Ainda Não é o Fim (Parte II):

Guerras, Fomes e Pestes

 

 

A escatologia não pode ser construída sobre ansiedade coletiva, mas sobre uma exegese responsável. O problema do nosso tempo não é a falta de sinais, mas o excesso de interpretações apressadas. Existem irmãos sinceros que olham para as notícias nos jornais, para a instabilidade geopolítica, para o surgimento de novas epidemias, para o avanço tecnológico, e concluem de imediato: “Os sinais estão todos aí”. Contudo, quando abrimos o texto do Evangelho de Mateus, no capítulo 24, não encontramos um convite ao desespero e ao pânico, mas um chamado ao discernimento. E o eixo hermenêutico que deve governar qualquer leitura séria é a declaração de Cristo em Mateus 24:21: “Porque haverá então grande tribulação, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá.” Essa frase é o critério absoluto. Um critério que não pode ser perdido de vista.

Jesus começa falando dos falsos cristos. “Muitos virão em meu nome.” A história da Igreja é marcada por muitos que diziam ser o messias ou enviados “especiais” dele, marcada por líderes carismáticos, seitas apocalípticas e movimentos que reivindicaram autoridade divina exclusiva. Desde o primeiro século, passando pela Idade Média, até os movimentos sectários modernos, o fenômeno não é novo. A existência de falsos cristos hoje não prova que estamos vivendo o cumprimento das profecias que antecedem a vinda de Jesus; prova que a advertência de Cristo sempre esteve em vigor. O mesmo vale para falsos profetas, mencionados no mesmo discurso. O engano religioso não é sinal exclusivo do fim; é uma característica permanente de uma humanidade caída e de sua busca por um estilo de religião que satisfaça seus anseios e vontades imediatas, e não o Caminho verdadeiro que leve a Deus.

Quando Jesus fala de guerras e rumores de guerras, Ele acrescenta uma cláusula frequentemente ignorada: “Olhai, não vos assusteis… mas ainda não é o fim.” O século XX testemunhou duas guerras mundiais, genocídios sistemáticos, bombas nucleares, conflitos ideológicos globais. “Nação contra nação, reino contra reino” não é novidade histórica. Somente a Segunda Guerra resultou em dezenas de milhões de mortos, devastou continentes inteiros e introduziu a ameaça nuclear global. Se a tribulação final será singular, então ela não pode ser equiparada a conflitos regionais ou tensões geopolíticas atuais.

Hoje existem conflitos. Sim. Tensões globais. Sim. Instabilidade diplomática. Sim. Mas ainda não se equiparam ao que aconteceu em outros momentos históricos, como os ocorridos no século passado. Se tais eventos fossem o clímax definitivo, Mateus 24:21 já teria sido cumprido em proporções inquestionáveis. O que Cristo descreve não é a mera continuidade da violência humana, mas um período cuja intensidade ultrapassa todos os precedentes.

Fomes, pestes e terremotos também aparecem na lista apresentada por Jesus. A humanidade já enfrentou pandemias devastadoras, colapsos alimentares e catástrofes naturais que dizimaram populações inteiras. Isso não relativiza o sofrimento atual, apenas impede que olhemos para os acontecimentos do presente como se fossem incomparáveis. Se já houve pestes com taxas de mortalidade proporcionalmente superiores, então ainda não estamos diante do “como nunca houve”.

Desde Gênesis 3, a criação geme. Fomes devastaram continentes inteiros em séculos passados. O século XX testemunhou crises alimentares que dizimaram milhões. A fome na China, entre 1959 e 1961, matou dezenas de milhões. A fome na Ucrânia (Holodomor) devastou populações inteiras. A Grande Fome Irlandesa foi catastrófica. Hoje existem desigualdade e crises localizadas, mas a produção global de alimentos é a maior da história. Nunca a humanidade produziu tanto. Isso não minimiza o sofrimento atual, mas impede exageros escatológicos. Se já existiram, na história humana, fomes mais devastadoras do que as atuais, então não estamos diante daquilo que Jesus chamou de incomparável.

A recente pandemia de Covid-19 fez com que voltássemos os holofotes para outro ponto que Jesus registra como marco de Sua volta: doenças e pestes. Mas, como nos outros pontos, muitas vezes não levamos em conta que pandemias passadas dizimaram proporções da população muito superiores às das epidemias e pandemias recentes. A Peste Negra matou cerca de um terço da população europeia. A gripe espanhola matou milhões em um mundo sem antibióticos ou sistemas de saúde estruturados. A pandemia recente, de Covid, embora séria e com grandes consequências, não alcançou devastação proporcional como a dessas outras crises históricas. Portanto, novamente, não estamos diante de algo “como nunca houve”.

 

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