BASTA! O grito que precisa ser ouvido
Quando a sociedade precisará transformar indignação em proteção real para as mulheres
Depois da pandemia, muitas pessoas têm a sensação de que o mundo se tornou mais hostil. Em diferentes partes do planeta, assistimos a guerras, discursos de ódio e conflitos que, em alguns casos, parecem até ser celebrados. A convivência humana parece mais tensa, mais agressiva, como se a violência estivesse deixando de ser exceção para se tornar parte do cotidiano — deixando transparecer que, para alguns, o ódio virou cultura.
A mídia diariamente nos apresenta imagens de destruição, homicídios e tragédias. Informar é necessário, mas a repetição constante dessas cenas cria uma atmosfera pesada, como se o mal estivesse se tornando algo banal. Nesse ambiente de tensão social, outras formas de violência também crescem silenciosamente — muitas vezes dentro das próprias casas — revelando misoginia e a normalização do desprezo pela dignidade humana.
Entre elas está o feminicídio, a forma mais extrema da violência contra a mulher. Mesmo com avanços importantes na legislação brasileira, como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, os índices continuam preocupantes.
Pesquisas realizadas por instituições como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que esses crimes, na maioria das vezes, são precedidos por sinais claros: ameaças, controle obsessivo, perseguições, agressões físicas e a incapacidade de aceitar o fim de um relacionamento.
Mas há um elemento relativamente novo nesse cenário: a influência de certas ideologias que circulam com força na internet. Entre elas está o chamado Red Pill. O termo vem de uma metáfora popularizada pelo filme The Matrix, em que “tomar a pílula vermelha” significaria despertar para uma suposta verdade oculta.
Em alguns espaços virtuais, porém, essa ideia passou a ser usada para defender que os homens estariam sendo injustiçados pela sociedade moderna e que as mulheres teriam ultrapassado os limites do que seria o seu papel social. Em suas versões mais radicais, esses discursos afirmam que as mulheres existem apenas para satisfazer os homens e que sua autonomia — seja no trabalho, na vida social ou nas escolhas pessoais — seria responsável pelos conflitos entre os sexos.
Infelizmente, essas ideias deixam de ser apenas palavras quando começam a influenciar comportamentos. Em um caso recente de estupro coletivo que chocou o país, quatro jovens participaram da violência, e um deles usava uma camisa com a expressão “Red Pill”. Em outro momento, apareceu a frase “I don’t regret it” — “não me arrependo”.
Mais do que um detalhe, essas palavras revelam algo profundamente preocupante: a banalização da violência e a perda da consciência moral diante da dignidade humana.
Expressões como “I don’t regret it” aparecem em alguns ambientes da internet como forma de provocação ou desafio às normas sociais. Em certos grupos da chamada manosfera, frases desse tipo são usadas para demonstrar desprezo pelas consequências de atos violentos ou ofensivos.
Quando um agressor afirma que não sente arrependimento, o problema deixa de ser apenas um crime. Ele passa a revelar algo mais profundo: a erosão da empatia e da consciência moral.
A violência contra a mulher raramente surge de repente. Ela costuma ser construída lentamente, alimentada por uma cultura de desprezo, pela incapacidade de lidar com frustrações e por discursos que transformam a mulher em inimiga ou propriedade.
Quando uma sociedade começa a justificar a violência, o problema já não está apenas no criminoso — está também na cultura que o formou.
Leis são necessárias. Punições são indispensáveis. Mas nenhuma legislação, por si só, consegue substituir a formação de valores como respeito, responsabilidade e reconhecimento da dignidade do outro.
A violência não nasce apenas no momento do crime. Ela nasce antes: nas ideias que normalizam o desprezo, nas palavras que desumanizam e nos discursos que justificam o injustificável.
Diante dessa realidade, muitas mulheres levantam uma palavra simples, mas poderosa: basta.
Basta de agressões.
Basta de medo.
Basta de viver sob ameaça dentro do próprio lar.
O grande desafio, porém, é transformar essa palavra em ação concreta.
Para que o “basta” seja realmente eficaz, ele precisa se tornar compromisso coletivo. Isso significa fortalecer políticas públicas, ampliar a rede de proteção às vítimas, garantir a aplicação das leis e investir na educação para o respeito entre homens e mulheres.
Mas significa também algo ainda mais profundo: reconstruir valores humanos que reafirmem a dignidade da pessoa e a responsabilidade de cada indivíduo diante do outro.
Porque a violência contra a mulher não é apenas um problema jurídico ou policial. Ela é, antes de tudo, um sinal de que algo está errado na forma como aprendemos a conviver.
E, enquanto o grito de “basta” continuar sendo ignorado, a questão continuará não estando em pauta — quando, na verdade, deveria ser uma das maiores urgências da nossa sociedade.
PAZ E BEM!










