Entrelinhas da alma: Lara Spalla escreve para voltar a si mesma

Poetisa, cronista e investigadora, a autora transforma memória, cotidiano e cidades em matéria literária

 

DA REDAÇÃO – Às vezes, antes mesmo de a conversa nascer, o café ainda nem chegou — e, ainda assim, as histórias já pousaram sobre a mesa. É nesse intervalo delicado, entre o silêncio e o primeiro gole, que a literatura de Lara Spalla costuma acontecer. Do instante mínimo, da respiração suspensa, brotou também o título de seu livro “Enquanto o Café não Chega”, obra em que a autora condensa lembranças, paisagens e pequenas cenas da vida em um amálgama de crônicas que tocam suavemente o coração do leitor.

Publicado pela Literíssima Editora, o livro reúne textos que revelam o olhar minucioso de quem enxerga poesia no que passa despercebido. Educadores e leitores têm se encantado com a sensibilidade que atravessa cada página — sensibilidade que, antes de ser escrita, é vivida.

A professora e advogada Dora Bomfim Pereira do Vale afirma que Lara “captura a essência das crônicas atuais de uma vida bem vivida”, lembrando que a leitura permanece como ato de cultura, não de utopia.

A professora Maria Piedade Silva Bueno, por sua vez, recorda a jovem estudante que observava o mundo com a mesma doçura que hoje floresce em suas palavras — como na crônica “Sobre cantos e flores”, onde a autora encontra abrigo no ipê-rosa e no canto dos pássaros, transformando natureza em afeto.

Para a professora de língua portuguesa Beatriz Gomes Batista Alves de Souza, a obra é um tecido contínuo de experiência e narrativa. “Do ipê-rosa ao Bigodinho e à calçada do sapateiro, emerge a voz livre de quem saboreia os goles da vida”, escreveu — como quem descreve não apenas uma escritora, mas uma alma que recolhe belezas.

 

AS CIDADES E AS MEMÓRIAS

 

Mas antes do livro, havia as cidades — e a mistura de memórias que nelas permaneceu como perfume antigo.

“Vez ou outra, é preciso voltar a certas cidades para fazer uma visita a si mesmo.” O verso de Lara Spalla ecoa como uma chave secreta, abrindo portas que levam à geografia íntima de sua própria história.

Nascida em Vitória/ES, criada em Bom Jesus do Galho e amadurecida em Caratinga, foi nesta última que fincou raízes — raízes que ainda vibram, linha após linha, palavra após palavra.

Em crônicas como “Achados e Perdidos”, Lara revisita lugares e pessoas como quem recolhe pedrinhas luminosas pelo caminho. Sua escrita se movimenta em ondas: do íntimo ao universal, da lembrança à revelação, da saudade ao reencontro. Há, em suas páginas, uma espécie de retorno às cidades, às pessoas, a si mesma.

Esse fluxo — sensível, investigativo, quase ritual — atravessa tanto a poeta quanto a cronista. E talvez também dialoga com a investigadora que ela é na Polícia Civil de Minas Gerais: alguém que, seja na literatura ou na vida, olha fundo, procura vestígios, conecta fios.

Formada em Direito, leitora desde a adolescência — quando uma professora lhe estendeu a mão em forma de livro —, Lara Spalla constrói sua trajetória entre pausas, recomeços e permanências. Há nela algo de quem sempre retorna ao essencial: à palavra, à memória, ao café que insiste em chegar devagar.

 

A ENTREVISTA

 

 

Nesta entrevista, ela fala sobre memória, escrita, transformação e o olhar atento que decompõe o cotidiano em literatura.

 

Você nasceu em Vitória/ES, mas foi em Caratinga que suas raízes afetivas e literárias se firmaram. Que lembranças dessa cidade ainda escrevem dentro de você hoje?

 

A natureza, suas paisagens e personagens estão sempre presentes em minhas escritas. São lembranças que trago para dentro de minhas crônicas e poemas. São personagens reais ou fictícios, criados a partir de pessoas que passaram por minha vida.

 

Seu encontro mais profundo com a literatura veio ainda na adolescência, a partir do incentivo de uma professora. O que, naquele momento, despertou em você o desejo de escrever?

 

Meu primeiro encontro com a literatura veio nas aulas de literatura com a professora Beatriz, no antigo CNEC. Apaixonei-me pela matéria e comecei a ler muito. A partir daí vieram meus poemas. Eram um tanto infantis no começo, mas, com o passar dos anos, fui me aperfeiçoando.

Porém, na infância, em Bom Jesus do Galho, eu já criava peças teatrais para brincar com minhas amigas. Já tinha uma veia artística.

 

Seus primeiros textos foram poemas. O que havia em você que só a poesia conseguia alcançar naquele tempo?

 

Eu fui uma criança tímida e levei isso até parte da adolescência. Os poemas eram meu refúgio. Eu os usava para viver dizeres que eu não tinha coragem de expor, além do fato de sempre ter sido romântica. Então, foi a forma que encontrei de viver esse meu outro lado.

 

Em algum momento, influenciada por Clarice Lispector, sua escrita se aproxima da crônica. O que mudou: a forma de olhar o mundo ou a forma de se olhar dentro dele? E que autores seguem te acompanhando nesse caminho?

 

Passei mais de uma década sem escrever. A Lara cronista surgiu quando eu já era adulta, mãe, profissional do Direito, mais segura — digamos, menos romântica rs.

Uma Lara mais observadora do mundo, do cotidiano, matéria-prima dos cronistas.

Então, posso dizer que o que mudou foi a forma como passei a me olhar por dentro e, consequentemente, o meu olhar sobre o mundo.

Além de Clarice, minha cronista preferida, destaco Machado de Assis, Lima Barreto e, entre os mais atuais, Conceição Evaristo e Aline Bei — embora esta não seja cronista, é minha escritora preferida atualmente.

 

O ato de escrever, para você, nasce mais como refúgio, resistência ou necessidade — ou é um pouco de tudo isso ao mesmo tempo?

 

Quando estou inspirada, é um ato de necessidade. É como se eu não tivesse domínio de mim. As palavras surgem, e não tenho controle nas mãos. É também meu refúgio, onde, na escrita, coloco todo o meu íntimo.

 

Na sua atuação como investigadora da Polícia Civil, você lida com fatos, evidências, verdades possíveis. Na poesia, a alma humana também se torna um campo de investigação?

 

Costumo dizer que sou várias Laras: a poetisa, a cronista e a policial. E cada uma tem seu espaço. Mas, sim, a crônica e a poesia são campos de investigação, onde busco evidências para compor meus textos.

Não há como deixar de investigar a alma do que se observa, no caso da crônica, tampouco o que está escondido dentro da alma poética.

 

Entre “O homem, o cachorro e a sacola”, um de seus primeiros poemas, e sua escrita mais recente, o que você reconhece como permanência — e o que percebe como transformação?

 

O último texto foi um poema, “Do Curral ao Palácio”, em que escrevo sobre a cidade de Belo Horizonte. Escrevo sobre sentimentos, a transformação de uma cidade e também sobre lendas.

Coincidentemente, também cito uma lenda na crônica “O homem, o cachorro e a sacola”, mas são olhares diferentes: nesta, há um tom cômico; naquele, um tom nostálgico.

Quanto à transformação, é interna. Acredito que minha escrita amadureceu.

 

Desde “Enquanto o Café não Chega” e esse novo livro que começa a ganhar forma, o que mudou em você como autora? A inspiração ainda vem do mesmo lugar ou encontrou novos caminhos?

 

Encontrei novos caminhos, mas sem deixar minhas raízes. Acho que o que não muda é isso. Mas mudei a forma como lido com a minha escrita: mais segura, mais madura e sem medo de trilhar a estrada literária.

 

Ferreira Gullar dizia que a arte inventa a vida. No seu caso, o que a poesia inventa quando tudo parece já ter sido vivido?

 

Enxergo poesia em tudo. E, assim como a vida, ela não é estática. Haverá pôr do sol todos os dias, mas cada um será diferente do outro por causa do olhar de quem o contempla.

Não há forma definida e definitiva. Sempre existirá uma nova criação sob um olhar novo.

 

Sua escrita parece habitar o detalhe, o quase invisível do cotidiano. Esse olhar é algo que você cultiva ou é uma forma inevitável de estar no mundo?

 

É algo que grita dentro de mim. Não tenho como controlar meu olhar sobre o cotidiano e escrevê-lo. Esse olhar cronista habita em mim o tempo todo. A vida é matéria-prima para o cronista.

Às vezes, pego a caneta e o transcrevo no papel; outras vezes, deixo-o escapar de minhas palavras. Mas, observando o cotidiano ou escrevendo, é uma forma inevitável de estar no mundo.

 

Para quem te lê hoje, que você se revela: aquela que descobriu a poesia ainda jovem, a cronista atravessada por grandes influências ou alguém em permanente reinvenção?

 

Como disse, a vida não é estática e, por isso, estou sempre me reinventando. Um exemplo disso é que meu próximo livro, que será de poemas, é uma coletânea de uma vida inteira de escrita.

Alguns poemas não publicarei, pois já não se parecem mais com quem sou hoje, com o que escrevo. Porém, outros publicarei, justamente para que o leitor tenha a experiência de perceber minha transformação ao longo dos anos — da adolescência à vida adulta —, não apenas na forma de escrever, mas também no modo de enxergar o mundo.

 

BOX

Onde comprar o livro

“Enquanto o Café não Chega” está disponível para aquisição de duas formas:

-Amazon – com entrega para todo o Brasil.

-Diretamente com a autora, pelo Instagram: @entrelinhas1974 https://www.instagram.com/entrelinhas1974/

Publicado pela Literíssima Editora, o livro reúne textos que revelam o olhar minucioso de quem enxerga poesia no que passa despercebido
Em suas crônicas, Lara revisita lugares e pessoas como quem recolhe pedrinhas luminosas pelo caminho (foto: arquivo pessoal)

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