CARATINGA– O cantor, compositor e violeiro mineiro Rubinho do Vale está em Caratinga levando música, cultura e educação para estudantes e professores da rede de ensino. O artista participa do projeto “Trem da História”, que prevê apresentações voltadas ao público escolar na região Leste e Zona da Mata de Minas Gerais.
O projeto teve início por Caratinga na segunda-feira (9) e segue nesta terça-feira (10) com cantoria para crianças e professores. Em seguida, o projeto segue para Bom Jesus do Galho, onde Rubinho se apresenta nos dias 11 e 12 de março, também em encontros culturais com estudantes e educadores.
O projeto é uma parceria entre o artista e o Instituto Sociocultural Valemais, responsável pela realização, com recursos viabilizados por meio do Plano Plurianual de Ação Governamental (PPAG) e patrocínio do Governo de Minas Gerais, além do apoio das prefeituras de Caratinga e Bom Jesus do Galho.
Durante a passagem pela cidade, Rubinho do Vale concedeu entrevista à jornalista Nohemy Peixoto, do Diário de Caratinga, e falou sobre sua trajetória artística, a valorização da cultura popular e a importância da música na educação.
Das mazelas à riqueza cultural do Vale
Natural do Vale do Jequitinhonha, o artista relembra que, no início da carreira, a região era conhecida principalmente pelas dificuldades sociais. “Quando eu comecei, no final dos anos 70, a gente só ouvia falar do Jequitinhonha e das suas mazelas, da região mais pobre de Minas e uma das mais pobres do Brasil. Raramente se falava da cultura rica da região”, recorda.
Com o passar do tempo e o surgimento de movimentos culturais, festivais e novos artistas, a visão sobre o Vale começou a mudar. “Com o surgimento de vários artistas e encontros de cultura, o Vale foi mudando essa visão. Passou a ser visto como um vale da cultura, um vale rico”, afirma.
Rubinho conta que os primeiros passos na música aconteceram em festivais. Um deles foi em Manhuaçu, ainda quando estudava em Ouro Preto. “Comecei a tocar violão, a compor e participei de muitos festivais. Ganhei alguns e continuei a estrada”, lembra.
A música como expressão da própria vida
Para o artista, cantar a cultura popular é uma forma de contar a própria história. “Eu não sei se sou um guardião da cultura popular, mas sou uma pessoa que ama essa cultura. Me sinto parte dela e adoro cantá-la, como se estivesse cantando a minha própria vida”.
Entre as músicas que mais representam sua trajetória está “Trem da História”, canção premiada em 1988 no Festival de Música de Avaré (SP). “A música fala de uma viagem por Minas, de trem, parando em cada estação para chamar o povo para cantar. Esse trem leva viola, tambores, flautas. É um convite para seguir a história com a canção brasileira para que nossa memória não se acabe em poeira”, explica.
Embora conviva com a viola desde a infância no meio rural, Rubinho afirma que seu instrumento principal é o violão. “Eu convivo com a viola desde sempre, no meio rural onde nasci. Brincava com a viola, com a sanfona do meu pai, mas meu instrumento principal é o violão”, conta.
Música e educação
Outro destaque da carreira do artista é o trabalho voltado às escolas. O primeiro disco infantil foi lançado em 1989, inspirado na própria filha. “Eu queria lembrar as cantigas da minha infância, as cantigas de roda. Fiz um disco para cantar para minha filha e para os filhos dos amigos”, relata.
Com o tempo, professores passaram a utilizar as músicas em atividades pedagógicas. “Os professores começaram a descobrir o disco, escrever cartas e trabalhar as músicas nas escolas. Foi um caminho que surgiu naturalmente”.
Hoje, Rubinho possui oito discos voltados ao público infantil, sendo cinco individuais e três em parceria com a cantora e violinista Cláudia Duarte. “Eu acabei virando um artista que eu brinco que é amigo das crianças”, diz.
Cultura popular precisa de mais valorização
Durante a entrevista, o artista também refletiu sobre a valorização da cultura popular no Brasil. “Minas Gerais tem uma riqueza cultural enorme, mas muitas vezes não é divulgada nem valorizada. Às vezes uma cidade pequena paga cachês enormes para artistas de fora e o artista local não tem nem um tênis para calçar no dia da festa”, lamenta.
Apesar das dificuldades, ele acredita na força da tradição. “A cultura popular é muito forte, ela é resistente, é genuína. É algo que vem da alma do povo”.
Primeira vez em Caratinga
A passagem por Caratinga marca a primeira apresentação do artista na cidade, dentro do projeto “Trem da História”. “Nunca tinha cantado aqui na região. Está sendo uma honra cantar para as crianças e para os professores de Caratinga”, afirmou.
Rubinho também destacou a oportunidade de conhecer mais a cultura local. “Eu venho muito mais para aprender e conhecer a cultura da Zona da Mata, do Vale do Rio Doce, de Caratinga, conhecer os artistas da cidade”.
Seguir cantando Minas e o Brasil
Aos 70 anos, Rubinho do Vale afirma que deseja continuar levando adiante sua missão artística. “Quero continuar cantando as coisas da minha terra, cantar Minas, cantar o Brasil e incentivar as pessoas a registrar sua arte”.
Para ele, a música e a cultura popular seguem sendo instrumentos de memória e identidade. “A vida é a obra de arte mais linda desse universo que Deus criou”.
Um encontro marcado pelo nome
Ao final da entrevista, Rubinho do Vale compartilhou uma curiosidade ao comentar o nome da jornalista Nohemy Peixoto, lembrando de uma importante artista popular do Vale do Jequitinhonha. “Adoro o seu nome, Nohemy. Quando vi, lembrei de uma artista popular do Vale do Jequitinhonha chamada Noemisa. Já fui na casa dela várias vezes, no meio rural. Ela partiu há alguns anos, mas tem uma obra muito reconhecida entre colecionadores de arte popular”, contou.
Segundo o artista, o artesanato e a arte popular do Vale possuem grande reconhecimento inclusive fora do Brasil. “Às vezes essa arte é mais reconhecida por colecionadores do Rio, de São Paulo e até de fora do país do que na própria capital de Minas”.






