A QUESTÃO NÃO ESTÁ EM PAUTA

De forma geral, no início dos anos 1960 (por volta de 1960–1962), Brasil e Coreia do Sul tinham níveis parecidos de renda per capita. É interessante citar que a Coreia do Sul havia saído da Guerra da Coreia, ocorrida entre os anos de 1950 e 1953. Em minhas pesquisas, constatei que, no pós-guerra, a educação foi o ponto central para alavancar a Coreia do Sul, mas não foi o único fator, pois o desenvolvimento coreano é resultado de um conjunto bem coordenado de políticas, priorizando absolutamente a educação como ponto forte da dignidade humana e da ética do trabalho no pós-guerra: “estudar e trabalhar para reconstruir o país”.

Nesse contexto, vocês podem me questionar sobre o que me levou a escrever este texto sobre Coreia do Sul e Brasil, apesar de nosso país ser maior e possuir mais recursos naturais. Ainda assim, até 1960, os dois países apresentavam níveis semelhantes de renda per capita e enfrentavam desafios parecidos.

O que me incomoda é entender: por que a Coreia do Sul se desenvolveu muito mais do que o Brasil?

Um dos elementos centrais dessa divergência está na forma como cada país tratou a educação técnica, sua relação com a indústria e a política de desenvolvimento de longo prazo. A universalização rápida do ensino básico, com forte investimento em matemática, ciências e engenharia, aliada à valorização extrema do estudo, foi capaz de formar pessoas que pensam, inovam e operam tecnologia. Esse é o ponto, pois possibilitou, por meio da educação, criar mão de obra qualificada, e não apenas trabalhadores braçais.

Ainda em minha pesquisa sobre a Coreia, observei que a educação conectada ao mercado de trabalho foi um diferencial em relação ao Brasil. Um ponto que deve chamar a atenção de todos nós: a Coreia ligou escolas técnicas e universidades diretamente às necessidades da indústria, resultando em empregos qualificados, aumento de produtividade, salários maiores, mais consumo e mais investimento. Uma política industrial forte e focada protegeu e financiou empresas nacionais, exigindo resultados como exportação, inovação e competição.

Assim surgem os chaebols, como Samsung, Hyundai, LG e SK, destacando que essas empresas começaram copiando tecnologia, depois aprimoraram seus processos e, hoje, lideram a inovação global.

Se olharmos para o Brasil, veremos que o país investiu menos e mais tarde em educação básica de qualidade, teve políticas industriais instáveis e, o mais grave, manteve a desigualdade elevada, formando menos pessoas qualificadas, gerando menos inovação e uma indústria menos competitiva.

Tenho a esperança de que o Brasil ainda possa se aproximar do modelo coreano, sem copiar tudo, porque aqui o contexto é outro. O que se deve dizer — e é o que carrego comigo após pesquisas — é que o caminho passa por mais educação, mais indústria e mais Estado coordenador, ou seja, tudo funcionando de forma integrada.

Isso significa uma base forte no ensino básico, realmente prioritário, tratando a profissão do professor como estratégica, pagando bem e com avaliação séria. Quem não aprende deve receber reforço. Em relação ao ensino técnico, ele também precisa ser efetivo, de modo que as pessoas saiam empregáveis, e não apenas diplomadas. Há necessidade de fortalecer o SENAI e os Institutos Federais, conectando-os às empresas locais. É claro que as coisas não mudam em uma geração, mas mudam com políticas públicas consistentes.

Os problemas a serem enfrentados incluem a pouca articulação com empresas, currículos defasados e o fato de o ensino técnico ser tratado como alternativa inferior, e não como estratégia central. Isso pode ser observado, inclusive, pelos salários recebidos por quem concluiu o ensino técnico. Esquece-se que esses profissionais, após uma educação sólida, desenvolvem pensamento crítico, compreendem melhor o que fazem e geram resultados expressivos para os empregadores.

Na Coreia do Sul, a educação técnica nunca foi vista como alternativa inferior ao ensino universitário. Desde cedo, o país estruturou um sistema em que o ensino médio se dividia claramente entre trajetórias acadêmicas e técnico-industriais, ambas socialmente valorizadas. As escolas técnicas foram desenhadas em conexão direta com setores produtivos específicos, como eletrônica, mecânica de precisão, química e tecnologia da informação. As empresas participaram da definição dos currículos, os estágios tornaram-se parte obrigatória da formação e o técnico recém-formado já chegava ao mercado com capacidade produtiva real. Esse modelo criou uma base sólida de trabalhadores qualificados, permitindo que muitos avançassem posteriormente para a engenharia e a pesquisa aplicada. Na prática, na Coreia, um bom engenheiro quase sempre começa como um bom técnico.

No Brasil, apesar da existência de instituições de excelência, como o SENAI e os Institutos Federais, a educação técnica permaneceu fragmentada e limitada em escala. O ensino médio seguiu pouco conectado ao mercado de trabalho, enquanto a formação técnica de nível médio foi pouco reconhecida e valorizada como suporte essencial ao conhecimento acadêmico.

Essa diferença educacional está diretamente ligada às dificuldades enfrentadas pelo Brasil para implementar políticas estruturais de desenvolvimento técnico e científico contínuo.

Ainda assim, especialistas afirmam que é possível imaginar um caminho realista para o Brasil se aproximar desse modelo, desde que se pense em termos de longo prazo. Um projeto nacional de vinte anos precisaria começar pela base: garantir alfabetização plena na infância, elevar drasticamente a qualidade do ensino em matemática, leitura e lógica e criar uma carreira docente valorizada e exigente, com avaliação e apoio contínuos. Esse primeiro período não produziria milagres econômicos imediatos, mas criaria o alicerce humano indispensável.

Na etapa seguinte, o país teria de expandir massivamente a educação técnica, integrando-a ao ensino médio e conectando-a diretamente às necessidades regionais da indústria. Instituições como o SENAI e os Institutos Federais precisariam ganhar escala nacional, com currículos definidos em parceria com o setor produtivo. Paralelamente, o Estado deveria escolher poucos setores estratégicos e apoiar empresas com financiamento condicionado a ganhos reais de produtividade, inovação e capacidade de exportação.

Com essa base formada, a fase seguinte seria a consolidação de uma engenharia forte e aplicada, voltada à solução de problemas concretos da indústria nacional. Universidades e centros de pesquisa passariam a trabalhar de forma mais integrada com empresas, e a formação de mestres e doutores estaria ligada à geração de produtos, processos e tecnologias, e não apenas à produção acadêmica. Empresas nacionais ganhariam escala, seriam incentivadas a competir no exterior e a absorver tecnologia de ponta.

Ao final desse ciclo, o Brasil poderia alcançar uma economia mais baseada no conhecimento, com indústria exportadora de alto valor agregado, salários médios mais elevados, menor desigualdade e um Estado mais eficiente. A educação técnica deixaria de ser estigmatizada e passaria a ocupar o lugar estratégico que ocupa em países desenvolvidos.

Em última instância, a comparação com a Coreia do Sul mostra que o principal obstáculo brasileiro nunca foi a falta de diagnóstico ou de capacidade técnica, mas a ausência de continuidade política e de vontade coletiva para sustentar um projeto nacional ao longo de décadas. Desenvolvimento não é um evento; é um processo — e exige escolhas difíceis mantidas por muito tempo.

Brasil e Coreia do Sul, países semelhantes que seguiram caminhos diferentes, podem ter essa divergência explicada, em grande parte, pela educação técnica, uma política de longo prazo que fez da Coreia uma potência industrial. A explicação não está em um único fator, mas em um conjunto de decisões estratégicas tomadas ao longo do tempo — especialmente no campo da educação técnica, da política industrial e da capacidade do Estado de planejar além dos ciclos eleitorais.

Esse modelo permitiu que técnicos recém-formados ingressassem no mercado de trabalho com alta produtividade, abastecendo uma estratégia industrial focada em exportação e inovação. Ao longo do tempo, muitos desses técnicos avançaram para cursos de engenharia, criando uma base sólida de conhecimento aplicado. Empresas como Samsung, Hyundai e LG surgiram nesse ambiente, inicialmente absorvendo tecnologia estrangeira e, posteriormente, liderando processos de inovação global.

Concluo convocando à reflexão: não existe ordem verdadeira em uma sociedade profundamente desigual. O que existe é controle temporário, imposto a pessoas às quais nunca foram dadas as ferramentas para escolher outro caminho. Da mesma forma, não existe democracia real onde oportunidades são privilégio de poucos, e não direito de todos.

Democracia é dar oportunidade

Quando o Estado cobra disciplina, produtividade e obediência de uma população privada de educação de qualidade, acesso à tecnologia e formação profissional digna, ele não está organizando a sociedade — está reproduzindo a exclusão. Nenhum país se desenvolve exigindo do cidadão aquilo que nunca lhe ofereceu.

A desigualdade não é um efeito colateral do sistema brasileiro; ela é o seu eixo central. Enquanto aceitarmos que parte da população tenha escolas precárias, ausência de cursos técnicos valorizados, dificuldade de acesso à universidade e exclusão digital, estaremos mantendo apenas uma democracia formal, vazia de conteúdo social.

Hoje, o computador não é mais um diferencial. Tornou-se uma linguagem universal, tão essencial quanto saber ler e escrever. Quem não tem acesso a computador, internet de qualidade e alfabetização digital está fora do mercado de trabalho, fora da economia moderna e fora da participação plena na vida pública. Negar essas ferramentas é negar cidadania.

Não importa se o caminho do indivíduo é o curso técnico ou a universidade. Ambos são necessários, complementares e estratégicos. Técnicos movem a indústria, engenheiros e pesquisadores ampliam fronteiras, professores formam gerações. Um país que hierarquiza o saber destrói a própria base do seu desenvolvimento.

Educação política e educacional não é gasto: é infraestrutura social. Ensino básico forte, educação técnica integrada ao mundo do trabalho, universidades acessíveis e acesso universal às ferramentas digitais não são concessões ideológicas — são pré-condições mínimas para qualquer projeto nacional sério.

Sem oportunidade, não há ordem legítima.
Sem igualdade de acesso ao conhecimento, não há democracia.
Sem educação e tecnologia para todos, não há futuro.

Convoco, mais uma vez: vamos defender um Brasil onde a ordem nasce da inclusão, onde a democracia se constrói com oportunidades reais e onde nenhum cidadão é deixado para trás por falta de acesso ao saber e às ferramentas do nosso tempo.

PAZ E BEM!

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