Here Comes The Sun

Era noite de dezembro e o calor se fazia presente na mesma intensidade em que as ideias pairavam em minha mente. As luzes do apartamento eram amarelas e baixas, na vitrolinha, Beatles. Lá estava eu, deitada no sofá contando cada teia de aranha presente no teto do meu apartamento tentando me lembrar quando foi a última vez em que faxinei a casa de fato, pois passara os últimos meses cansada e perdida em meus pensamentos, buscando um resquício que seja de esperança e boas novas para o ano que estava prestes a chegar pois, no último ano, havia usado toda minha força emocional e sanidade mental com os aprendizados e despedidas que me ocorreram.

‘Don’t Let Me Down’ era a trilha sonora de meus devaneios, a cada sílaba cantada por John Lennon durante o repetitivo refrão, soava como uma súplica para que no próximo ano eu tivesse algo pelo que lutar pois este havia me tomado todas as forças. Inesperadamente, sou interrompida por Ametista, minha gata, que achou interessante derrubar meus livros da estante e cortar meu momento de introspecção. O ato de levantar para salvar os livros foi tão rápido que fiquei zonza, com a vista turva e precisei de alguns segundos para me recompor, olho para o chão preocupada tentando identificar quais livros ela havia derrubado e analisar os danos, percebo que eram mínimos. Abaixo para juntar todos e organizar em seus devidos lugares na estante, quando percebo uma sacolinha bem atrás dos livros, era da farmácia…

Um teste de gravidez…

Recordo que havia deixado ali dias atrás quando eu e meu ex-namorado havíamos discutido. Senti alguns sintomas, mas não quis compartilhar com ele de imediato tal preocupação, como aparecera de surpresa para nos resolvermos, escondi o teste rapidamente atrás dos livros e deixei para depois. Não nos resolvemos, digo, nos resolvemos. Terminamos. Lembro de ter ficado tão atordoada, que não pensei em mais nada, só queria entender o motivo de tantas despedidas e assim o teste ficou esquecido. Parece que Ametista entendia o que precisava ser feito, e o momento certo de fazê-lo.

Decidi por desencargo de consciência fazê-lo, não tinha nada a perder mesmo, era somete um teste. O que poderia acontecer?

No fundo, a vitrola seguia a trilha sonora com o instrumental inconfundível do som dedilhado do violão e voz de George Harrison – “Here Comes the sun… dururuu” – olhei atentamente para o teste esperando o resultado “Here Comes the sun, and I say…” – minha cabeça começou a girar, todo o meu apartamento some, a música fica abafada, baixa, sou só eu e o resultado, o tempo para por dois segundos e…

Positivo

It’s all right…

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