Especialista Sávio de Tarso analisa impacto das redes sociais, algoritmos e desinformação e defende que a credibilidade jornalística depende, mais do que nunca, de apuração rigorosa e compromisso com o contraditório
CARATINGA — Em um cenário marcado pela velocidade da informação e pela multiplicação de vozes nas plataformas digitais, o conceito de “pós-verdade” tornou-se central para compreender os desafios contemporâneos da comunicação. O termo foi escolhido pelo Oxford Dictionaries como a palavra do ano em 2016 e define situações em que fatos objetivos passam a ter menos influência na formação da opinião pública do que apelos à emoção e às crenças pessoais.
A popularização da expressão está associada a eventos como o Brexit, no Reino Unido, e as eleições presidenciais dos Estados Unidos naquele mesmo ano, marcadas pela disseminação de desinformação nas redes sociais. Em reportagem de capa, a The Economist classificou o fenômeno como a “arte das mentiras”, destacando o papel das plataformas digitais na amplificação de narrativas sem compromisso com a verificação.
Nesse contexto, o jornalismo profissional enfrenta o desafio de reafirmar seu papel em um ambiente informacional fragmentado, frequentemente orientado por algoritmos que priorizam engajamento em detrimento da qualidade.
Para analisar esse cenário, o DIÁRIO conversou com Sávio de Tarso, historiador, jornalista, radialista, mestre em História e cineasta documentarista. Na entrevista, ele discute as transformações no ecossistema da comunicação, o papel das plataformas digitais e os caminhos para a reconstrução da credibilidade jornalística.
O que exatamente significa o conceito de “pós-verdade” e em que momento ele passou a ganhar força no debate público e acadêmico?
O debate sobre a verdade no jornalismo não é novo. Ele acompanha a própria história da imprensa desde seus primórdios, com Johannes Gutenberg, no século XV. Desde então, sempre houve questionamentos sobre como a verdade é construída no fazer jornalístico, especialmente porque toda notícia resulta de um recorte — seja do repórter, da linha editorial ou das decisões internas de edição.
Esse processo envolve métodos que, ao longo do tempo, foram desenvolvidos para dar conta da apuração e da divulgação dos fatos, mas que também são constantemente criticados. Afinal, esses métodos não eliminam a subjetividade; apenas a organizam dentro de critérios técnicos e profissionais. Por isso, discutir a verdade no jornalismo é, em última instância, discutir o próprio jornalismo.
O conceito de “pós-verdade” surge mais recentemente, ganhando força com a globalização e, sobretudo, com o avanço das tecnologias digitais. Durante grande parte do século XX, os meios de comunicação de massa concentravam a produção e a difusão de informações, enquanto o público atuava majoritariamente como receptor.
Com a internet, esse cenário mudou. A possibilidade de qualquer pessoa produzir e compartilhar conteúdo ampliou o número de vozes no espaço público e colocou em xeque a centralidade da imprensa tradicional. Surgem, então, novos atores — como blogueiros, youtubers e influenciadores — que também passam a disputar narrativas e interpretações da realidade.
Nesse contexto, a “pós-verdade” não se refere apenas à circulação de informações falsas, como as chamadas fake news, mas também à multiplicidade de versões e perspectivas sobre os fatos. Isso levanta uma questão central: quem detém a legitimidade para dizer o que é verdadeiro?
De um lado, está o jornalismo profissional, baseado em formação técnica e métodos consolidados. De outro, uma diversidade crescente de produtores de conteúdo, que operam fora desses parâmetros tradicionais. A tensão entre esses dois polos ajuda a explicar por que o conceito de pós-verdade se tornou tão relevante no debate contemporâneo.
Na sua avaliação, quais fatores sociais, políticos e tecnológicos contribuíram para o surgimento e a consolidação do fenômeno da pós-verdade na comunicação contemporânea?
Diversos fatores ajudam a explicar o avanço da pós-verdade, sobretudo aqueles ligados às profundas transformações nas formas de comunicação e nas relações de poder nas últimas décadas. Com a globalização e, principalmente, com a popularização da internet, houve uma mudança estrutural na circulação da informação.
O filósofo Pierre Lévy já apontava que, antes da internet, predominava um modelo comunicacional “de um para todos”, no qual veículos institucionalizados produziam conteúdo para uma audiência ampla. Hoje, esse modelo foi substituído por uma lógica “de todos para todos”, em que qualquer indivíduo pode produzir, compartilhar e consumir informação.
Essa transformação ampliou o acesso e democratizou a produção de conteúdo, mas também trouxe desafios evidentes. Nem todos os produtores de informação possuem formação técnica ou compromisso ético com a apuração, o que impacta diretamente a qualidade e a confiabilidade do que circula no ambiente digital.
Do ponto de vista político, essa mudança altera as próprias relações de poder. A comunicação sempre ocupou papel central na organização da sociedade, especialmente na formação do que o filósofo Jürgen Habermas (8 de junho de 1929 — 14 de março de 2026) definiu como “esfera pública” — o espaço de debate onde se constroem opiniões e consensos. Durante muito tempo, essa esfera esteve concentrada nos grandes meios de comunicação.
Com a internet, esse cenário se fragmenta. O debate público deixa de estar restrito a poucos canais e passa a ocorrer em múltiplos espaços, simultâneos e, muitas vezes, sem mediação institucional. Isso dilui a predominância de discursos considerados oficiais e amplia a presença de vozes diversas — inclusive aquelas que antes não tinham visibilidade.
Esse fenômeno torna-se particularmente evidente no campo eleitoral. A partir da década de 2010, com a consolidação das redes digitais, surgem candidaturas impulsionadas quase exclusivamente por esses novos meios. Em muitos casos, são figuras sem trajetória consolidada na política tradicional, mas com forte presença nas redes e inserção em nichos informacionais — as chamadas “bolhas”.
Nesse ambiente, a disputa por narrativas se intensifica. A combinação entre acesso ampliado, fragmentação do debate público e ausência de filtros institucionais mais rígidos contribui diretamente para a consolidação da pós-verdade como uma marca da comunicação contemporânea.
Há, ainda, uma diferença estrutural entre a informação tradicional e o fluxo informacional típico da pós-verdade. No modelo jornalístico clássico, a produção da notícia está submetida a um conjunto de mediações: formação profissional, revisão editorial, avaliação por pares e responsabilidade legal. O jornalista responde a editores, à legislação e ao próprio veículo, que pode ser responsabilizado judicialmente por eventuais falhas, como a ausência de contraditório ou a divulgação de informações não verificadas.
Já no ambiente digital contemporâneo, a circulação de conteúdo muitas vezes ocorre sem esses mecanismos de controle. A produção de informação passa a ser marcada pela subjetividade, pela ausência de critérios técnicos e, em muitos casos, pelo anonimato — seja por meio de perfis falsos, avatares ou identidades simuladas. Trata-se de uma forma de participação no debate público sem os mesmos vínculos de responsabilidade social e jurídica.
Uma comparação ilustrativa ajuda a dimensionar esse cenário: setores produtivos tradicionais, como a indústria de alimentos, estão submetidos a rigorosos sistemas de regulação e fiscalização. A informação, por sua vez, especialmente no contexto digital da pós-verdade, torna-se uma das poucas “mercadorias” que circulam com controle social limitado ou inexistente.
É justamente essa combinação — transformação tecnológica, reconfiguração política do debate público e fragilidade dos mecanismos de regulação — que sustenta o avanço e a consolidação da pós-verdade na comunicação contemporânea.
Qual é a principal diferença entre a tradicional circulação de boatos ou propaganda e o que hoje se denomina pós-verdade?
A principal diferença está no grau de controle e nos mecanismos de responsabilidade envolvidos na produção e na circulação da informação. No modelo tradicional — mesmo quando se tratava de boatos ou propaganda — havia, em alguma medida, estruturas, filtros e limites que condicionavam o que era divulgado.
No jornalismo profissional, por exemplo, a produção da notícia está inserida em um ambiente regulado por critérios técnicos, éticos e legais. O jornalista responde a editores, está sujeito à avaliação de seus pares e precisa cumprir exigências como a verificação dos fatos e a apresentação do contraditório. Além disso, não há anonimato: mesmo quando a matéria não é assinada, o veículo de comunicação assume a responsabilidade pelo conteúdo e pode ser responsabilizado judicialmente em caso de irregularidades.
Esse conjunto de mecanismos funciona como um sistema de controle social sobre a informação. Há regras, há consequências e há uma cadeia clara de responsabilidade.
Já no contexto da pós-verdade, esse cenário se altera de forma significativa. A circulação de informações passa a ocorrer, em grande parte, sem mediação institucional e sem os mesmos critérios de apuração. O conteúdo pode ser produzido e disseminado a partir de percepções individuais, sem compromisso com métodos jornalísticos ou padrões éticos.
Outro elemento central é o anonimato — ou a possibilidade de ocultação de identidade por meio de perfis falsos e avatares. Isso reduz drasticamente a responsabilização de quem produz ou compartilha determinada informação, permitindo que conteúdos circulem sem que seus autores sejam facilmente identificados ou cobrados.
Nesse sentido, a informação, no ambiente da pós-verdade, passa a operar como uma espécie de “mercadoria sem regulação”. Diferentemente de outros setores — como o de alimentos, que obedecem a normas rigorosas de órgãos reguladores —, a produção e a disseminação de conteúdo informativo nas redes digitais escapam, em grande parte, de controles sociais mais efetivos.
O resultado é um volume massivo de informações circulando com pouca ou nenhuma filtragem, o que amplia a dificuldade de distinguir entre fato, opinião e manipulação. Essa ausência de controle estruturado é o que marca, de forma decisiva, a diferença entre a lógica tradicional de circulação de informações e o ambiente contemporâneo da pós-verdade.
De que forma as redes sociais e os algoritmos das plataformas digitais intensificam a disseminação de narrativas baseadas mais em emoção do que em fatos verificáveis?
Esse fenômeno está diretamente ligado ao papel das grandes plataformas digitais — as chamadas “big techs” — e à lógica que orienta seu funcionamento. No início, havia a expectativa de que a internet criaria um ambiente mais democrático, no qual todos teriam igual poder de produzir e consumir informação. No entanto, essa ideia se revelou, em grande parte, uma ilusão.
Na prática, as plataformas não operam com a informação como valor central. Seu principal ativo é o próprio usuário. Empresas como Google, Facebook e Instagram estruturam seus modelos de negócio a partir da coleta e da organização de dados dos usuários, que passam a ser tratados como “produtos” dentro de um grande ecossistema digital.
É nesse ponto que entram os algoritmos. Eles são projetados para agrupar perfis com base em interesses, comportamentos, preferências e características sociais, formando verdadeiras “bolhas” de informação. O objetivo não é qualificar o conteúdo, mas maximizar o engajamento e aproximar consumidores de produtos e serviços.
Nesse ambiente, conteúdos que despertam emoções intensas — como indignação, medo ou euforia — tendem a circular mais rapidamente e alcançar maior visibilidade. Isso ocorre porque geram mais cliques, compartilhamentos e tempo de permanência nas plataformas, elementos fundamentais para o modelo de negócios dessas empresas.
O problema é que, nessa lógica, a veracidade da informação se torna secundária. Os algoritmos não operam a partir de critérios éticos ou jornalísticos, nem consideram, necessariamente, o impacto social do conteúdo disseminado. Questões como desinformação, discurso de ódio ou teorias conspiratórias acabam encontrando terreno fértil justamente por sua capacidade de mobilizar emoções.
Esse cenário tem gerado preocupação em diferentes partes do mundo. Parlamentos e órgãos reguladores em países como Brasil, Estados Unidos e na União Europeia vêm debatendo formas de estabelecer algum nível de controle ou responsabilização sobre essas plataformas.
A preocupação central é evitar que, sob a lógica de mercado e da segmentação de públicos, a circulação irrestrita de conteúdos acabe comprometendo a coesão social, enfraquecendo valores coletivos e ampliando a polarização. Em outras palavras, o desafio é equilibrar liberdade de expressão com responsabilidade informacional em um ambiente altamente mediado por interesses econômicos e tecnológicos.
Na prática jornalística, quais são os maiores desafios para manter o compromisso com a apuração rigorosa em um ambiente marcado por desinformação e polarização?
Um primeiro ponto importante é reconhecer que a ideia de imparcialidade absoluta no jornalismo sempre foi, em grande medida, um mito. Nenhum veículo ou profissional está completamente livre de visões de mundo, valores ou recortes interpretativos. Há exemplos internacionais claros disso, como o The New York Times, que historicamente assume posições editoriais em momentos decisivos, como eleições presidenciais.
No entanto, reconhecer a inexistência de neutralidade não significa abrir mão do rigor jornalístico. Pelo contrário: o principal desafio da prática profissional, especialmente em um ambiente de desinformação e polarização, é preservar os pilares técnicos da apuração.
Isso passa pela verificação dos fatos. Informação não comprovada não deve ser publicada. Esse princípio, básico na formação jornalística, torna-se ainda mais essencial em um cenário em que conteúdos falsos ou distorcidos circulam com rapidez.
Outro elemento central é o contraditório. Sempre que há uma denúncia ou acusação, é fundamental ouvir todas as partes envolvidas, garantindo equilíbrio na apresentação dos fatos. A ausência desse cuidado compromete a credibilidade da informação e aproxima o conteúdo de práticas mais opinativas ou até propagandísticas.
O grande risco atual é a substituição do jornalismo por narrativas unilaterais. Em contextos eleitorais recentes, tanto no Brasil quanto em outros países, observou-se a atuação de veículos e canais que funcionam como verdadeiras “câmaras de eco”, apresentando apenas um lado dos acontecimentos. Em vez de promover o debate público qualificado, esses espaços reforçam visões já consolidadas dentro de determinados grupos.
Quando isso ocorre, o jornalismo perde sua função essencial e se aproxima de uma lógica de publicidade ou militância. A circulação de informações sem contraponto favorece, inclusive, a permanência de conteúdos falsos, que deixam de ser questionados dentro dessas bolhas.
Portanto, o desafio contemporâneo não está em buscar uma neutralidade impossível, mas em garantir método, checagem rigorosa e abertura ao contraditório. É essa combinação que sustenta a credibilidade do jornalismo e o diferencia de outras formas de produção de conteúdo no ambiente digital.
O senhor acredita que a pós-verdade representa uma crise do jornalismo ou uma crise mais ampla da confiança nas instituições?
A ideia de “morte do jornalismo” não é nova e já surgiu em outros momentos de transformação tecnológica, como com a chegada da televisão. No entanto, a tendência não é de desaparecimento, mas de reconfiguração da atividade. O jornalismo passa por mudanças estruturais, adaptando-se a novos ambientes e formas de circulação da informação.
Nesse sentido, a pós-verdade não representa apenas uma crise do jornalismo em si, mas uma crise mais ampla de confiança nas instituições. O que está em jogo é a credibilidade de diferentes instâncias — imprensa, política, ciência — em um cenário em que múltiplas vozes disputam espaço e legitimidade.
Ainda assim, há razões para otimismo. Movimentos recentes de regulamentação das plataformas digitais, especialmente em regiões como a União Europeia, indicam uma tentativa de reorganizar esse ambiente informacional. A criação de regras para o funcionamento das redes pode, no longo prazo, contribuir para fortalecer a credibilidade do jornalismo profissional.
Embora hoje qualquer pessoa possa produzir e disseminar conteúdo, isso não elimina a importância da formação técnica e ética. Profissionais qualificados têm maior capacidade de produzir informações de interesse público, com método, responsabilidade e compromisso coletivo.
A tendência, portanto, é de coexistência: um ambiente aberto, com múltiplos produtores de conteúdo, mas em que o jornalismo profissional pode se consolidar novamente como referência de credibilidade — especialmente se conseguir reafirmar seus diferenciais em termos de apuração, verificação e responsabilidade social.
Qual o papel da checagem de fatos e do jornalismo de verificação no enfrentamento desse fenômeno? Essas iniciativas têm sido suficientes?
A checagem de fatos sempre foi um elemento central do jornalismo. Verificar informações antes da publicação faz parte do próprio método jornalístico. O que muda no cenário atual é a escala e a velocidade com que os conteúdos circulam, impulsionadas pela multiplicação de fontes e pela dinâmica das plataformas digitais.
Hoje, diante do volume massivo de informações — muitas delas falsas ou distorcidas —, a checagem ganhou uma dimensão própria dentro das redações. Grandes veículos e conglomerados de comunicação passaram a estruturar equipes e projetos específicos dedicados exclusivamente à verificação de conteúdos, especialmente no combate às chamadas fake news.
Esses núcleos atuam rastreando a origem das informações, avaliando evidências, consultando especialistas e analisando se determinado conteúdo possui base factual ou científica — algo particularmente importante em temas como saúde pública. Também há uma preocupação crescente em identificar materiais produzidos ou manipulados por tecnologias como inteligência artificial.
Além disso, surgiram iniciativas independentes e parcerias entre veículos voltadas à checagem, ampliando o alcance desse tipo de trabalho e oferecendo ao público ferramentas para distinguir o que é verdadeiro do que é falso.
Ainda assim, embora essas iniciativas sejam fundamentais, elas enfrentam limitações. A velocidade da desinformação muitas vezes supera a capacidade de verificação, e conteúdos falsos tendem a se espalhar antes mesmo de serem desmentidos. Por outro lado, há um movimento gradual de conscientização do público, com leitores e usuários recorrendo cada vez mais a serviços de checagem para validar informações.
Portanto, o jornalismo de verificação é hoje uma peça-chave no enfrentamento da pós-verdade, mas não atua sozinho nem de forma plenamente suficiente. Ele precisa ser combinado com educação midiática, responsabilidade das plataformas e engajamento crítico do público para produzir efeitos mais duradouros no combate à desinformação.
Como as escolas de jornalismo devem preparar os futuros profissionais para lidar com a desinformação e com o ambiente comunicacional marcado pela pós-verdade?
A formação de um bom jornalista não pode se limitar ao domínio técnico. Embora as técnicas de apuração, redação e edição sejam fundamentais, elas, por si só, não são suficientes para preparar o profissional para os desafios contemporâneos.
Durante muito tempo, houve questionamentos sobre a necessidade da formação específica em jornalismo, justamente porque a técnica pode ser aprendida com relativa facilidade quando comparada a outras áreas. No entanto, o verdadeiro diferencial do jornalista não está apenas na técnica, mas na sua capacidade de atuar como mediador do debate público.
É nesse ponto que as escolas de jornalismo precisam avançar. A formação deve ser profundamente humanística, incorporando conhecimentos de história, sociologia, economia, política e filosofia. Essa base ampla permite ao jornalista compreender a complexidade dos fenômenos sociais e interpretar os fatos para além da superfície.
Mais do que transmitir informações, o jornalista tem a função de organizar, contextualizar e qualificar o debate público. Em um ambiente marcado pelo excesso de dados e pela circulação desordenada de conteúdos, cabe a ele selecionar o que é relevante, verificar a consistência das informações e garantir que diferentes vozes sejam ouvidas de forma equilibrada.
Essa capacidade de mediação é o que distingue o jornalismo de outras profissões. Enquanto outras áreas produzem conhecimento especializado, o jornalista atua como ponte entre esses saberes e a sociedade, traduzindo, confrontando e ampliando perspectivas.
No contexto da pós-verdade, essa função torna-se ainda mais crucial. O profissional precisa desenvolver senso crítico apurado para lidar com a avalanche informacional, identificar distorções e contribuir para um debate público mais qualificado.
Portanto, a preparação dos futuros jornalistas exige uma combinação sólida entre técnica e formação crítica. Não basta formar “repassadores de informação”; é necessário formar profissionais capazes de interpretar o mundo, promover o contraditório e sustentar, com responsabilidade, a circulação de informações de interesse coletivo.
Em um cenário em que parte do público rejeita informações verificadas quando elas contrariam crenças pessoais, como o jornalismo pode reconstruir pontes de credibilidade com a sociedade?
A formação de “bolhas” informacionais — especialmente de caráter ideológico e político — é hoje um dos principais desafios para o jornalismo. No entanto, esse comportamento não é exatamente novo. Sempre houve pessoas que buscavam informações para confirmar suas próprias crenças. A diferença é que, com a internet, essas visões ganharam visibilidade, articulação e reforço coletivo.
Antes, opiniões preconceituosas ou desinformadas muitas vezes permaneciam restritas ao âmbito privado. Hoje, esses indivíduos encontram grupos que compartilham das mesmas ideias e passam a consumir apenas conteúdos que reforçam essas visões, criando ambientes fechados de validação mútua.
Apesar disso, o jornalismo continua tendo um papel central. A perda de audiência dos meios tradicionais para a internet é um processo histórico — semelhante ao que ocorreu quando o rádio perdeu espaço para a televisão —, mas isso não significa perda total de relevância ou de credibilidade.
O desafio está em manter o compromisso com o debate público amplo, mesmo diante da fragmentação. O jornalismo profissional ainda possui a capacidade de pautar discussões relevantes e levar temas de interesse coletivo para além das bolhas. Um exemplo recente é o debate global sobre racismo no futebol, impulsionado por episódios envolvendo o jogador Vinícius Júnior, que ganhou repercussão internacional a partir da cobertura da imprensa.
Além disso, há um movimento em curso de regulamentação das plataformas digitais em diferentes países, com o objetivo de limitar excessos dos algoritmos e ampliar a responsabilidade sobre a circulação de conteúdos. Esse processo pode contribuir, no longo prazo, para reduzir a fragmentação extrema do debate público.
Embora não haja garantia de que essas bolhas desaparecerão, elas não são estáticas. Mudam ao longo do tempo, se reorganizam e convivem com outras formas de circulação de informação. O jornalismo, ao sustentar práticas como a apuração rigorosa, o contraditório e a contextualização, continua sendo um dos principais instrumentos para reconstruir pontes com a sociedade.
Assim, em vez de competir diretamente com as bolhas, o jornalismo deve reafirmar sua função de mediador do debate público — ampliando vozes, qualificando discussões e oferecendo referências confiáveis em meio à multiplicidade de narrativas.
O senhor vê sinais de que a sociedade está desenvolvendo mecanismos de resistência à pós-verdade, ou acredita que esse será um desafio permanente para o jornalismo?
Se olharmos em perspectiva histórica, veremos que o pessimismo em relação aos meios de comunicação não é novidade. Em diferentes momentos, surgiram previsões alarmistas sobre o controle absoluto da informação e seus impactos na sociedade. Obras como “1984”, de George Orwell, ou produções culturais como “The Wall”, do Pink Floyd, expressaram esse temor de um domínio total sobre consciências e narrativas.
Ao longo do tempo, no entanto, essas previsões não se concretizaram exatamente como imaginado. Mesmo fenômenos históricos extremos, como a ascensão do nazismo, mostram que o controle da comunicação pode ter efeitos profundos, mas não definitivos ou absolutos.
No contexto atual, é inegável que o poder das plataformas digitais e das big techs é expressivo e, em muitos aspectos, preocupante. A capacidade de influenciar fluxos de informação e comportamento social, especialmente nas últimas duas décadas, representa um desafio real e complexo.
Ainda assim, há sinais claros de resistência. O jornalismo profissional, quando pautado pela qualidade e pelo rigor, continua sendo uma das principais barreiras contra a desinformação. Além disso, instituições democráticas, movimentos da sociedade civil e iniciativas de regulação têm buscado responder a esses desafios, criando mecanismos de controle e responsabilização.
Essas reações indicam que a sociedade não está passiva diante do fenômeno da pós-verdade. Pelo contrário, há um processo em curso de adaptação e enfrentamento, ainda que gradual e cheio de tensões.
Por isso, embora o desafio seja permanente — como sempre foi em diferentes formas ao longo da história —, há espaço para uma visão menos pessimista. A tendência é que, com o tempo, se fortaleçam mecanismos institucionais, culturais e profissionais capazes de equilibrar os efeitos da desinformação, evitando a consolidação de um cenário distópico de comunicação.












