Mais um domingo vai caminhando cabisbaixo para o precipício. Jogada no sofá moldado às minhas curvas, solto um suspiro desolado enquanto assisto a um casal de baleias jubarte acasalando em águas mornas, rodeado de peixes comensais. Que morte triste tem o fim de semana. Mas existe um culpado para isso. Ou melhor: culpada.
Só há uma categoria de pessoas que gosta de segunda-feira: coach motivacional. Afinal, toda segunda-feira pode ser uma segunda chance. Ou: quem faz a sua semana ser boa é você. Ou ainda: faça da sua segunda um dia de primeira. Não faltam frases de efeito para tentar diminuir a rejeição ao primeiro dia útil da semana.
A segunda-feira não precisa nem começar para estragar o humor. A sua proximidade, por si só, já encurta o domingo. Como não posso impedir que as horas corram ligeiras em direção ao dia seguinte, só me resta lamentar. Não dá para ir muito longe, não dá para dormir tarde, não dá para beber até cair. Mas dá para pedir pizza e refrigerante, o que acaba sendo um alento relativo.
Se a segunda fosse uma cor, seria ocre. Não a paz do azul, a vivacidade do amarelo ou o frescor do verde. Ocre. Um marrom esverdeado ou verde amarronzado difícil de encher os olhos. Ocre. Até o nome da cor é feio. Se ela fosse um som, seria o arranhar dos talheres no prato quando um pedaço de carne escorrega. Um som incômodo e invasivo que chega a arrepiar de nervoso. Se tivesse uma textura, seria a de polpa de jaca madura entre os dados dos pés. A mesma que pisoteamos no sábado e no domingo.
Se na segunda faz um dia ensolarado e cálido, logo penso: que desperdício. Se está frio e chuvoso, sentencio: que desânimo. Não tem escapatória, o julgamento é implacável. Se é feriado, ela está parcialmente absolvida de sua culpa, mas esse domingo disfarçado não engana ninguém. Não tem nem futebol. Engraçado é que, mesmo sendo uma extensão do fim de semana, ela não transfere para a terça-feira a rejeição que carrega. Se a semana se inicia na terça, em vez de inconformada, fico feliz pela proximidade com o sábado.
Se pararmos para pensar, o que a terça-feira tem de diferente? Nada. Guarda a mesma quantidade de horas e impõe a mesma rotina. E o que dizer da quarta-feira? Praticamente equidistante dos fins de semana que passou e o que vai vir. Aliás, se tem um dia que deveríamos odiar é este, porque já estamos cansados, mas ainda não podemos “sextar”. Seria muito esquisito “quartar”. É bem verdade que os países nórdicos o fazem, curtindo seu lillördag[1] com uma programação especial para renovar o fôlego. O problema é que nós não temos a disciplina deles nem para instituir um pequeno sábado no meio da semana. O efeito poderia ser devastador nas bandas de cá.
A quinta-feira tem um charme quase irresistível. O cansaço acumulado tem que se espremer e ceder espaço para a expectativa. Assim, a quinta-feira acaba se convertendo no dia perfeito para um happy hour prolongado, um jantar especial, uma sessão de cinema (será ela nosso lillördag?). A sexta-feira é um anfíbio: metade dia útil, metade feriado. Tanto é assim que há quem a declare oficialmente encerrada ao meio-dia. É justamente aí que começam os problemas da segunda feira.
Convenhamos. Depois de uma sexta, um sábado e um domingo de excessos etílicos e gastronômicos, cabe à pobre segunda-feira a tarefa de bancar o adulto na sala e colocar ordem na esbórnia. Sem nenhuma cerimônia, empurramos para a coitada a responsabilidade de ser a curadora-geral dos compromissos: na segunda começo a comer melhor, na segunda começo a me exercitar, vou marcar os médicos na segunda, na segunda eu pago os boletos.
A verdade é que todos os dias úteis são iguais: obrigações, deveres, compromissos, metas, prazos. Na linha de frente dessa infantaria está ela: a segundona. Não é fácil ser o primeiro dia útil e peitar a flacidez dos dias anteriores com puro suco de realidade, sabor de couve e gengibre com um toque de própolis.
Ali, ainda jogada no sofá, enquanto os olhos acompanham indiferentes o movimento da televisão, eu faço contas, puxo pela memória, para ver se encontro alguma segunda-feira que mereça o título de melhor dia da semana. E, surpresa, encontro duas: o dia em que eu nasci e o dia em que meu filho mais velho nasceu. O mais novo, por pouco, não completa a trinca. Ele se apressou para conhecer o mundo em uma noite de domingo tediosa, com baleias jubarte copulando em rede nacional.
[1] Expressão de origem sueca que significa pequeno sábado.
Greyce Silveira Carvalho é caratinguense, escritora e advogada pública
@greycecarvalho
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