Durante nossa vida vivenciamos situações que nos apresentam pessoas que não apenas ocupam o mundo, mas o reorganizam. Não criam toda uma realidade a partir do nada, como Deus o faz, mas ordenam e organizam toda a realidade existente à nossa volta, devolvendo sentido àquilo que já existe. A experiência de ter um filho é isso, de forma que o nascimento e o cuidado para com um filho são acontecimentos que reorganizam toda a realidade. Assim foi, e é, a minha experiência diária com meu filho, Théo.
Théo (do grego Theós, Deus) já carrega, no próprio nome, um enorme peso simbólico. Não como identidade ontológica, mas como aquele que mostra a direção. Não como o próprio ser divino, mas como sinal que aponta para além de si, que aponta para o Criador, não apenas com sua vida, mas a própria grafia de seu nome já aponta para o Deus Supremo.
Nesse sentido, “Théo” (mais pela grafia do que pela criança em si) além de apontar para o Criador, também sempre me traz à memória o papel de um demiurgo, não no sentido vulgar ou herético do termo, mas em sua concepção filosófica. Platão, em seu diálogo “Timeu”, nos diz que o demiurgo não é o princípio supremo do ser, nem um deus rival ao Absoluto. Ele não cria o mundo a partir do nada, nem compete com o Bem. Sua função é ordenar, dar forma, harmonizar o caos segundo uma ordem superior que o precede e o transcende. O Demiurgo platônico contempla o Bem e, por não ser o Bem Supremo, pode apontar para Ele. Já no gnosticismo, a ideia de “Demiurgo” é deturpada: o Demiurgo torna-se um falso deus, ignorante ou hostil ao Deus verdadeiro, responsável por um mundo visto como erro ou prisão. Essa concepção rompe com a bondade da criação e com a própria possibilidade da Encarnação. Nesse texto, emprego o termo no sentido clássico: como mediador da ordem, um subordinado, e não como princípio absoluto.
De certa forma, isso não é algo específico de meu filho, pois a presença de uma criança opera esse tipo de mudança na vida de sua família. A criança, ao nascer, não funda a realidade, mas reorganiza a realidade de toda a sua família, trazendo propósito e sentido com a sua simples existência. A modernidade tentou nos convencer de que a vida é um acidente e de que não existe um real sentido para nossa existência como seres humanos. Porém, o nascimento de um filho desestabiliza essa narrativa. A criança impõe perguntas que vão muito além do simples modo mecânico de viver: por que proteger, por que educar, por que sacrificar? As respostas para essas perguntas são metafísicas, extrapolam a simples realidade, de forma que onde há um filho, a realidade exige fundamento.
Théo, assim como todo filho, ao existir, realiza uma obra silenciosa: desmonta o niilismo sem dizer uma única palavra, ou explicar um único conceito. Seu simples estar-no-mundo denuncia que a vida é um dom muito antes de ser um projeto. Assim como um demiurgo, ele reordena o nosso olhar, nos obriga a reconhecer que há algo que não se mede, não se compra, não se instrumentaliza. Um filho traz de volta o sentido do real e devolve à existência o seu fundamento ontológico por meio do sentido que ele não só traz, mas se torna.
Théo não fala de Deus por conceitos ou doutrinas; ele O anuncia por meio de sua existência e, como sua existência já não fosse o bastante, a própria grafia de seu nome já nos faz lembrar. Em seus três anos de vida, Théo já me ensinou a partir da experiência direta muito mais que a teoria teológica que até então eu já estudei. Ao olhar para ele, ao acompanhar seu desenvolvimento e crescimento, é inevitável não perceber que sua vida e existência apontam para uma fonte que não se esgota nele, mas da qual ele procede. Que, mesmo carregando esse nome, ele não é deus, mas revela claramente a existência, o agir e o cuidado do Deus Supremo.
Chamá-lo de Théo é, portanto, mais do que uma escolha de um nome bonito. É uma confissão: seu nome e sua existência funcionam como uma seta apontada para o alto, sempre me lembrando de nossa pequenez, ignorância e fragilidade diante do Pai Celestial. De forma que, mesmo sendo seu pai, aprendo com ele, todos os dias, como é ser um filho.
Théo também me ensinou que Deus continua agindo no mundo por meio de coisas simples e humildes, que nós nos acostumamos a enxergá-las como comuns, como o nascimento e a criação de um filho. Dessa forma, cuidar de um filho se tornou o meu maior aprendizado, pois, Théo, assim como todo filho, sem saber, traz sentido à existência, traz ordem ao caos e, através da sua vida, aponta para o Deus verdadeiro, Aquele que cria, sustenta e governa todas as coisas.
Hoje, ao vê-lo completar três anos de vida, compreendo com ainda mais clareza que o tempo não apenas passa: ele ensina. Théo cresce, e com ele cresce também em mim a consciência do que significa amar, cuidar e permanecer. Em apenas três anos, ele já me ensinou mais do que muitos livros, não por palavras, mas por presença; não por teorias, mas por existência. Aprendo com ele diariamente que ser pai é um exercício contínuo de humildade, atenção e entrega, e que amar um filho é aceitar ser transformado por esse amor. Amo ser seu pai. Amo aprender com ele. E, se hoje entendo um pouco mais sobre Deus, sobre o sentido da existência e sobre o valor da vida, é porque, há três anos, Théo chegou e, desde então, tem me ensinado a ver o mundo com mais verdade.
Parabéns para você, meu filho!
Eu te amo muito!
Nós te amamos muito!








