Do plantão às páginas de um livro: Enfermeira transforma vivências em inspiração

 

DA REDAÇÃO- Entre plantões, perdas, renascimentos e incontáveis histórias de cuidado, a técnica de enfermagem Rosilene Geralda de Oliveira transformou sua própria trajetória em um testemunho emocionante sobre empatia, propósito e humanidade.

Natural de Caratinga, Rosilene, que hoje reside e trabalha em Vespasiano, reúne no livro “Enfermagem com a alma – Reinventando o cuidado com propósito” relatos reais vividos ao longo de décadas dedicadas à saúde, mostrando que a enfermagem vai muito além da técnica: é presença, acolhimento e amor ao próximo.

Inspirada pela irmã, enfrentando desafios pessoais e profissionais, ela compartilha experiências marcantes que revelam o lado humano de quem cuida diariamente da vida e da dor do outro. Nesta entrevista, Rosilene fala sobre vocação, fé, superação e o verdadeiro significado de cuidar com a alma. O livro estará disponível em breve.

 

O que te motivou a escrever Enfermagem com a Alma, neste momento da sua vida?

Quando comecei a escrever o meu livro, isso desde 1992, tinha a ideia de que me aposentaria com 25 anos de profissão e 30 anos de idade, e queria registrar todos os meus momentos da carreira. O título do meu livro seria “Depois dos 30 Anos”. Porém, fazemos planos, mas Deus tem outros. Não foi como esperei. Vieram muitas situações nesse período e, como relato no meu livro, quando se está do outro lado, em um leito de hospital, ou quando um dos seus entes queridos está dependente de cuidados em um momento de fragilidade, isso me inspirou a mudar o nome do meu livro para “Enfermagem com a Alma”.

 

Sua trajetória na enfermagem começou ainda na infância, com a influência da sua irmã. Em que momento você percebeu que aquilo era mais que admiração e se tornaria missão?

Quando eu levava a marmita dela no hospital, sempre me imaginava vestida com aquele uniforme branco, alvo, como um anjo. Percebia a forma do cuidado dela, a alegria, o carinho, a presteza. Isso me fez desejar seguir seus passos e me preparar para isso. O hospital em que ela trabalhava ainda existe na cidade: o Hospital Nossa Senhora Auxiliadora, em Caratinga. Era administrado pelas Irmãs de Caridade. A maioria dos pacientes atendidos era de origem simples, moradores da roça, mas que ela adorava cuidar. Ela não tinha curso. Naquela época, era feito apenas um teste de aptidão. As irmãs faziam recrutamento e treinamento, e você passava a ser atendente de enfermagem. Ela, com seu jeito simples e calmo, conseguia realizar de forma eficaz suas tarefas. O sorriso vindo dos pacientes em forma de gratidão e os presentes inusitados que ganhava — uma vez ganhou uma cadelinha, que eu prontamente adotei (risos) — despertaram em mim um sentimento muito forte.

Quando me formei no magistério, em 1985, comecei a exercer a função de professora em 1986. Foi apenas um ano, mas fiz da melhor forma possível, com carinho e dedicação. Porém, sentia que queria e precisava de algo a mais.

Em 1987, comecei a trabalhar na Casa de Saúde Divino Espírito Santo, onde permaneci por três meses. Após esse período, comecei a trabalhar em uma clínica de cirurgia plástica, onde permaneci por alguns anos.

 

Você já pensou em desistir da profissão? O que te fez continuar?

Desistir? Não! Mas, diante das adversidades e da realidade de cada instituição, pensei no que eu poderia mudar dentro da minha conduta para melhorar o meu atendimento, oferecendo conforto, agilidade, atenção e carinho.

Muitas colegas desistiram no meio do caminho. As dificuldades, a rotina pesada de plantões e o desgaste físico e emocional fizeram muitas profissionais que atuavam com excelência seguirem outros caminhos, cuidarem de outra forma. Mas nunca me vi fazendo outra coisa, a não ser cuidar na enfermagem.

 

O que significa, na prática, “cuidar com a alma”?

Cuidar com a alma, para mim, seja em qualquer profissão, é humanizar o seu cuidado, seja onde você estiver atuando. É trazer segurança e confiança para quem Deus coloca em seu caminho, seja com um olhar, um toque de mão ou mesmo no silêncio, onde as palavras, às vezes, não cabem.

 

Qual a experiência mais marcante da sua carreira e que te transformou como profissional?

Quando me tornei mãe pela primeira vez. O nascimento traumático do meu primeiro filho me levou ao leito de hospital, fazendo-me sentir na pele o que mães sentiam ao passar por situação parecida. Isso me fez sentir impotente e dependente do cuidado, carinho e compreensão de quem cuida.

Sozinha, sem meu filho, que havia sido transferido para outro hospital devido à gravidade do seu caso, não pude acompanhá-lo, pois havia feito cesariana. Fiquei retida na maternidade e sozinha. Via as mães com seus filhos no colo, com familiares felizes pela chegada do novo membro da família.

Percebi que, muitas vezes, durante os plantões, não enxergamos as lágrimas de tristeza e solidão dos pacientes. Com a rotina de cuidar de um paciente e outro, entre vários procedimentos e administração de medicações, isso acaba passando despercebido.

 

Em seu livro, você relata a história da paciente que pediu um cigarro antes de morrer. Isso é muito forte. O que aquele momento te ensinou sobre humanidade no cuidado?

A cada um é dada uma missão, eu creio nisso. Mas cabe a você cumpri-la ou não. Naquele momento, além de ela estar sozinha, pois não era horário de visitas, o seu momento de partida estava chegando. Havia algo diferente nela.

Eu poderia apenas ter feito as aferições, anotado na papeleta e dito simplesmente “não”. Fumar no leito era algo inconcebível, mas tive compaixão dela.

Existem duas maneiras de você realizar a técnica do cuidado: ou apenas cumpre o protocolo engessado, ou cumpre de forma humanizada. Esse sempre foi o meu olhar.

 

Você já esteve do outro lado, como paciente e familiar. Como isso mudou sua forma de enxergar a enfermagem?

Quando você ou um dos seus necessita de cuidados em um ambiente hospitalar, mesmo sendo da área da saúde, não tem como intervir na realização de procedimentos. Por mais que saiba e queira, cabe a você confiar e esperar o melhor cuidado da equipe.

Nem sempre se recebe o esperado. Eu ouvia: “leito tal”, “quarto número tal”, nunca o nome. Não existe toque, olhar, palavra, apenas técnica. Vivi isso quando meu marido operou.

Mas também existem excelentes profissionais, que te acolhem e te olham com empatia. Temos sempre que lembrar que ali, naquele leito, existe alguém importante para alguém.

 

No livro, você também aborda o “desgaste invisível” da profissão. Por que esse tema ainda é tão pouco discutido?

A enfermagem é algo sublime. As pessoas nos olham como se fôssemos uma fortaleza. Muitas vezes, profissionais saem para os plantões deixando em casa familiares, em datas festivas ou até doentes.

Quantas longas noites entre um plantão e outro o profissional reprimiu sua dor e sua preocupação, mas permaneceu firme, correndo de um lado para o outro e atendendo da melhor forma seus pacientes.

Mas quem se importa? Desde que finalize seu plantão, sua dor invisível não é percebida. E, quando chega em casa após um plantão exaustivo, ainda enfrenta o desafio da rotina doméstica. Sua mente não para.

As dores físicas e emocionais parecem não caber para o profissional da saúde. Os gestores precisam olhar com mais empatia e cuidado para os profissionais da enfermagem, porque parecemos, mas não somos máquinas humanas.

O que diferencia um profissional técnico de um profissional que realmente humaniza o cuidado?

A forma do cuidado, do olhar, de fazer a diferença na vida de alguém.

 

Pequenos gestos aparecem como algo central no seu livro. Qual atitude simples pode transformar o atendimento?

Um sorriso, um bom dia, uma escuta com paciência. Um exemplo: onde trabalho atualmente é uma casa voltada para o atendimento da saúde da mulher. Atendemos várias especialidades, dentre elas o pré-natal de alto risco. Normalmente, a obstetra coloca o nome dos bebês no prontuário. Quando vou abordá-las para a pré-consulta, pergunto pelo bebê falando o nome dele, se está mexendo, como está crescendo. Converso com eles na barriga.

Esses pequenos gestos, mesmo simples, percebo o quanto são importantes para a gestante. Aquele carinho na fala, no meu olhar e no olhar da minha equipe torna esse momento mais especial. E, quando retornam no pós-parto com os filhos nos braços, percebo que valeu a pena.

 

O que ainda falta para a enfermagem ser mais valorizada hoje?

Falta reconhecimento verdadeiro. Na Covid, a enfermagem foi aplaudida pela coragem de enfrentar um vírus desconhecido e letal, mas isso passou.

Imagina se não houvesse a enfermagem? Falta valorização salarial, planos de carreira e há excesso de carga horária. Muitos precisam trabalhar em dois empregos para se manter. Mas muitos gestores fecham os olhos para isso.

Falta um olhar especial para essa classe de trabalhadores tão importante na vida das pessoas.

 

Que conselho você daria para quem está começando na profissão agora?

A enfermagem é mais do que um uniforme. Passado o primeiro momento, lembre-se sempre de que você não é melhor do que ninguém. Você se preparou para esse momento e tem uma missão especial de cuidar de alguém.

Mas você não será valorizado por isso o tempo todo. Talvez reconhecido por uns e não por outros, mas faça assim mesmo.

Haverá colegas que irão te criticar por tentar uma forma diferente de cuidar, mas faça assim mesmo. Cuide com profissionalismo, mas humanize isso. Olhe nos olhos do seu paciente, seja gentil e procure tornar o dia dele mais tranquilo.

Seja humilde para pedir ajuda e responsável, porque no final nunca será entre você e os homens, e sim entre você e Deus.

 

Quem é a Rosilene fora do hospital?

A Rosilene, ou Rosi, como sou chamada, é uma pessoa simples, que adora pescar, assistir ao time do coração. Sou muito caseira, adoro cozinhar no meu fogão a lenha, receber visitas, ir para a roça e fazer tudo de forma simples.

Na maioria das vezes, mesmo de folga, estou auxiliando alguém quando requisitada. Você não consegue separar o profissional do pessoal, mesmo que tente.

Uma frase da minha saudosa mãe dizia assim: “Melhor cuidar do que ser cuidado”. E assim vamos recebendo as bênçãos de Deus.

Além de ficar em casa e receber minha família, agora aguardo a chegada do primeiro neto. Vou à missa todos os domingos. Não poderia deixar de renovar a fé e agradecer Àquele que me sustenta no cumprimento da minha missão todos os dias: Deus.

 

Que legado você espera deixar com sua história e com este livro?

Deixo para reflexão: não me sinto melhor do que ninguém. E, diante das dificuldades encontradas, não tem como romantizar a enfermagem.

Vestir um jaleco branco não te faz um profissional, e sim suas atitudes no exercício da profissão. Durante esses longos anos, procurei dar o meu melhor, humanizando meu cuidado.

A forma como você vai atuar diz muito sobre você. Faça o melhor por seu paciente, respeite-o, seja luz em sua vida e, mesmo diante das dificuldades, não tenha vergonha ou medo de pedir ajuda quando se sentir inseguro.

A morte é a prova viva de que somos tão pequenos diante da vontade do Criador. Faça tudo com responsabilidade e carinho. Ofereça o seu melhor para quem Deus colocar em seu caminho.

Mais do que um profissional técnico, seja alguém que se importa verdadeiramente. Faça a diferença.

Livro fala sobre o cuidado com propósito
Rosilene no início de sua carreira (Foto: Arquivo Pessoal)

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