Documentário resgata memória da comunidade negra Córrego dos Crioulos em Bom Jesus do Galho

BOM JESUS DO GALHO – Um trabalho de pesquisa histórica, memória e identidade marcou a produção do documentário “Raízes e Resistência no Interior de Minas Gerais”, realizado pelo Instituto Criar Conhecimento e Cultura e disponível no YouTube. A obra busca investigar e contar a história da comunidade negra Córrego dos Crioulos, localizada na zona rural de Bom Jesus do Galho, região que, segundo relatos e depoimentos colhidos durante a pesquisa, pode ter abrigado um antigo quilombo.

O documentário tem direção de Reginaldo Eustáquio, presidente do Instituto Criar, e foi produzido com apoio da Secretaria Estadual de Cultura de Minas Gerais, por meio da Lei Aldir Blanc. A produção também contou com agradecimentos especiais à professora e artista Elisabete Paiva e aos alunos do Centro Municipal de Educação Maria da Penha Ivone Abrão, responsáveis por trabalhos de artes afro relacionados ao projeto.

A proposta do documentário é lançar luz sobre uma parte pouco registrada da história regional, valorizando a memória e a trajetória das populações negras que ajudaram a construir o interior de Minas Gerais.

 

A origem da ideia

Segundo o diretor Reginaldo Eustáquio, o interesse pelo tema surgiu ainda na infância. Afrodescendente, ele conta que sempre ouvia referências ao local conhecido como Córrego dos Crioulos, mas não encontrava explicações nos conteúdos escolares.

“Eu sempre ouvia o pessoal falar do Córrego dos Crioulos, mas na escola os professores de história nunca abordavam algo do gênero. O único relato bibliográfico que encontrei foi uma pequena citação em um livro do Fran Silva, que apenas menciona que a comunidade Córrego dos Crioulos foi uma das primeiras de Bom Jesus do Galho. Só isso, sem qualquer aprofundamento”, relata.

A partir dessa lacuna histórica, ele decidiu investigar o assunto. A pesquisa resultou na proposta apresentada pelo Instituto Criar ao edital estadual da Lei Aldir Blanc, intitulada “Cultura Negra: Raiz e Resistência no Interior de Minas Gerais”, que originou o documentário e também ações culturais relacionadas, como rodas de capoeira.

Reginaldo destaca ainda que obras existentes sobre a história local pouco mencionam a presença negra na formação da cidade.

“Existem dois livros importantes sobre a história de Bom Jesus do Galho, mas nenhum deles aborda de forma significativa as famílias negras que viveram ou vivem aqui. Um deles menciona apenas que um morador trouxe um casal de escravos. Isso mostra como essa memória ficou invisibilizada”, afirma.

Para ele, recuperar essa história é uma forma de oferecer identidade às gerações atuais. “A ideia é que o Museu Bonjesuense possa ter um espaço dedicado especificamente à história da população negra da cidade. Mostrar de onde vieram, por que estão aqui e dar identidade a esses descendentes.”

 

Fontes e relatos da pesquisa

Grande parte da reconstrução histórica apresentada no documentário foi baseada em relatos de moradores antigos da região e na observação de antigas fazendas existentes nas proximidades da comunidade.

“Existem várias fazendas antigas naquela região e alguns moradores relatam que havia escravos nesses locais. Há inclusive histórias de que alguns dormiam em áreas inferiores das casas para ajudar a aquecer os ambientes no inverno. Também existem relatos de abusos e maus-tratos praticados por antigos proprietários”, explica Reginaldo.

Apesar da ausência de documentos formais sobre muitos desses fatos, o diretor destaca que as entrevistas e as visitas aos locais históricos ajudam a preservar a memória oral da comunidade.

Indícios de um antigo quilombo

Durante as entrevistas, alguns elementos chamaram a atenção da equipe e reforçaram a hipótese de que a região possa ter sido um quilombo ou um território formado por descendentes de escravizados.

Reginaldo conta que muitos moradores antigos demonstravam resistência em falar sobre a origem das terras. “Quando perguntávamos como os avós tinham adquirido aquelas terras, muitas vezes eles não gostavam de comentar. Já pessoas que não pertenciam diretamente à comunidade falavam com mais abertura sobre o assunto”, relata.

 

Um dos depoimentos mais marcantes foi o de uma senhora de 90 anos, que chegou ao local ainda criança e relatou como eram as casas e a vida dos moradores. Segundo o pesquisador, há também a percepção de que muitos descendentes da comunidade migraram para bairros urbanos de Bom Jesus do Galho ou para cidades vizinhas. “Grande parte da população negra que hoje vive em bairros mais humildes da cidade tem origem naquela comunidade, que também é conhecida por alguns moradores como Córrego dos Quilombos.”

 

Descobertas que marcaram a pesquisa

Entre as descobertas da investigação, Reginaldo cita os relatos ligados a antigas fazendas da região. Algumas imagens desses locais foram cedidas por moradores e colaboradores do projeto, como Maria de Lourdes — conhecida como Lurdinha Dentista — e também por Cátia e Marconi, proprietários da empresa Fibron, responsáveis pela restauração de uma das propriedades.

Um dos relatos mais impactantes descreve práticas de violência contra escravizados em determinada fazenda da região. “São histórias que chocam. Quando visitei alguns desses locais, senti algo muito forte, semelhante ao que senti em Ouro Preto ao conhecer espaços ligados ao sofrimento de escravizados. Isso não mudou o rumo da pesquisa, mas reforçou a importância de aprofundar o tema”, afirma.

 

O diretor afirma ainda que pretende, futuramente, transformar o material coletado em um livro.

 

Depoimentos marcantes

Entre os relatos reunidos para o documentário, um dos que mais emocionaram a equipe foi o de Dona Fia, descendente direta da comunidade Córrego dos Crioulos.

Atualmente moradora do bairro Raul Soares, em Bom Jesus do, ela descreve as dificuldades enfrentadas pelas famílias desde a infância. “Ela conta que desde muito cedo as crianças já trabalhavam na roça. Com sete ou oito anos já estavam segurando uma enxada”, relata Reginaldo.

Outro ponto que chamou a atenção do pesquisador foi o fato de muitas famílias terem deixado as terras da comunidade. “Essas pessoas tinham terra, mas acabaram vendendo e vieram morar na cidade. Conversando com moradores antigos, percebi que havia certo preconceito contra os produtos vindos da comunidade. Isso pode ter contribuído para que muitos abandonassem o lugar.”

 

Mudanças na percepção da história local

 

A pesquisa também ajudou o diretor a compreender alguns aspectos sociais e políticos da região.

Segundo ele, muitos moradores desenvolveram vínculos fortes com determinados líderes políticos devido a pequenas ajudas recebidas ao longo do tempo.

“Às vezes uma pessoa vivia em condições muito difíceis e um político ajudava com um lote ou um emprego na prefeitura. Isso criava uma relação de gratidão muito forte, que acabava se refletindo no comportamento político dessas comunidades.”

 

Tradições e identidade cultural

Embora muitos descendentes da comunidade tenham migrado para outras regiões, memórias sobre a vida coletiva no Córrego dos Crioulos ainda permanecem vivas.

“Eles falam de uma espécie de vila, com várias casas próximas, e de um forte espírito de companheirismo entre os moradores”, conta Reginaldo.

Alguns relatos também lembram momentos em que grupos de homens da comunidade iam juntos à cidade de Bom Jesus do Galho nos fins de semana, vestidos de branco, reforçando laços sociais e culturais.

 

Desafios da produção

Convencer os moradores a participar das entrevistas foi um dos maiores desafios da produção. “São pessoas humildes, que cresceram com o peso do preconceito racial e muitas vezes com vergonha de sua própria história. Colocá-las diante de uma câmera para falar sobre isso foi difícil”, explica o diretor.

Ele destaca, porém, a importância da colaboração de moradores que aceitaram compartilhar suas memórias, especialmente Dona Fia e a mãe de Carmo.

 

Apoio da Lei Aldir Blanc

 

Reginaldo enfatiza que o apoio da Lei Aldir Blanc, por meio da Secretaria Estadual de Cultura, foi fundamental para a realização do projeto. “Fazer arte no interior é muito difícil. Esse apoio permitiu pagar custos de produção, ajudar o instituto e dedicar tempo ao projeto. Sou muito grato à Secretaria Estadual de Cultura por essa oportunidade.”

Ele também agradeceu o apoio da Secretaria Municipal, que contribui para a manutenção do Museu Bonjesuense, local onde parte do material coletado será preservada.

 

Reflexão sobre identidade e resistência

Para o diretor, o documentário pretende provocar uma reflexão sobre a história e a identidade das comunidades negras do interior mineiro.

“O público pode esperar uma reflexão sobre o que é ser negro no interior de Minas. O filme mostra pessoas que conquistaram suas terras com muito esforço e que carregam uma cultura forte e rica”, afirma.

Ele também espera que o material seja utilizado em escolas da região, fortalecendo o ensino da história afro-brasileira.

“A ideia é que o cidadão comum reflita sobre essa história e que as pessoas negras possam reconhecer que têm uma trajetória marcada por resistência e luta. É uma forma de valorizar aqueles que ajudaram a construir a história do interior de Minas.”

Os depoimentos de dona Maria A Silva e dona Fia fazem parte do documentário.
Os depoimentos de dona Maria A Silva e dona Fia fazem parte do documentário
Documentário pretende provocar uma reflexão sobre a história e a identidade das comunidades negras do interior mineiro (imagem: reprodução)
Reginaldo Eustáquio, idealizador e diretor do documentário (Foto: Arquivo)

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