Paciente volta a andar e leva polilaminina aos trends; entenda o que a substância pode fazer e o que ainda não se sabe

A polilaminina virou tema de diferentes trends nas redes sociais nos últimos dias com imagens de pacientes com lesão medular na academia. Apesar disso, Tatiana Sampaio, que lidera a pesquisa, diz que substância pode ser uma esperança, mas ainda não é certeza.

A polilaminina virou tema de diferentes trends nas redes sociais nos últimos dias: destaque para paciente em recuperação, debate sobre perda de patente e posts de orgulho pela ciência nacional. Instagram e TikTok ficaram tomados pelo assunto. Mas o que, de fato, essa substância pode fazer?

➡️ A polilaminina é um composto recriado em laboratório a partir da laminina, proteína produzida no corpo humano, especialmente durante o desenvolvimento embrionário, quando exerce papel fundamental na organização dos tecidos e no crescimento celular.

Em sua pesquisa, Tatiana Sampaio usava a substância para tratar lesões medulares agudas, ou seja, que tinham acontecido há pouco tempo e deixaram as pessoas sem os movimentos.

Ela conseguiu bons resultados em animais e depois em um pequeno grupo de humanos. Isso levou à parceria com um laboratório nacional e à aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o início da pesquisa que deve responder:

A polilaminina funciona mesmo como tratamento para pessoas com lesão medular aguda?
Em entrevista ao g1, a pesquisadora explicou que o que ela apresenta ao país hoje é uma substância com a promessa de se tornar uma medicação, mas que ainda há um longo caminho a percorrer.

Ainda não é um feito, é uma promessa de tratamento. No dia em que ele estiver registrado, as pessoas usarem e todas elas recuperarem a função, se todo mundo voltar a andar, aí sim fizemos uma revolução.
— Tatiana Sampaio, que liderou a pesquisa sobre a polilaminina
O cuidado de Tatiana existe porque ainda é necessário cumprir todo o processo exigido para que uma substância prove que é segura e eficaz.

➡️ E você pode se perguntar: mas e o caso de Bruno Drummond, que sofreu um acidente com lesão medular em 2018, aplicou polilaminina e hoje faz até musculação?

O que especialistas explicam é que há evidências de que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda podem recuperar algum grau de movimento mesmo sem a droga, dependendo do tipo de lesão e da resposta individual.

Abaixo, o g1 conta o que se sabe sobre o tratamento, quais são as possibilidades, em que fase está a pesquisa e o que pensam sobre a substância especialistas que lidam com pesquisas clínicas e pacientes com lesão medular.

  • O que a polilaminina pode realmente fazer?
  • Como a substância funciona no corpo?
  • Se não está aprovada, por que você está vendo pessoas usando a polilaminina nas redes?
  • E a patente do produto?
  • Até onde o que já se sabe justifica o uso da substância como está sendo feito?
  • O que a polilaminina pode fazer?

A pesquisa mostrou que há indícios de que ela pode ajudar na regeneração em casos de lesão medular aguda, que é aquela que acontece logo após o trauma na região.

🔎 Para você entender melhor:

A coluna vertebral é formada por vários ossos que se empilham e formam um canal no centro da estrutura óssea. É por esse canal que passa a medula espinhal — um feixe de nervos que conecta o cérebro ao restante do corpo.
Ela funciona como uma via de comunicação: transmite os comandos do cérebro para os músculos e leva de volta informações como dor, temperatura e tato. Quando há uma lesão, essa comunicação fica interrompida.

➡️ É nesse ponto que a substância entra. O objetivo é que, ao ser aplicada no local da lesão, ela estimule os nervos a criarem novas rotas e restabelecerem parte dos movimentos.

No ano passado, a equipe de Sampaio divulgou os resultados de um estudo preliminar — que não teve revisão por pares, ou seja, por especialistas independentes — com oito pacientes. Alguns tiveram alguma evolução, enquanto outros apresentaram recuperação significativa dos movimentos.

O que os dados divulgados mostram até agora:

O estudo preliminar envolveu oito pacientes com lesão medular aguda e apontou diferentes níveis de recuperação motora. Nem todos tiveram recuperação completa — o caso que viralizou nas redes sociais não representa o resultado observado em todos os participantes.
Os resultados ainda não passaram por revisão por pares, que é o processo em que especialistas independentes analisam a metodologia, os dados e as conclusões. Essa etapa é considerada fundamental para validar achados na ciência.
Como o estudo foi feito com um grupo pequeno de pessoas, não é possível afirmar, com base nesses dados, que a substância é realmente eficaz. Amostras reduzidas dificultam conclusões definitivas. Ainda mais porque as lesões são de diferentes níveis.
Não há evidência científica de que a polilaminina possa funcionar no tratamento de lesões medulares crônicas, em pacientes que já têm a paralisia há algum tempo. Isso não foi pesquisado nessa etapa.

“O que estamos vendo agora é um resultado muito estimulante, promissor. Mas, por enquanto, é só uma esperança. Não dá para saber se estamos mesmo diante de algo espetacular.”
— Tatiana Sampaio, que liderou a pesquisa sobre a polilaminina

O que Tatiana fez pode ser considerado um feito: ela carrega a resiliência de uma pesquisadora que vem dedicando décadas de sua vida incansavelmente a encontrar uma esperança para pacientes que perderam a chance de se movimentar.
Mas, como ela mesmo explica, é preciso paciência para o tempo da ciência, que exige inúmeros processos até que uma descoberta se prove mesmo eficaz.

E você pode se perguntar: o que então falta para que se prove eficaz? Basicamente, todo o caminho que um medicamento precisa para se provar eficaz. O resultado que se tem até agora é acadêmico.

Para que a polilaminina chegue de fato a hospitais e ao Sistema Único de Saúde (SUS), ainda será necessário:

Iniciar ensaios clínicos regulatórios em humanos – começando pela fase 1, voltada à segurança em pequeno grupo. Isso foi aprovado em janeiro pela Anvisa e ainda está na comissão de ética. Ou seja, ainda não começou.
Depois, caso seja provada a segurança, vai ser preciso ampliar os testes nas fases 2 e 3 – em que é avaliada a eficácia, doses adequadas e efeitos adversos em populações maiores.
Caso as duas fases acima sejam um sucesso, então é solicitado o registro sanitário. Após a aprovação, o medicamento pode ser comercializado.
Como a substância funciona no corpo?
Quando ocorre uma lesão na medula espinhal, os “fios” dos neurônios (axônios) se rompem e o próprio organismo forma uma cicatriz no local, criando um ambiente que dificulta a reconexão dessas células. A polilaminina é uma versão reorganizada em laboratório da laminina, uma proteína naturalmente presente no corpo humano e importante no desenvolvimento do sistema nervoso. Ao ser aplicada diretamente na área lesionada durante a cirurgia, ela forma uma espécie de estrutura de suporte no local do trauma.

Na prática, essa estrutura funciona como uma “ponte microscópica” ou um caminho guiado que pode facilitar o crescimento dos prolongamentos dos neurônios através da região lesionada, ajudando a restabelecer parte da comunicação entre o cérebro e o corpo. Os resultados observados até agora em laboratório, em animais e em pequenos grupos de pacientes indicam que esse mecanismo pode favorecer algum grau de recuperação motora em lesões agudas.

 

Por que então você está vendo pessoas usando a polilaminina nas redes?

 

Desde que o estudo foi divulgado, a repercussão vem mobilizando pacientes e familiares de pessoas com lesão medular. Com isso, dezenas de pessoas acionaram a Justiça para ter acesso à substância.

➡️ O Brasil tem uma resolução que permite o uso compassivo de medicamentos ainda em fase de estudo, mas o processo exige avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Como a polilaminina precisa ser aplicada em até 72 horas após a lesão, as decisões judiciais pediam celeridade nessa análise.

Segundo o laboratório Cristália, são cerca de 40 ações judiciais e 19 aplicações realizadas até agora. A diferença nos números ocorre porque alguns pacientes não tiveram aval médico por causa da condição clínica.

🔴 Mas, atenção: todas essas aplicações não fazem parte de um ensaio clínico formal. Os pacientes recebem a substância, mas não são acompanhados dentro de um protocolo estruturado de pesquisa.

Eles tiveram evoluções variadas, que vão desde uma recuperação gradual da mobilidade, até movimento de alguns membros. O que especialistas explicam é que, mesmo com esse resultado, é prematuro usar a polilaminina. Isso porque até 30% dos pacientes pode se recuperar de lesões agudas. (Entenda mais abaixo)

Desde o início das mobilizações, cinco mortes foram registradas. Segundo o laboratório, elas não têm relação com a polilaminina, mas com o quadro clínico dos pacientes, que já eram graves.

Ao g1, Tatiana Sampaio afirma que entende a mobilização dos pacientes, mas que esse tipo de aplicação os deixa expostos.

“É uma exposição para o paciente. Como não está dentro de um estudo clínico, não temos responsabilidade por um acompanhamento.”
— Tatiana Sampaio, que liderou a pesquisa sobre a polilaminina

Apesar disso, o laboratório que conduz a pesquisa afirma que confia na segurança da substância e que, agora, não será mais necessário recorrer à Justiça. O Cristália informou que, após reunião com a Anvisa, a agência concordou em acelerar a avaliação dos pedidos.

A substância é entregue gratuitamente, já que ainda não é regulamentada como medicamento.

E a patente do medicamento?
Em entrevista ao canal “Brasil 247”, Tatiana disse que tem a patente nacional da substância, mas que não tem mais a internacional. Isso teria acontecido por um corte de verbas federais na UFRJ, onde a pesquisa estava sendo feita, entre 2015 e 2016.

Nesse período, segundo ela, para não perder a patente nacional, ela chegou a pagar o registro do próprio bolso.

O g1 questionou a UFRJ sobre o tema, mas não obteve retorno. O Cristália, que hoje trabalha com a substância, disse que, de forma prática, a patente nacional cai este ano e que a internacional, caso estivesse válida, também cairia.

Hoje, o laboratório brasileiro patenteou o processo de formulação, então é ele quem tem o registro.

Até onde o que já se sabe justifica o uso da substância como está sendo feito?
O g1 conversou com especialistas e como o neurocirurgião Jorge Pagura, que há 50 anos opera pacientes com lesão medular e é professor emérito da Universidade Federal do ABC, e com o especialista em estudos clínicos Leonardo Costa.

Eles foram unânimes em dizer: os achados científicos não são suficientes para justificar o uso amplo e irrestrito da substância.
Leonardo Costa, que também pesquisa a área da coluna, explica que há evidências de que 30% dos pacientes podem recuperar os movimentos depois de uma lesão aguda sem qualquer intervenção.

Ele explica que o que define isso é a gravidade da lesão, a agilidade na hora de operar para conter o dano e a recuperação.

“Depois de uma lesão aguda, o corpo vai se reorganizando. Com o passar do tempo, tendo um bom atendimento e acompanhamento, a pessoa pode recuperar o movimento, parcial ou total em alguns casos.”
— Leonardo Costa, especialista em estudos clínicos

O especialista afirma que está otimista com a pesquisa, mas que é preciso cautela ao usar e acreditar que a polilaminina como remédio é uma realidade. E que a chance de um estudo que funcionou em modelo, como é o caso, funcionar em grupos maiores, é de 20%. “Estamos falando de ciência e, por isso, é preciso muito cuidado”, explica.

O médico Jorge Pagura explica que torce para que funcione, mas que baseado nas evidências, acha que a substância pode até ajudar sendo uma proteção após a lesão, do que regenerando, como se quer acreditar.

“A medula é como um cabo e, diferente do cérebro, ela não tem neuroplasticidade. Ou seja, não consegue se adaptar. Eu sei como é no dia a dia o drama desses pacientes. E me preocupa muito a forma como vem sendo divulgado esse estudo, que ainda é frágil.”
— Jorge Pagura, neurocirurgião especialista em lesão medular

Ele explica que ao longo dos anos teve pacientes com regeneração de poucos movimentos ou até parcial (de apenas um lado do corpo) e que existe evidência de que até 30% dos pacientes possam se recuperar com reabilitação. No entanto, isso não é uma realidade para todos e que depende do tipo de lesão.

“E isso também se aplica a polilaminina. Cada lesão é diferente da outra e o que temos em evidência não prova que isso vai se aplicar a todo tipo de lesão, como está parecendo nas redes sociais (…) Eu me preocupo com o emocional do paciente, em se criar uma falsa expectativa para as famílias.”
— Jorge Pagura, neurocirurgião especialista em lesão medular

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