Morre Joel Tristão, o maior treinador da história da ASBJ

BOM JESUS DO GALHO – O futebol regional amanheceu mais silencioso nesta quarta-feira (4). Morreu, aos 94 anos, Joel Tristão, o maior treinador da história quase centenária da Associação Sportiva Bom Jesus (ASBJ). Com ele, não parte apenas um técnico: despede-se uma era, um modo de ver o futebol e de vivê-lo como arte, estratégia e paixão.
A história de Joel se confunde com a própria história da ASBJ. Filho de Mário Tristão, um dos fundadores e primeiro goleiro do clube, ele cresceu entre bolas de futebol, traves improvisadas e sonhos costurados à camisa tricolor. Foi jogador, depois treinador, e fez do Bom Jesus do Galho um território respeitado nos gramados da região. Seus filhos Harlém, Joel Tristão Jr. e Nardyello também vestiram a camisa do clube, perpetuando uma linhagem rara no futebol: a de uma família inteira dedicada a um mesmo escudo.
À frente da ASBJ, Joel Tristão era um homem à frente do seu tempo. Em uma época em que o futebol ainda se resolvia muito mais na raça do que na prancheta, ele já estudava adversários, desenhava esquemas táticos e transformava o treino em laboratório. A tática era parte essencial de seu método — algo quase revolucionário nos anos 1970. Foi nesse período que conduziu a ASBJ a conquistas memoráveis no Campeonato Regional da Liga Caratinguense de Desportos, sagrando-se campeão em 1974 e 1977.
Em tempos de poucos recursos, Joel compensava a escassez com criatividade e faro para talentos. Garimpava jogadores, mas fazia questão de manter como base atletas da própria comunidade de Bom Jesus do Galho, valorizando o chão de onde o clube nasceu. E, quando preciso, recorria a uma de suas marcas mais saborosas: a invenção estratégica, o blefe genial que confundia adversários e alimentava lendas.
Foi assim quando anunciou a chegada de Samuca, supostamente vindo do júnior do Cruzeiro. O “reforço” era, na verdade, seu próprio filho Harlém, rebatizado para causar impacto psicológico nos rivais. Em outro episódio célebre, espalhou que a ASBJ havia contratado um goleiro paraguaio. Orientou o jogador a soltar palavras incompreensíveis em campo. Nos anos 80, no intervalo de um jogo contra o Bairro das Graças, a Rádio Caratinga tentou entrevistá-lo. O goleiro fez sinal negativo, mas Harlém se prontificou a traduzir. O “paraguaio” era Lado, filho do senhor Chico. A farsa foi tão bem-sucedida que o apelido atravessou décadas: até hoje ele é conhecido como Lado Paraguaio.
Fora das quatro linhas, Joel Tristão era tão marcante quanto dentro delas. Casado com Dilma, construiu uma família numerosa: Harlém, Nardyello, Joel Tristão Jr., Lorena, Mário, Juliana e Patrícia. Era dono de um bom papo, contador de histórias nato, locutor, cronista oral de um tempo em que o futebol era vivido com mais proximidade, menos pressa e muita imaginação.

Joel viveu plenamente o seu tempo. No futebol, deixa um testamento feito de títulos, personagens, astúcias e causos que seguirão sendo contados à sombra das arquibancadas. Na memória do esporte regional, permanece como um mestre — daqueles que não apenas vencem jogos, mas ensinam o futebol a pensar.
Ainda serão passadas informações sobre horários de velório e sepultamento.

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