Manual de voo entre muros

A volta à primavera ensina a existir nas frestas do que a cidade ergue contra o próprio céu

Quase ninguém repara nelas. Não nas grandes revoadas que recortam o entardecer, mas nas que ficam. Nas que ocupam as frestas dos muros, os vãos dos telhados e os intervalos do concreto. Na rua Inácio Tomé, se vê que andorinha não é mais pássaro de árvores, mas de engenharia. Há décadas os espaços naturais vêm sendo substituídos por superfícies lisas e verticais. Muros altos. Muros que protegem. Muros que delimitam. Muros que separam. A cidade cresce entre morros e, para se firmar, levanta barreiras. Contra a chuva. Contra o vizinho. Contra o medo. Contra o outro.

O que quase ninguém observa é que, enquanto os muros sobem, as andorinhas descem.

Elas não desapareceram. Elas recalcularam. Se antes havia galhos, hoje há quinas. Se antes havia ocos, hoje há tubos de drenagem. Se antes o abrigo vinha da paisagem, agora vem da falha na construção. A andorinha tornou-se especialista em brecha.

É uma adaptação silenciosa, mas profundamente política. Os muros não são apenas estruturas físicas. São também arquiteturas sociais. Caratinga, como tantas cidades médias brasileiras, aprendeu a se dividir em perímetros invisíveis. Bairros que se conhecem pouco. Casas que se fecham cedo. Portões automáticos que substituem conversas de calçada. A urbanização trouxe conforto e trouxe distância. E, no entanto, nas frestas desses mesmos muros, há vida.

As andorinhas persistem onde não foram convidadas e encontram um centímetro entre telha e parede para ali recomeçarem. Transformam rachadura em berçário, convertendo o que foi erguido para isolar em abrigo improvisado. Admito essa inteligência que nos escapa. Admito, porque enquanto discutimos pertencimento como posse, elas praticam pertencimento como adaptação. Enquanto erguemos barreiras para conter fluxos de água, de pessoas, de diferenças, elas usam essas mesmas barreiras como ponto de apoio para continuar voando.

O fato é que a cidade que se fecha, produz, involuntariamente, pequenas aberturas. Nenhum muro é absoluto. Sempre há uma fissura. Sempre há um vão. E é ali que a andorinha entra. Talvez o que poucos percebem é que a presença delas é um diagnóstico urbano. Elas indicam onde ainda há possibilidade de vida. Onde o concreto não foi completamente hermético. Onde a cidade, apesar de endurecida, ainda respira.

Não se trata de romantizar a perda de espaços verdes nos centros urbanos. Trata-se de reconhecer que, mesmo quando o espaço natural é comprimido pelos muros físicos e sociais, a vida encontra um jeito de continuar sobrevivendo.

Em Caratinga, as andorinhas não voltam ao passado. Elas habitam o intervalo. E, talvez, devêssemos aprender com isso. Porque uma cidade não se mede pela altura de seus concretos, mas pelas possibilidades que permitem a vida acontecer. As andorinhas sabem: sobreviver não é derrubar todas as barreiras. Às vezes, é saber atravessá-las pelo ponto que ninguém viu.

Enquanto continuarmos erguendo muros contra o clima, contra o outro, contra o imprevisto, elas continuarão fazendo ninho nas falhas dos nossos projetos.

Pequenas. Azuis. Persistentes.

Lembrando que nenhuma construção é totalmente fechada quando ainda existe frestas suficientes para o retorno.

Phablo Vieira

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