Moradores da Ilha do Rio Doce apresentam demandas da comunidade

CARATINGA- Moradores da Ilha do Rio Doce, comunidade localizada às margens da BR-458, em área pertencente ao município de Caratinga, procuraram o DIÁRIO DE CARATINGA para denunciar apresentar as demandas dos cerca de 600 moradores e cobrar providências da Prefeitura. Embora a localidade esteja a cerca de 100 quilômetros da sede do município, fica a apenas cinco quilômetros de Ipatinga, o que, segundo os moradores, agrava o sentimento de isolamento.

Entre as principais reivindicações estão o acesso à água tratada, a construção de um posto de saúde, melhorias urgentes nas ruas, limpeza urbana e criação de espaços de lazer, especialmente para crianças.

A Ilha do Rio Doce foi afetada pela tragédia de Mariana ocorrida em 2015, o que impactou diretamente a vida dos moradores em relação ao consumo de água. Assim, Caratinga foi beneficiada com o Acordo do Rio Doce. Somente em 2025, Caratinga recebeu mais de R$ 36,6 milhões. Os moradores questionam investimentos para a comunidade, considerando esses recursos.

A moradora Karina Vieira relata que a situação da água é uma das mais críticas. “A principal reivindicação é um posto de saúde, água tratada, é o que a gente mais precisa. Caratinga dá um galão de água para cada morador por semana e acha que isso é o certo, e não é. Precisamos de água, precisamos de estrutura, de uma estrada boa. Quem foi realmente prejudicado pelo Rio Doce fomos nós, moradores da ilha do Rio Doce e Porto Seguro, porque o rio não passa dentro de Caratinga, passa só aqui”.

Ela ainda descreve os problemas estruturais das ruas. “As ruas aqui estão todas decadentes, estão mais altas do que as casas. Quando chove, tem que ficar puxando água de dentro de casa, porque a estrada está mais alta. É buraco demais, entulho, mato, tudo horrível. Estamos abandonados de todo jeito”.

A falta de áreas de lazer também preocupa. “Nenhuma área para uma criança correr, jogar uma bola. As crianças ficam nas estradas, porque não temos área de diversão para ninguém aqui”, completa Karina.

O morador Antônio Aécio afirma que a comunidade espera projetos para infraestrutura. “A indignação do povo aqui é pelo descaso, o descaso é muito grande. As ruas estão cheias de buracos, carro não consegue passar. São muitas carretas por causa da extração de areia, tem dia que passam mais de 100 caminhões”.

Ele também critica a situação da saúde. “Na saúde é horrível. Se a pessoa tem hipertensão, só tem captopril. O médico manda tomar losartana e não tem. Para diabetes, não acha metformina. O descaso é muito grande, infelizmente”.

Já o morador Sérgio Adão relata que participou de reuniões em Caratinga para tratar da distribuição de água e de obras que seriam direcionadas para a comunidade. “Existe um projeto, até março, para colocar água nas casas, fazer infraestrutura e calçar a ilha. O março já chegou e ninguém fez nada, ninguém iniciou nada. O juiz determinou que até março isso tinha que ser resolvido, e até agora nada”.

Ele também lamenta a falta de espaços para projetos sociais. “Queríamos cercar o campo de futebol para tirar as crianças da rua, fazer um projeto com elas, mas ninguém ajudou. Não tem área de lazer, não tem nada. Para andar aqui, menos de 10 km por hora, é complicado”.

O morador José Roberto descreve a situação como “decepcionante”. “Não tem estrada, não tem saúde, o posto não funciona direito, não tem como funcionar. As calçadas estão cheias de mato, aranha e cobra entrando dentro de casa. É uma situação precária”.

Ele questiona a arrecadação de impostos na região e o grande número de empresas no local. “Talvez o prefeito não saiba quanto de imposto nós pagamos aqui, quantas empresas tem na ilha, no Porto Seguro, no Parque Rio Doce. A gente pede pelo menos atenção, limpar o bairro, arrumar os buracos que estão quebrando os carros da gente”.

Na área da assistência social, a moradora Renata Rodrigues, que também é conselheira, destaca dificuldades de acesso aos serviços do CRAS. “Moradores têm que pagar até 300 reais para ir a Caratinga fazer cadastro. Isso não é justo. É mil vezes melhor ter um CRAS volante aqui do que as pessoas ficarem pagando esse valor. O estado de vulnerabilidade social aqui é grande. A ilha sempre ficou abandonada. Com tanto imposto e tantas indústrias, os governantes precisam olhar com carinho, principalmente para a assistência social e a saúde”.

A reportagem procurou a Prefeitura de Caratinga, no entanto, até o fechamento desta edição, não houve resposta.

Vereador reconhece problemas e aponta projetos em andamento

Procurado pelo DIÁRIO DE CARATINGA, o vereador José Cordeiro reconheceu as dificuldades enfrentadas pela comunidade da Ilha do Rio Doce e afirmou que parte dos problemas é estrutural e histórica. Sobre a falta de medicamentos, ele ponderou que a situação não é exclusiva da localidade.

“Em relação aos medicamentos, de fato, vez por outra falta algum medicamento. Mas não falta só na Ilha. Quando falta medicamento na Ilha, falta também na própria Caratinga. O que tem na rede é distribuído para todas as unidades de saúde da rede”.

Em relação à infraestrutura viária, o parlamentar admitiu a precariedade das ruas. “As ruas estão bem buracadas. A infraestrutura é inegável. Eu passei nas ruas. Todas as ruas realmente estão esburacadas. Não tem como falar que tá bom. Tá muito ruim”.

Segundo ele, fatores naturais e o tráfego intenso de caminhões agravam a situação. “A Ilha do Rio Doce é um local propício à inundação. Quando chove, empossa muita água, e tem os caminhões pesados dos areais que passam ali o tempo todo. Eu entendo que deveria ser feita uma força-tarefa entre a prefeitura e as empresas que usam aquele solo”.

O vereador também citou problemas recorrentes, como poeira em períodos de seca. “Eles reclamam muito da poeira, e realmente dá muita poeira, porque as empresas não jogam água da forma que deveriam. É uma coisa que a ilha enfrenta há muitos anos e que o Poder Executivo precisa estar ali atuando”.

José Cordeiro frisou ainda que a Ilha do Rio Doce foi atingida pelos impactos do rompimento da barragem de Mariana e que há recursos específicos para intervenções na localidade.  “Existe um valor em dinheiro que foi destinado pela Renova, que agora está chegando ao governo do doutor Giovanni. Esse dinheiro não pode ser gasto de qualquer maneira. É preciso fazer projeto, aprovar, e a execução é acompanhada pelo Ministério Público e pelos órgãos de fiscalização”.

Ele afirmou que há expectativa de início de obras ainda este ano. “O dinheiro está em caixa, aplicado, e acredito que neste ano já aconteçam alguns inícios de obras ali na Ilha do Rio Doce, que é um local muito carente. Inclusive, tem projetada a construção de uma UBS com recurso da Samarco, além de outros projetos com recurso próprio do município”.

Sobre o abastecimento de água, o vereador foi enfático ao classificar a situação como grave.  “Quanto à água, eles estão corretos. A água lá é uma calamidade. Eles não têm água. A água da Ilha do Rio Doce não é apta para consumo por causa das contaminações”.

Ele reconheceu que, enquanto não há solução definitiva, a distribuição de galões é insuficiente. “A prefeitura tem se esforçado para entregar água mineral, mas é muito pouca água. Um galão por família é uma miséria, não dá para nada. O ideal seria um caminhão-pipa com água potável para encher caixas d’água regularmente”.

Por fim, José Cordeiro destacou que, embora o lazer seja importante, outras demandas são mais urgentes. “Primeiro é preciso atender as prioridades urgentíssimas: saneamento básico e saúde. Depois disso, aí sim se avança na questão do lazer, que é importante, mas não é prioridade em relação às outras necessidades”.

O vereador concluiu afirmando que, atualmente, a Ilha do Rio Doce representa um dos maiores desafios do município de Caratinga.

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