O Brasil acorda todos os dias, mas há um que já estava desperto muito antes do despertador tocar. Em 2026, enquanto a cidade corre atrás de boletos, eleições, algoritmos e manchetes apressadas, existe um outro tempo pulsando debaixo do asfalto. Um tempo que não cabe em calendário eleitoral nem em sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal.
Chamam de “marco temporal” como se o tempo tivesse dono. Como se a história pudesse ser carimbada, protocolada, validada em cartório. Como se 5 de outubro de 88 fosse o início do mundo e não apenas o dia em que o Brasil decidiu escrever no papel aquilo que os povos originários sempre souberam na pele. Mas o papel aceita tudo. A terra, não. A terra responde com rio turvo quando o garimpo avança. Responde com silêncio quando a mata é derrubada. Responde com fome quando o território é invadido. E, ainda assim, resiste.
Resiste nas mulheres que atravessam o país para falar em auditórios que antes não as ouviam. Resiste nos jovens indígenas que aprendem a linguagem dos códigos digitais sem abandonar a língua dos avós. Resiste na pintura corporal que não é fantasia de 19 de abril, mas identidade cotidiana. Há quem diga que a pauta indígena é “complexa”. Talvez seja. Complexo é um país que se orgulha de ser celeiro do mundo, mas hesita em reconhecer quem primeiro cultivou o chão. Complexo é chamar de progresso aquilo que exige expulsão. Complexo é discutir floresta apenas quando o calor se torna insuportável nas capitais.
Em 2026, o debate continua nos tribunais, no Congresso, nas aldeias, nas universidades. Mas talvez a pergunta mais simples seja a mais difícil: quem tem medo de reconhecer que o Brasil não começou com a gente? A verdade é que o país que acorda às seis da manhã para pegar ônibus divide espaço com um Brasil que acorda com o canto dos pássaros. E os dois respiram o mesmo ar quando ele ainda está limpo.
Não se trata de romantizar. Há dor, há conflito, há violência. Mas há também uma lição silenciosa: a de que território não é mercadoria; é memória. E memória não se negocia sem que algo essencial se perca. Talvez 2026 seja apenas mais um ano de disputas legais. Ou talvez seja mais um capítulo da longa história de um país que ainda aprende a se enxergar inteiro. Enquanto isso, há um Brasil que segue de pé. Pintado de urucum. Armado de palavras. E lembrando, todos os dias, que antes de existir a República, antes da Constituição, antes do próprio nome “Brasil”, já havia gente aqui e ainda há.










