal como eixo central da democracia. Mas esse controle não se sustenta apenas por mecanismos técnicos ou jurídicos. Ele exige vigilância permanente. Exige uma sociedade capaz de compreender o que é o poder, como ele se manifesta, como se legitima e como se desvia. Quando o cidadão não entende política, ele não fiscaliza; quando não fiscaliza, ele delega cegamente; quando delega cegamente, ele autoriza abusos sem perceber que o fez.

Essa falta de conhecimento e de educação política manifesta-se de forma evidente nas redes sociais, onde se observa um intenso debate político marcado, na maioria das vezes, por desconhecimento conceitual básico. Discute-se política sem compreender ciência política. Opina-se sobre instituições sem conhecer suas funções. E, de forma ainda mais grave, esse desconhecimento não se restringe ao cidadão comum, sendo perceptível até mesmo entre indivíduos que ocupam cargos públicos. Muitos desconhecem não apenas a estrutura do Estado nacional, mas também as atribuições elementares de vereadores, prefeitos e gestores locais. Vivendo assim, a população torna-se presa fácil para abusos, arbitrariedades e violências oriundas do poder político.

A violência do Estado raramente se impõe de forma abrupta, ela se infiltra lentamente, se esconde e se normaliza no discurso da segurança, da ordem, da emergência. Nenhum regime ditatorial é implantado da noite para o dia, pelo contrário, lenta e tranquilamente ele vai preparando e aplainando seu caminho até a sua consumação definitiva. Sem educação política, o indivíduo passa a confundir autoridade com verdade, força com legitimidade, repressão com solução. Nesse cenário, a imprensa livre deixa de ser lida criticamente, o judiciário passa a ser idolatrado ou demonizado, com críticas fundamentadas mais em sentimentos do que na razão, e a própria ideia de direitos humanos é reduzida a frases de efeito ou posições ideológicas.

Educação política não é doutrinação, como muitos repetem por conveniência ou ignorância. É formação da consciência. É ensinar o cidadão a reconhecer estruturas de poder, a ler a realidade para além das narrativas prontas, a entender que todo Estado tende ao excesso quando não é contido. Um povo politicamente analfabeto não é neutro; ele é tendente ao autoritarismo, ainda que se declare amante da liberdade.

Ao longo de seu livro, Rafael Gripp toca num ponto extremamente importante e, ao mesmo tempo, ignorado pela grande massa: sem educação política, a democracia transforma-se em palco simbólico, onde se encena participação enquanto decisões reais são tomadas longe do olhar público. A ausência de formação política produz sujeitos que votam, mas não compreendem; opinam, mas não analisam; protestam, mas não sabem contra o quê nem a favor de quê. Esse vazio é o terreno fértil para a manipulação, para o populismo e para a sacralização da força.

Nesse contexto, a liberdade de imprensa só cumpre sua função quando encontra leitores preparados. Caso contrário, converte-se em ruído, espetáculo ou instrumento de guerra de narrativas. Do mesmo modo, o sistema judiciário só é verdadeiramente fiscalizado quando a sociedade entende seus limites, suas competências e seus vícios. Não há controle institucional sem uma verdadeira educação política.

Somente a educação política impede que o cidadão se torne massa de manobra nas mãos de seus governantes. Só ela impede que a violência seja aceita como linguagem normal do poder. Só ela impede que o Estado se torne uma entidade, acima de qualquer questionamento. Uma democracia sem cidadãos politicamente educados não é simplesmente uma democracia em risco, ela é uma democracia já capturada, apenas aguardando o momento de revelar sua face mais crua.

Controlar a violência do Estado começa, portanto, fora das armas, fora dos tribunais e fora dos palácios. Começa na formação do olhar, da consciência e na participação do cidadão comum. Sem isso, toda democracia é apenas uma promessa não cumprida, e todo esforço por parte da população termina em nada, já que não conhecem os meios e as ações capazes de transformar seus anseios em realidade.

 

 

 

Wanderson R. Monteiro 

Autor de São Sebastião do Anta – MG. 

Dr. Honoris Causa em Literatura e Dr. Honoris Causa em Jornalismo. 

Bacharel em Teologia, Pedagogo. 

Psicanalista em formação  

Autor dos livros Cosmovisão em Crise: A Importância do Conhecimento Teológico e Filosófico Para o Líder Cristão na Pós-Modernidade, Crônicas de Uma Sociedade em Crise, Atormentai os Meus Filhos, e da série Meditações de Um Lavrador, composta por 7 livros. 

Acadêmico correspondente da FEBACLA. Acadêmico fundador da AHBLA. Acadêmico imortal da AINTE. 

Autor de 10 livros. 

Vencedor de 4 prêmios literários. Coautor de 15 livros e 4 revistas. 

(São Sebastião do Anta – MG)

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