DA REDAÇÃO — Há uma década, o nome de Wanderson R. Monteiro passou a integrar, semanalmente, as páginas do DIÁRIO. Desde então, sua escrita — marcada pela interseção entre literatura, filosofia, teologia e reflexão social — constrói um diálogo constante com os leitores, propondo não apenas a leitura, mas o exercício do pensamento.
Nesta edição comemorativa, conversamos com um dos colunistas mais longevos do jornal.
Natural de São Sebastião do Anta, o autor acumula uma trajetória intelectual robusta. É doutor honoris causa em Literatura e em Jornalismo, bacharel em Teologia, pedagogo e psicanalista em formação. Ao longo dos anos, publicou dez livros, entre eles Cosmovisão em Crise: A Importância do Conhecimento Teológico e Filosófico Para o Líder Cristão na Pós-Modernidade, Crônicas de Uma Sociedade em Crise, Atormentai os Meus Filhos e a série Meditações de Um Lavrador, composta por sete volumes. Também é coautor de outras obras e revistas, além de ter sido reconhecido com quatro prêmios literários.
No campo acadêmico, Wanderson Monteiro integra importantes instituições: é acadêmico correspondente da FEBACLA, fundador da AHBLA e imortal da AINTE — credenciais que reforçam sua presença no cenário literário contemporâneo.
Mas, para além dos títulos e conquistas, sua escrita nasce de inquietações pessoais. Como ele próprio destaca na entrevista, seus textos são fruto de “questionamentos e observações” diante da realidade, com o propósito de “despertar consciências” e contribuir, ainda que por meio de reflexões simples, para a formação de um olhar mais crítico sobre o mundo.
Ao longo desta entrevista, o autor revisita sua trajetória no jornal, reflete sobre as transformações da sociedade na última década e analisa o papel da escrita em tempos de excesso de informação e escassez de reflexão — reafirmando a palavra como instrumento de consciência e permanência.
O senhor completa dez anos escrevendo semanalmente para o Diário de Caratinga, que completa 31 anos de fundação. O que significa, para o senhor, manter uma presença tão constante no jornal ao longo de uma década?
Hoje, para mim, significa a realização e a concretização de um projeto que só foi possível graças ao espaço e à confiança do Diário de Caratinga ao longo desses anos, de modo que tenho muito a agradecer ao jornal por todo o apoio e colaboração.
Tudo começou com o desejo de ter um texto publicado, mas, ainda no início, com a publicação dos primeiros artigos, esse desejo cedeu espaço a dois objetivos principais: o de levar o nome da cidade e o de, se possível, despertar consciências e promover alguma forma de reflexão por meio de cada texto.
O primeiro objetivo nasceu do contexto de que, no período em que comecei a ter os artigos publicados, o nome da cidade de São Sebastião do Anta aparecia frequentemente nos jornais associado a notícias negativas. Após a publicação do terceiro artigo, percebi que poderia contribuir para que o nome da cidade fosse citado por outros motivos, não mais relacionados à violência, denúncias ou situações semelhantes. A partir de então, passei a incluir o nome da cidade em minha biografia, para que, sempre que um artigo fosse publicado, ele também estivesse presente.
O segundo vem do desejo de contribuir de alguma forma, ainda que por meio de uma simples reflexão ou ideia, buscando despertar as pessoas para questões sobre as quais talvez ainda não tenham refletido, na esperança de que isso possa, ao longo do tempo, contribuir para a formação de uma consciência mais crítica.
Quando iniciou sua coluna, imaginava que ela alcançaria essa longevidade? Como foi o início dessa caminhada no jornalismo opinativo?
Para falar a verdade, não. Inicialmente, eu não imaginava que permaneceria tanto tempo escrevendo e mantendo essa constância de colaboração, com a coluna sendo publicada por tantos anos. Havia muito desejo e vontade de que isso acontecesse, mas eu não imaginava que se concretizaria dessa forma.
O início foi meio às cegas, pois eu não sabia exatamente o que fazer ou como fazer. Tudo começou com o incentivo de um professor da faculdade, Walber Souza, que, como colunista, incentivou toda a nossa turma em uma determinada situação. Depois disso, surgiu o desejo — até meio egoísta — de ter um artigo publicado em jornal, de ter uma opinião validada e reconhecida por um veículo de comunicação que estivesse fora do meu círculo de convivência.
Então, comecei a escrever alguns artigos, de forma esporádica, e a enviá-los para o Diário de Caratinga, até que, depois de algumas tentativas, consegui que um deles fosse aprovado para publicação.
Após o terceiro artigo publicado, o desejo inicial de apenas conseguir publicar deu lugar a um novo projeto.
Seu trabalho transita entre literatura, reflexão social, filosofia e teologia. Como essas diferentes áreas influenciam o conteúdo das suas crônicas semanais?
Meus artigos e crônicas semanais são, antes de tudo, o resultado de reflexões pessoais. São fruto de questionamentos e observações que faço ao analisar a sociedade e o mundo que nos cerca. Por nascerem dessas inquietações, eles emergem diretamente da confluência dessas diferentes áreas do conhecimento.
Busco compreender e analisar a sociedade — e responder às minhas próprias inquietações — por meio do estudo e do conhecimento absorvido dessas áreas, disciplinas nas quais procuro, por meio do estudo constante, alcançar maior entendimento, tanto sobre mim quanto sobre a sociedade em geral. E isso se reflete nas crônicas.
Ao longo desses dez anos, quais temas o senhor percebe que mais despertaram interesse ou repercussão entre os leitores?
Ao longo desses dez anos, percebi que a repercussão dos textos varia muito de acordo com a proximidade que o leitor tem com o tema abordado. Como escrevo sobre assuntos diversos — ainda que, para mim, todos estejam conectados em um plano mais amplo —, cada crônica acaba dialogando de maneira mais intensa com determinados públicos.
Quando, por exemplo, parto de um romance literário, a repercussão tende a ser maior entre leitores que têm afinidade com a literatura e conseguem perceber melhor as referências e nuances do texto. Já outros acompanham a reflexão de forma mais geral, sem necessariamente se deter nesses elementos específicos.
O mesmo ocorre quando abordo temas filosóficos, religiosos, políticos ou sociais: todos alcançam o leitor em algum nível, mas a intensidade da resposta varia conforme o repertório e o interesse de cada um.
De modo geral, pelo que pude perceber, temas relacionados à reflexão política costumam despertar mais interesse e gerar maior repercussão, pois, de uma forma ou de outra, acabam atingindo a todos, por se tratar de um assunto de interesse comum.
Vivemos um período de profundas transformações sociais, culturais e tecnológicas. Na sua avaliação, como a sociedade mudou desde que o senhor começou a escrever a coluna?
Ao longo da última década, a sociedade passou por transformações muito rápidas, muitas delas impulsionadas pelo avanço das tecnologias e das redes sociais, que alteraram profundamente a maneira como as pessoas se informam, se relacionam e constroem suas opiniões. Em muitos aspectos, vivemos uma época de muita informação, mas pouca reflexão.
Por um lado, houve um avanço importante no acesso à informação e um maior despertar para determinados temas sociais, culturais e até existenciais, o que contribuiu para a ampliação do debate público e para uma maior conscientização em diversos aspectos da vida em sociedade.
No entanto, esse mesmo processo também revelou limitações. Em alguns setores, as mudanças foram mais superficiais do que estruturais — a sociedade mudou mais em velocidade do que em profundidade —, e questões importantes avançaram de forma lenta ou quase imperceptível.
Além disso, é possível perceber movimentos de regressão, especialmente no campo das relações humanas e na forma como lidamos com o diálogo, muitas vezes marcado por polarizações e reações imediatas.
Durante esse período, também enfrentamos a pandemia de COVID-19, que impôs mudanças profundas a toda a sociedade.
Ainda assim, de maneira geral, acredito que houve, ao longo desses anos, um despertar significativo para a busca de conhecimento e compreensão da realidade, o que, no balanço final, indica mais avanços do que retrocessos.
O senhor é autor de diversos livros e também mantém produção constante no jornal. Qual a diferença entre escrever uma coluna semanal e produzir um livro?
De forma geral, os textos da coluna semanal funcionam como uma espécie de rascunho de pensamentos que, se aprofundados, poderiam se transformar em algo muito maior. Assim, a coluna se torna um espaço onde vou plantando sementes de ideias que, com o tempo, se conectam e dão origem a algo mais amplo. É um processo mais gradual, construído página por página.
Já na elaboração de um livro, o tempo e a atenção dedicados são maiores, e os temas são mais delimitados, com foco específico no conteúdo a ser desenvolvido. O livro exige mais concentração, aprofundamento e, normalmente, um período mais longo até sua conclusão — exigências que a coluna semanal não impõe.
Sua obra frequentemente aborda reflexões sobre fé, sociedade e comportamento humano. De que maneira essas questões dialogam com a realidade do leitor contemporâneo?
Acredito que essas questões dialogam com a realidade do leitor contemporâneo justamente porque não são temas distantes, mas fazem parte da experiência cotidiana. Fé, sociedade e comportamento humano, de uma forma ou de outra, afetam a vida de todos, mesmo que nem sempre sejam percebidos de maneira consciente.
Minhas reflexões costumam partir de inquietações pessoais diante daquilo que observo na sociedade, mas, ao serem transformadas em texto, acabam encontrando pontos de identificação com o leitor. Muitas vezes, tratam de questões já presentes na vida das pessoas, mas ainda não plenamente refletidas.
Vivemos um tempo marcado por transformações constantes e, ao mesmo tempo, por uma sensação de desorientação, seja no campo dos valores, da espiritualidade ou das relações humanas. Nesse contexto, refletir sobre esses temas se torna uma forma de compreender melhor a realidade, bem como o nosso lugar e nossas responsabilidades dentro dela.
Procuro escrever de modo que o leitor possa se reconhecer, em algum nível, no que está sendo dito. A intenção não é oferecer respostas prontas, mas provocar questionamentos que levem a uma compreensão mais consciente da própria vida e da sociedade.
O senhor também está em formação em psicanálise. Esse olhar sobre a mente e o comportamento humano tem influenciado sua forma de escrever e interpretar a sociedade?
Sim, sem dúvida. A formação em psicanálise tem influenciado diretamente minha forma de escrever e interpretar a sociedade, sobretudo por oferecer ferramentas para compreender aquilo que não é imediatamente visível: desejos, contradições e conflitos que operam no nível inconsciente.
Muitas das questões que abordo — como o comportamento nas redes sociais, vícios, repetição de padrões destrutivos ou reações aparentemente desproporcionais — passam a ser analisadas não apenas do ponto de vista social ou moral, mas também como manifestações de estruturas psíquicas mais profundas. Isso permite olhar para o indivíduo contemporâneo não apenas como alguém inserido em um contexto, mas como um sujeito atravessado por forças que muitas vezes ele próprio desconhece.
A psicanálise, especialmente a partir de autores como Sigmund Freud e Jacques Lacan, contribui para aprofundar temas já presentes em minhas reflexões, como a busca por reconhecimento, o vazio existencial, a autossabotagem e a necessidade constante de validação.
Além disso, tenho me dedicado à produção de textos que dialogam diretamente com esses temas psicanalíticos. Já possuo alguns artigos nessa linha, nos quais procuro explorar essas categorias e sua relação com a sociedade contemporânea. Esses textos ainda não foram publicados, mas pretendo encaminhá-los para publicação nos próximos meses, marcando um aprofundamento mais explícito dessa perspectiva em meu trabalho.
Assim, minha escrita passa a incorporar não apenas a observação da realidade, mas também uma tentativa de revelar o que está por trás dela. Mais do que descrever comportamentos, procuro compreender suas causas mais profundas, mostrando que muitos dos conflitos da sociedade atual são, em grande medida, reflexos de conflitos internos não elaborados.
Após dez anos de coluna, qual foi o momento mais marcante ou a crônica que mais o tocou pessoalmente escrever?
Ao longo dessa década, houve grandes acontecimentos, tanto em nossa região quanto no país e no mundo. Tivemos eleições municipais e nacionais, enfrentamos uma pandemia, acompanhamos a guerra na Ucrânia, além de inúmeros episódios de relevância nacional — muitos deles abordados em minhas crônicas.
Mas, de forma pessoal, o momento mais marcante foi a publicação do primeiro artigo no Diário de Caratinga. Foi a partir dele que todos os outros vieram. Publicado em 24 de fevereiro de 2016, esse texto marcou profundamente a minha trajetória.
Hoje, além do Diário de Caratinga, colaboro com outros jornais da região e de diferentes estados, além de ter livros publicados. Tudo isso só foi possível porque, há dez anos, este jornal me abriu as portas, transformando completamente a minha vida. Foi o ponto de partida de toda a minha trajetória, e tenho uma enorme dívida de gratidão com o jornal e com seu editor.
Deixo aqui meu sincero agradecimento ao Diário de Caratinga por essa parceria ao longo desses dez anos.
O que os leitores do Diário de Caratinga podem esperar de Wanderson Monteiro para os próximos anos: novos livros, novas reflexões ou novos projetos literários?
Sim, tudo isso. Minha intenção é continuar escrevendo e contribuindo semanalmente com reflexões, ao mesmo tempo em que trabalho para transformar em realidade projetos que venho desenvolvendo, especialmente na elaboração de novos livros e em iniciativas voltadas à literatura e à cultura.
Muitos desses projetos nasceram — e outros ainda nascerão — nas páginas do Diário de Caratinga. Por isso, os leitores podem esperar novas reflexões, novos temas e, com o tempo, novos livros.
Mais do que projetos isolados, trata-se de um caminho em construção — que continua sendo escrito, semana após semana, nas páginas do Diário de Caratinga.










