Revistando José de Alencar

  * José Lacerda da Cunha

Admirado por muitos de seus contemporâneos, inclusive por Machado de Assis, cultor de um estilo conciso e enxuto, impregnado de fina ironia, tinha  uma sincera admiração por José  de Alencar.

Dono de uma vasta e multiforme obra literária, Alencar estava muito à frente de seu tempo, antecipando ideias e propostas defendidas pelos participantes da Semana de Arte Moderna, de 1922.

Como prova desta verdade, destacamos dois pequenos excertos, extraídos do prefácio de seu romance, sonhos d’ Ouro. Verdadeira lição de teoria literária.

“Portanto, ilustres e não ilustres representantes da crítica, não se constranjam. Censurem, piquem, ou calem-se como lhes aprouver. Não alcançarão jamais que eu escreva neste meu Brasil cousa que pareça vinda em conserva lá da outra banda, como a fruta que nos mandam em lata. (…)”

“O povo que chupa o caju, a manga, o cambucá e a jabuticaba, pode falar uma língua com igual pronúncia e o mesmo espírito do povo que sorve o figo, a pera, o damasco e a nêspera”?

Alencar recusa a importação pura e simples de modelos literários, sem qualquer relação com nossos valores culturais.

Usando a metáfora das frutas, Alencar afirma que quem chupa caju, manga e jabuticaba, fruta muito ao gosto do povo, não pode falar ou escrever como quem come pera, nêspera e damasco, frutas ao gosto das elites.

Alencar defende o uso da língua popular, a mesma que, muitos anos mais tarde, Manuel bandeira chama de “língua errada do povo, língua certa do povo, porque ele é que sabe falar gostoso o português do Brasil.”

Alencar concebeu e executou um projeto literário envolvendo vários brasis, que compõem nosso uno e diversificado Brasil.

Assim, em seus romances, temos o Brasil dos Índios em Iracema, Ubirajara e o Guarani, voltando às nossas raízes, o Brasil histórico com Minas de Prata, o Brasil regional com O Gaúcho, O Sertanejo, o Brasil urbano com Lucíola, Senhora e outros.

Sua obra abre caminhos para outros que virão mais tarde.

Cumpre, ainda, ressaltar que Alencar rompeu as fronteiras entre a prosa e a poesia, como se pode verificar, por exemplo, em seu romance Iracema, pela rara beleza das metáforas e comparações, bem como a sonoridade e musicalidade das palavras

Como se pode ver em Iracema, exemplo de prosa poética, verdadeiro prosoema, uma bela e trágica história da virgem dos lábios de mel, o romance que  termina com esta reflexão filosófica “ Tudo passa sobre a terra” .

Não, “Sô Alencar”, nem tudo passa sobre a terra, por exemplo, sua obra permanece e permanecerá viva e atual. Iracema a morena virgem dos cabelos negros como  as asas de graúna e sorriso perfumado como a baunilha, salta das páginas do livro homônimo para correr  livre e solta pelos campos e matas de nossa imaginação.

Como Outubro foi mês das crianças, aproveito a oportunidade para dedicar um poeminha a todas crianças grandes e pequenas.

Menino de sempre

 

Nos quintais de dentro

Um garoto salta

Nos trapézios d’alma

E há voos de pássaros

Sussurros de vento

Cantos de ninar.

Minha gente grande

Séria e preocupada,

Que vive correndo

Em busca de nada.

Liberta o menino

Que vive escondido

Por trás da fachada.

Nas ruas do sonho

Vamos cirandar.

Menino de hoje

De ontem e de sempre,

Dá-me tua calma

Que a vida roubou,

Dá-me teu sorriso

Tua claridade,

Revive este homem

Em tristeza imerso,

Desce de teu berço

Pousa no meu verso,

Vem berçar minh ‘alma.

 

*José Lacerda da Cunha, professor do Centro Universitário de Caratinga, Coordenador da Área de Linguagem e suas Tecnologias da Escola Professor Jairo Grossi, Membro da Fundação Educação Educacional de Caratinga e da Academia Caratinguense de Letras.