A QUESTÃO NÃO ESTÁ EM PAUTA

MARGARETH MACIEL DE ALMEIDA SANTOS
DOUTORA EM SOCIOLOGIA POLÍTICA
MEMBRO DO INSTITUTO DOS ADVOGADOS BRASILEIROS (IAB)

O atual conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã insere-se em uma das mais complexas e duradouras tensões geopolíticas do sistema internacional contemporâneo. Longe de ser um evento isolado, a escalada militar observada em 2026 representa o ponto culminante de décadas de rivalidades estratégicas, disputas ideológicas e confrontos indiretos no Oriente Médio. A combinação de interesses militares, ambições nucleares, disputas territoriais e narrativas políticas conflitantes transformou a região em um epicentro de instabilidade global. Nesse cenário, a recente ofensiva coordenada e suas consequências evidenciam não apenas o fracasso das vias diplomáticas, mas também o risco concreto de ampliação do conflito para proporções ainda mais devastadoras.

 

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Este texto foi elaborado sob três olhares distintos: o do professor Lier, a quem sempre recorremos para esclarecer conflitos de difícil compreensão; o do editor do Diário de Caratinga, José Horta; e o meu. Seguem as questões elaboradas por José Horta para o professor Lier.

 

Como começou o atual conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã em 2026, e quais foram os eventos imediatos que desencadearam a escalada militar?

 

A guerra entre EUA e Israel contra o Irã teve início no dia 28 de fevereiro, após ataques coordenados de forças americanas e israelenses ao país islâmico, no momento em que EUA e Irã envidavam esforços para evitar a deflagração do conflito. Todavia, mesmo antes desse ataque — que vitimou o líder iraniano, aiatolá Ali Khamenei —, já haviam sido verificadas operações israelenses no Líbano com vistas à desmobilização de grupos extremistas como o Hezbollah, bem como bombardeios americanos e israelenses a instalações nucleares iranianas, ainda em 2025.

 

Quais são as raízes históricas dessa tensão — especialmente no que diz respeito ao programa nuclear iraniano e a rivalidade com Israel?

 

A causa remota é a formação do Estado de Israel, no imediato pós-Segunda Guerra Mundial. Para o regime islâmico, Israel não tem o direito de existir naquele território, historicamente habitado por árabes-palestinos. Já Israel acusa — até aqui sem provas — o Irã de produzir armas nucleares com o objetivo de destruir o Estado judeu.

 

Por que os ataques iniciais foram realizados justamente em um momento de negociações nucleares em andamento?

 

É importante frisar que os ataques ocorreram em meio a negociações tensas, difíceis e cuja solução ainda demandaria tempo. Nesse contexto, EUA e Israel viram na via militar uma forma de enfraquecer a República Islâmica e forçá-la a aceitar termos desfavoráveis.

 

Qual é a justificativa apresentada por Estados Unidos e Israel para a ofensiva, e como o Irã responde a essas acusações no campo diplomático?

 

Nas negociações realizadas em Genebra, sob mediação de Omã, os EUA — instigados por Israel — exigiam o desmantelamento completo do programa nuclear iraniano, com a remoção imediata de todo o urânio já enriquecido, além da retirada do apoio iraniano a grupos considerados extremistas no Oriente Médio, como Hezbollah e Hamas.

O Irã, por sua vez, refutava essas exigências, afirmando seu direito soberano ao desenvolvimento de tecnologias nucleares para fins pacíficos. Diferentemente de EUA e Israel, o país é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares. Também exigia a suspensão imediata dos embargos econômicos.

Diante do impasse e da expectativa de que Teerã capitularia, os ataques foram iniciados. Contudo, a resiliência política, econômica e militar do Irã tem surpreendido, colocando os EUA em posição delicada. Isso porque, segundo a análise apresentada, os americanos não teriam interesse direto no conflito, que beneficiaria sobretudo o governo israelense liderado por Benjamin Netanyahu.

 

A eliminação de líderes iranianos tem capacidade de enfraquecer de forma duradoura a estrutura de poder do país ou tende a reforçar a coesão interna?

 

A expectativa inicial era de enfraquecimento, mas isso não se confirmou. A resiliência do regime tem reforçado a coesão interna do Irã e gerado impactos políticos externos.

 

Em que medida esse conflito representa continuidade de confrontos indiretos anteriores?

 

O conflito atual representa o ápice de décadas de guerras por procuração entre Irã e Israel. O chamado “Eixo de Resistência”, liderado por Teerã, inclui grupos como Hezbollah, Hamas e Houthis, além de milícias no Iraque e apoio ao governo sírio. Já Israel utilizou essas ameaças para justificar sua atuação militar na região. A partir de 2024, no entanto, passou a adotar uma estratégia de confronto direto.

 

Como se configura a “guerra de narrativas”?

 

Em qualquer guerra, a verdade costuma ser a primeira vítima. No cenário atual, a desinformação alcançou níveis elevados, com uso estratégico de narrativas, fake news e manipulação de informações para influenciar a opinião pública global.

 

Qual o impacto sobre a população civil?

 

Os impactos são significativos. Em Israel, o principal efeito é o medo disseminado. Já no Irã, o número de vítimas civis é muito maior, especialmente entre mulheres e crianças. Apenas nos ataques do dia 8 de abril, já durante um cessar-fogo temporário, foram registrados mais de 250 mortos e 1.100 feridos.

 

Há risco de ampliação para uma guerra regional?

Sim, trata-se de um risco considerável. No entanto, há resistência internacional a uma escalada maior. Países europeus evitam envolvimento direto, enquanto nações árabes também demonstram cautela. Potências como China e Rússia igualmente evitam participação direta.

 

Quais os impactos globais?

Já há reflexos na economia mundial, especialmente no setor energético. O aumento no preço da energia gera efeitos em cadeia, pressionando economias e elevando custos. Geopoliticamente, observa-se desgaste da credibilidade dos EUA e fortalecimento relativo da China.

 

Como foi negociado o cessar-fogo?

O cessar-fogo foi mediado pelo Paquistão, com participação da China. Apesar de esforços para mantê-lo, houve novas violações, o que mantém o cenário instável e imprevisível.

 

Impactos no Brasil

 

Embora distante do epicentro, o Brasil não está imune aos efeitos do conflito. Em um mundo globalizado, crises internacionais impactam diretamente a economia, a política e o cotidiano.

O aumento dos preços de combustíveis e energia já é perceptível, com reflexos na inflação e no custo de vida. Há também possíveis impactos no comércio exterior e na taxa de câmbio.

Por outro lado, o país pode ampliar sua atuação diplomática, reforçando sua tradição de defesa do multilateralismo e da resolução pacífica de conflitos.

No campo político, o cenário internacional exige posicionamentos cautelosos. Já no aspecto humanitário, o agravamento da crise pode gerar novas demandas por acolhimento e cooperação internacional.

Diante desse quadro, o Brasil não é um espectador passivo. Os desdobramentos do conflito tendem a influenciar sua economia, sua política externa e sua inserção no cenário global.

 

PAZ E BEM!

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