HERÓI DA RESISTÊNCIA

Há 40 anos Ronaldo da Banca atravessa gerações e mantém vivo o elo entre o jornal e o leitor em tempos de mudanças profundas

 

CARATINGA — Houve um tempo em que a cidade despertava junto com o barulho das páginas sendo abertas. As bancas de jornal eram pontos de encontro, pequenas ágoras onde a notícia não apenas informava — ela reunia. Gente se acotovelava para ver a manchete do dia, comentar o fato, discordar, rir, se indignar. Antes mesmo do café esfriar, o mundo já havia passado por ali, impresso em tinta e papel.

É nesse cenário que começa a história de Ronaldo Martins Silva, hoje com 60 anos, o ‘Ronaldo da Banca’ que tem o estabelecimento desde 1984. Quatro décadas depois, ele permanece no mesmo ofício, na Avenida Moacir de Mattos, agora em um tempo em que o movimento já não é o mesmo — mas a convicção, sim.

No momento em que o DIÁRIO completa 31 anos, esta reportagem também cumpre um papel simbólico: homenagear os donos de bancas de revistas e jornais, que durante décadas foram a principal ponte entre o jornal e o leitor — responsáveis por fazer a notícia sair da gráfica e ganhar as ruas.

“Vendia muito jornais”, resume Ronaldo, com a simplicidade de quem viu o tempo mudar diante dos próprios olhos.

Ele acompanhou a era de ouro das bancas, quando pilhas de jornais desapareciam ainda nas primeiras horas da manhã. Havia quantidade, havia demanda, havia um ritual coletivo. A notícia tinha hora para chegar — e, quando chegava, era quase um acontecimento.

Hoje, o cenário é outro.

“A pandemia apareceu bastante, tinha bastante jornal. Depois da pandemia, acabou… diminuiu demais”, conta. A mudança, segundo ele, não está apenas na quantidade, mas no perfil do leitor. “São pessoas mais velhas. O pessoal mais novo quase não compra.”

O hábito da leitura migrou. Saiu do papel, ganhou as telas, passou a circular em tempo real — muitas vezes sem pausa, sem filtro, sem espera. Ronaldo observa esse novo mundo à distância, com respeito, mas sem se render completamente a ele.

“Eu mesmo tenho o hábito de ler, gosto muito de ler. Mas, como não ganho mais os jornais, e não gosto de mexer no computador, essas coisas, aí eu não leio. Fico só com o jornal Diário, o que vem para a rua.”

Na banca, o silêncio de hoje contrasta com a agitação de antes. Ainda assim, há resistência — e ela se manifesta nos detalhes. No cliente que chega e olha primeiro as capas, no outro que pergunta pelo atraso da entrega, no telefonema para saber “o que aconteceu, por que não veio”.

“O pessoal já está acostumado. Chega, olha, espera.”

E por que ainda vêm?

“É porque gostam de ler mesmo. Querem saber de alguma coisa. Às vezes nem tem uma notícia que chama tanta atenção, mas querem ler.”

Há, segundo ele, também uma constante humana que atravessa gerações: “O pessoal gosta muito de coisa ruim”, diz, com um meio sorriso de quem aprendeu a ler o comportamento do público tanto quanto as manchetes.

Se antes a banca era o centro de um pequeno tumulto diário, hoje ela resiste como um ponto de memória. Um lugar onde o tempo não corre com a mesma pressa das notificações, onde a notícia ainda pode ser tocada, dobrada, guardada.

Ronaldo sabe que o mundo mudou. Sabe que o fluxo já não é o mesmo. Mas há algo que permanece — uma fidelidade silenciosa ao papel, ao gesto de vender jornal, ao encontro com quem ainda valoriza esse ritual.

Quando perguntado até quando pretende continuar, ele responde sem hesitar:

“Vou continuar… até quando Deus quiser.”

Na simplicidade da frase, cabe uma profissão inteira.

E, talvez, uma definição precisa: em um tempo de mudanças aceleradas, Ronaldo não é apenas dono de banca — é, como tantos outros que vieram antes dele, um herói discreto da resistência.

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