“A violência psicológica não deixa marcas físicas, mas causa danos profundos”, alerta delegada da mulher em Caratinga

CARATINGA – Silenciosa, progressiva e devastadora, a violência psicológica é uma das formas mais comuns de agressão contra a mulher — e também uma das menos reconhecidas pelas próprias vítimas. O alerta é da delegada Tatiana Soares Carneiro Neves Breder, titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) de Caratinga, que explica como esse tipo de violência se manifesta e como a legislação brasileira protege as vítimas.
Segundo ela, a violência psicológica está prevista no artigo 7º da Lei Maria da Penha e consiste em qualquer conduta que cause dano emocional à mulher. “A violência psicológica significa o agressor causar dano emocional, humilhação, constrangimento, ameaça ou chantagem àquela mulher. Esse dano não acontece de um dia para o outro. Ele ocorre com o tempo. O agressor vai chantageando, diminuindo, humilhando e oprimindo essa mulher.”
A delegada enfatiza que, embora invisível, o impacto é profundo. “É uma violência que não deixa marcas físicas, mas causa um grave dano emocional. Essa mulher passa a ser sempre diminuída, sempre humilhada, sempre vulnerabilizada perante a sociedade”, frisa.
Segundo ela, o agressor muitas vezes expõe a vítima também fora de casa. “Não é só dentro da residência. Muitas vezes ele faz isso em outros locais. Então, essa mulher passa a viver constantemente sob humilhação.”

A violência nem sempre é física — e nem por isso é menos grave

A delegada destaca que ainda é comum a ideia equivocada de que só existe violência quando há agressão física. “Não existe apenas a violência física. Existe a violência psicológica, a violência moral, a violência patrimonial e a violência sexual. Todas estão previstas na Lei Maria da Penha”, informa a delegada.
Ela cita exemplos comuns: “Quando o agressor quebra o celular da vítima para que ela não tenha acesso às redes sociais, isso é violência patrimonial. Quando o homem força uma relação sexual sem o consentimento da mulher, isso é violência sexual ou quando ele xinga, chama de ‘piranha’, ‘vagabunda’, ‘prostituta’, isso é violência moral.”
E reforça: “Todos esses comportamentos podem configurar crime e a mulher pode procurar a delegacia.”

O ciclo começa com o controle

A delegada explica que, na maioria dos casos, a violência psicológica é o primeiro passo de um ciclo que pode evoluir. “A violência física geralmente inicia com a violência psicológica. Ele começa diminuindo essa mulher, proibindo ela de sair, proibindo contato com familiares, controlando roupas, redes sociais.”
Ela explica que esse processo leva à dependência emocional. “Ele oprime tanto essa mulher que ela passa a depender emocionalmente, financeiramente e até fisicamente dele. Ela começa a acreditar que não consegue viver sem aquele homem.”
Em casos extremos, a vítima perde a autonomia. “Nós temos casos de mulheres que não conseguem sequer andar no centro da cidade sem a presença do agressor. É uma dependência completa”, explica.

Mudanças de comportamento são sinais de alerta
A delegada afirma que familiares e amigos têm papel fundamental. “A mulher muda completamente o comportamento. Ela se afasta das pessoas, deixa de conversar, deixa de frequentar lugares”, relata a delegada, acrescentando que a mulher também tenta esconder as agressões. “Ela usa roupas mais fechadas para esconder lesões e maquiagem para esconder hematomas.”
Segundo a delegada, muitas vítimas sequer percebem que estão sendo violentadas. “Em muitos casos, a mulher não sabe que está vivenciando uma violência”, observa.

Denúncias podem interromper o ciclo
A delegada relatou um caso recente que demonstra a importância da denúncia. “Uma vizinha procurou a delegacia e denunciou a situação. Nós conseguimos resgatar essa mulher. Ela pediu medida protetiva, o agressor saiu e nunca mais a perturbou.”
E destacou: “A medida protetiva foi extremamente eficaz. Evitou que a violência evoluísse para algo ainda mais grave, como o feminicídio.”
Nem sempre a vítima pode interromper o processo

A delegada explica que nem todos os crimes dependem da vontade da vítima. “Hoje, apenas a violência psicológica depende da representação da mulher. Os outros crimes, como lesão corporal, ameaça e perseguição, independem da vontade dela”, especifica.
Ela também falou sobre o programa Restaurar, que acompanha agressores. “Mesmo que a mulher retire a medida protetiva, o agressor pode continuar sendo acompanhado”. E fez um alerta: “Se ele descumpre as determinações, pode ser preso preventivamente.”

Delegacia também oferece acolhimento psicológico
A delegada ressalta que a delegacia não atua apenas na repressão. “Nós tivemos hoje o caso de uma mulher que veio apenas conversar. Ela precisava entender o que estava vivendo”, disse a delegada, explicando que essa mulher foi encaminhada para atendimento psicológico. “Existe uma rede de apoio. A prefeitura, em parceria com a delegacia, oferece acompanhamento psicológico”, complementa.
A delegada Tatiana Soares Carneiro Neves Breder reforça: “A polícia não está aqui apenas para combater. Estamos aqui para ajudar, orientar e acolher. Você não está sozinha”, afirma delegada
Ao final, a delegada deixou uma mensagem direta às vítimas. “A mulher precisa estar atenta aos sinais. Humilhação, constrangimento, manipulação — tudo isso é violência”, afirmou concluindo: “Você não está sozinha. Existe uma rede pronta para ajudar. A delegacia está aqui para acolher, orientar e proteger. Nenhuma mulher precisa permanecer nesse ciclo de violência.”

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COMO DENUNCIAR E BUSCAR AJUDA

Mulheres vítimas de violência psicológica ou qualquer outro tipo de violência doméstica podem procurar apoio e denunciar por diferentes canais:
Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher
* Funciona 24 horas, todos os dias, inclusive feriados
* Atendimento gratuito e sigiloso
* Recebe denúncias e orienta sobre direitos e serviços disponíveis

Emergência: Ligue 190
* Quando houver risco imediato ou agressão em andamento

Delegacia Virtual e canais online
* É possível registrar denúncia sem sair de casa
* Também há canais como o aplicativo e o portal “Proteja Brasil”

Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM)
* Atendimento presencial com equipe preparada
* Solicitação de medida protetiva de urgência
* Encaminhamento para apoio psicológico e assistência social

Denúncia anônima
* Pode ser feita por vizinhos, familiares ou amigos
* O sigilo é garantido

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